Quem será o novo Papa? análise das possíveis surpresas no conclave pós-Francisco

A escolha do próximo Papa promete surpresas: quem será o novo líder da Igreja Católica em meio a um cenário político global em transformação?

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O ambiente político que permeia a escolha do novo Papa é complexo e frequentemente surpreendente, como evidenciado pelo adágio popular no Vaticano: “quem entra no conclave como papa sai como cardeal”. Essa máxima reflete a imprevisibilidade do processo de seleção, onde candidatos considerados favoritos muitas vezes não são os eleitos.

O falecimento do Papa Francisco em 21 de abril, marca o início de uma nova fase para a Igreja Católica, repleta de especulações sobre quem poderá sucedê-lo. Em 2013, Jorge Bergoglio foi uma escolha inesperada para muitos; poucos acreditavam que o argentino seria o eleito no conclave, dado que nomes como o brasileiro Odilo Scherer e o italiano Angelo Scola estavam em destaque nas apostas.

A história mostra que surpresas não são raras. O polonês Karol Wojtyla, que se tornaria o Papa João Paulo II, também começou como um candidato considerado improvável. Em contraste, Joseph Ratzinger era visto como um sucessor natural quando assumiu como Bento XVI, devido à sua proximidade com o pontificado de João Paulo II.

De acordo com especialistas consultados pelo Estadão, Francisco não se dedicou a preparar um sucessor direto. Ao invés disso, ele estabeleceu características desejáveis para um futuro líder da Igreja. Filipe Domingues, vaticanista e professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, observa que as conversas entre os membros da hierarquia eclesiástica revelam uma falta de consenso sobre quem poderia ser escolhido por Francisco caso tivesse a oportunidade de votar.

Um fator importante nesse contexto é a transformação do colégio cardinalício promovida por Francisco, que deixou de ser predominantemente europeu para se tornar mais representativo das diversas regiões do mundo. Essa diversificação resultou em muitos cardeais que não se conhecem pessoalmente e cujas opiniões permanecem pouco conhecidas.

Durante seu papado, Francisco convocou dez consistórios para a nomeação de novos cardeais, um recorde histórico que ultrapassa os nove feitos por João Paulo II. Atualmente, existem 253 cardeais ativos, dos quais 140 têm menos de 80 anos e podem participar da votação. Desses eleitores, 149 foram indicados pelo Papa Francisco, com 110 recebendo a berretta diretamente dele.

Sobre o perfil do próximo papa, o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto sugere que será necessário encontrar um progressista moderado. Este novo líder deverá ser capaz de consolidar as iniciativas implementadas por Francisco enquanto mantém um diálogo com aqueles que são críticos ou insatisfeitos com as direções atuais da Igreja. Para Ribeiro Neto, essa figura precisará se opor ao individualismo exacerbado e defender a solidariedade internacional.

O teólogo Gerson Leite de Moraes destaca também a importância do cenário político global na escolha do novo líder religioso. Ele aponta para o ressurgimento da extrema-direita e os desafios enfrentados pela Europa como fatores que podem levar à eleição de um cardeal europeu na próxima sucessão papal.

A seguir estão alguns dos principais nomes que estão sendo discutidos entre jornalistas especializados no Vaticano e observadores da Igreja:

Cristóbal López Romero, 72 anos: Espanhol naturalizado paraguaio, atualmente é arcebispo no Marrocos. Tem uma trajetória marcada pelo diálogo interreligioso.

Luis Antonio Tagle, 67 anos: cardeal feito ainda por Bento 16, o filipino é o pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização. “Pelo seu jeito pastoral, é uma cópia asiática de Francisco”, avalia o professor Moraes.

Jean Claude Hollerich, 66 anos: primeiro luxemburguês a se tornar cardeal, ele preside a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia. “Tem força política europeia, que pode ser importante na atual conjuntura”, diz Moraes.

Jean Marc Aveline, 66 anos: O cardeal francês figura no grupo de azarões que podem acabar crescendo durante as votações do conclave.

José Tolentino de Mendonça, 59 anos: Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação o português nascido na Ilha da Madeira é visto como uma das vozes mais importantes do catolicismo contemporâneo.

Juan José Omella, 78 anos: o arcebispo de Barcelona também é outro nome que pode despontar como favorito, conforme apostam alguns jornais italianos. “Europeu, experiente e, sem dúvida, alguém que contribuiria para o fortalecimento da Igreja”, diz Moraes.

Mario Grech, 67 anos: O maltês é o atual secretário geral do Sínodo dos Bispos — e como o pontificado de Francisco valorizou muito a sinodalidade, o fato de ter sido alçado ao posto era um sinal de muito prestígio. Em seus discursos, demonstrou acolhimento a imigrantes e homossexuais, entre outros grupos.

Matteo Zuppi, 69 anos: Atual presidente da Conferência Episcopal Italiana, o arcebispo de Bolonha se tornou uma estrela ascendente nos últimos anos, com diversos gestos de acolhimento a casais homoafetivos e tendo sido escalado por Francisco para tentar mediar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

Péter Erdő, 72 anos: o húngaro é um nome conservador que sempre aparece entre os papáveis — mas nos últimos anos vem perdendo força.

Pierbattista Pizzaballa, 59 anos: o italiano é o patriarca latino de Jerusalém, com excelente interlocução junto a líderes judeus e um discurso de defesa dos palestinos.

Pietro Parolin, 70 anos: O italiano do Vêneto é o secretário de Estado da Santa Sé — cargo para o qual foi nomeado no primeiro ano do pontificado de Francisco. Por conta disso, esteve sempre próximo do papa argentino e em diversos momentos foi apontado como um sucessor. “É poliglota e acumula inúmeros serviços prestados à Igreja”, afirma o teólogo Moraes.

Portase Rugambwa, 64 anos: O cardeal tanzaniano já foi secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos é um dos símbolos da maneira como Francisco transformou o colégio cardinalício em uma instituição não mais eurocêntrica.

Robert Prevost, 69 anos: Frei agostiniano, o norte-americano tornou-se prefeito do Dicastério para os Bispos em 2023. No mesmo ano, recebeu o barrete vermelho cardinalício. Seu papel cresceu em importância nos últimos anos.

Sérgio da Rocha, 65 anos: na imprensa italiana, o nome do brasileiro é apresentado como o de alguém que corre por fora mas pode acabar sendo eleito. Atual primaz do Brasil, por ser o arcebispo de Salvador, Rocha presidiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 2015 a 2019. Contudo, analistas acham pouco provável que o próximo papa seja latino-americano como Francisco — esta é a opinião do vaticanista Domingues, por exemplo.

Willem Jacobus Eijk, 71 anos: o neerlandês é um dos mais importantes críticos ao papado de Francisco, principalmente por acreditar que a doutrina e a prática católicas precisam seguir, em suas palavras, “regras mais claras”.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 21/04/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo