Quando a única saída é fugir da realidade

Todos nós, num determinado momento, pressionados por algo que naquele momento parece pesado demais para suportar, surtamos nos mais diferentes níveis. Fuga da realidade ou esquizofrenia?

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A vida não é fácil para ninguém, isso é um fato. Para alguns pode ser o estresse de conviver com a ameaça da perda de um emprego que garante a sobrevivência, para outros pode ser a perda de um ente muito querido e para alguns o fator desencadeante, o gatilho da fuga da realidade, pode ser a pura fantasia de que a vida, até aquele momento, não valeu a pena.

Freud diz que nós aperamos em dois níveis. O primeiro deles, característico das crianças, é o pensamento primário, onde a realidade é incapaz de tocar e aquilo que ela cria como verdade para si mesmo é inabalável e a faz ser feliz. Com o tempo a criança cresce e é confrontada com as frustrações. É neste momento que ela passa a tentar resolver seus problemas e passa a operar no pensamento secundário, ou seja, dentro da realidade, aceitando suas limitações e achando a melhor maneira para resolver os seus problemas.

A esquizofrenia, que não necessariamente é uma enfermidade duradoura e constante, nada mais é do que um estado onde o indivíduo volta a pensar e a agir como se fosse uma criança e, dentro do pensamento primário, passa a elaborar situações fantasiosas como se elas fossem a única maneira de viver. Como trata-se de uma volta à infância, nada mais natural a quem está, como diz Freud, regredido, do que buscar lugares e situações que lhe trazem boas lembranças, momentos que foram felizes e onde não havia com o que se preocupar.

É natural a quem está dentro de um processo destes tentar voltar ao passado, tentar reencontrar e reatar amizades que foram deixadas para traz. Uma das características de alguém assim é a nostalgia. Tudo como uma forma de tentar se ver como naquela época, sem perceber, no entanto, que o tempo passou e que tanto quem está regredido, como as pessoas e lugares que ela busca também não são mais aquilo o que foram em determinada ocasião.

Durante algum tempo esta fuga esquizofrênica funciona. Porém, à medida que aquele que está surtado entra em contato com aquilo que fantasiou, esta pessoa começa a sentir que algo está errado, que o passado na verdade não pode retornar. E neste momento que ela é jogada novamente em realidade e no pensamento secundário. Dentro de sua fantasia as coisas começam a desmoronar e o desprazer começa a desmanchar o sonho dourado.

Alguns, confrontados novamente com outra realidade e um sonho desfeito caem na realidade e passam a pesar o que viviam e a nova realidade, não fantasiosa, que agora estão vivendo. Há choques, aparecem comparações e em seu íntimo esta pessoa é convidada à possibilidade de escolher entre aquilo que achava que era insuportável e aquilo que agora começa a se tornar insuportável para ela.

O que se vê invariavelmente nos consultórios são pessoas tentando retornar à situação da qual fugiram. Algumas conseguem juntar os cacos que deixaram para traz e passam a retomar suas vidas como se nada tivesse acontecido. Outras, entretanto, quando tentam reassumir suas vidas de onde pararam, percebem que o que elas deixaram não está mais lá. A realidade que voltou a se tornar agradável não existe mais. Então sobrevém a angústia e a depressão.

Não há o que fazer para ajudar estas pessoas. Elas, enquanto surtadas, são incapazes de ponderar os prós e contras de suas atitudes, não querem perceber ou receber conselhos, são incapazes de ouvir a voz da razão. O que as pessoas que estão próximas podem fazer é apenas observar e, como dizem por aí, dar tempo ao tempo para que a realidade volte a bater de frente com este indivíduo.

Isso pode fazer parte da vida de qualquer um e afeta não apenas quem surtou, mas também quem é dragado pelo maremoto da necessidade da mudança. Quem se lança ao desconhecido invariavelmente vê sua fantasia destruída e, na melhor das hipóteses consegue reestabelecer a vida que deixou para traz. Aqueles que não conseguem, precisam, e muito, contar com o apoio dos familiares e amigos para tentar se reerguer das cinzas.

Mas, o que sobre depois de tudo isso são muitas lições para todos os que se envolveram no processo. Para aqueles que conseguem se perceber, esta é uma oportunidade para se perceber, para iniciar mudanças e para crescer como indivíduo. Às vezes as pessoas não conseguem fazer isto sozinhas e a figura de um Psicanalista se torna essencial no processo. Sabemos que muitos correm do divã, mas a situação de sofrimento em que estas pessoas estão a busca pela psicanálise se torna uma opção apreciável.

  • Publicado: 06/11/2025
  • Alterado: 06/11/2025
  • Autor: 16/03/2016
  • Fonte: Live Nation