Programa Federal impulsiona mercado de consignado privado
Fintechs vão na contramão dos bancos e investem em atendimento físico, oferecendo acesso ao crédito consignado privado para negativados
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 29/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O cenário do crédito no Brasil vive uma dicotomia. De um lado, o Governo Federal projeta incluir 25 milhões de pessoas no mercado de consignado privado nos próximos quatro anos, aproveitando uma base de 47 milhões de trabalhadores com carteira assinada por meio do programa Crédito do Trabalhador. De outro, o acesso real esbarra em entraves históricos: o alto endividamento e a dificuldade de comprovação de renda.
Nesse contexto, o modelo de crédito consignado privado — onde as parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento do trabalhador da iniciativa privada — surge como a principal alternativa para substituir dívidas caras, como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial.
O perfil do tomador
A urgência por crédito tem levado o brasileiro a comportamentos de risco. Segundo um estudo recente da Klavi, uma empresa especializada em inteligência via Open Finance, realizado entre o final de 2023 e o início de 2025, 59% dos brasileiros superdeclaram sua renda ao buscar financiamento.
O dado é ainda mais alarmante entre quem ganha até dois salários mínimos: 84% inflacionam seus ganhos, chegando a declarar o dobro do que realmente recebem.

Essa distorção reflete a dificuldade de aprovação em modelos tradicionais de crédito. Dados da Top One Financeira mostram que, no final de 2025, dos 40 mil consumidores que buscaram crédito no varejo, quase metade (19 mil) estava negativada, o que reduziu drasticamente a base elegível.
Fintech Gooroo contraria bancos e abre lojas em SP e no ABC
Em um cenário onde grandes instituições financeiras fecham agências e migram massivamente para o digital, um movimento inverso chama a atenção no Grande ABC e em São Paulo. A Gooroo Crédito, fintech especializada em crédito consignado privado, iniciou sua expansão física com a inauguração de três lojas: em São Bernardo do Campo, Santo André (ambas no ABC) e uma em São Paulo, a partir de fevereiro.
A estratégia aposta no modelo figital (físico + digital) para capturar uma fatia de mercado muitas vezes ignorada pelos bancos tradicionais: o trabalhador de pequenas empresas e o público negativado.
Segundo dados divulgados pela empresa, as inaugurações acontecem nos dias 05, 06 e 10 de fevereiro, a começar por uma unidade localizada em Santo Amaro, na capital paulista, depois em Santo André e por fim em São Bernardo do Campo. As regiões foram escolhidas pela alta circulação de trabalhadores formais e pela proximidade com centros comerciais e empresariais, facilitando o acesso de quem busca atendimento financeiro presencial.
Nessas lojas, os clientes poderão contratar consignado privado por meio do Crédito do Trabalhador, crédito pessoal, crédito para pequenos empreendedores (PJ), seguros e outros serviços financeiros, com o apoio de consultores especializados.
A empresa já opera digitalmente há três anos e meio com mais de 200 mil clientes de consignado privado espalhados em mais de 2500 cidades. Nascida fruto do programa Crédito do Trabalhador, a Gooroo utiliza a tecnologia para viabilizar o que chama de democratização do crédito.
Segundo Rodolfo Takahashi, cofundador e CEO da Gooroo, o objetivo é levar as mesmas condições de juros baixos das grandes indústrias para o funcionário do pequeno comércio.
“A Gooroo nasceu com um objetivo bastante claro: a democratização do crédito consignado privado. Por exemplo, o pessoal da Volkswagen, da GM, da Scania tinha crédito consignado. Mas o profissional do ‘boteco do Zelão’, às vezes com 10 ou 15 anos de empresa, não tinha porque não havia tecnologia para isso”, explica Takahashi.
O potencial econômico do ABC Paulista para o consignado privado

A escolha da região para o início da operação física não foi aleatória. Além da proximidade com a sede da empresa em Pinheiros e das raízes dos fundadores na região, o ABC sustenta indicadores econômicos e uma alta concentração de demanda por consignado privado reprimida.
“É um mercado realizador. O PIB de São Bernardo, Santo André, São Caetano e Diadema é muito relevante. O ABC tem uma concentração enorme de eventuais clientes negativados que precisam de crédito”, afirma o CEO da fintech.
Essa leitura de mercado se alinha aos dados mais recentes do setor. Mesmo com juros elevados, o crédito no varejo cresceu 6,8% no final de 2025. No entanto, a oferta não chega para todos, conforme mostrou o levantamento da Top One Financeira.
A alta demanda por crédito consignado privado
A presença física da Gooroo visa gerar confiança e facilitar a análise de risco em um mercado onde a cegueira de dados prejudica a concessão de empréstimos, conforme se comprovou com o estudo da Klavi citado no início desta reportagem.
Bruno Chan, CEO da Klavi, alerta que “a autodeclaração ainda é muito distante da realidade”, o que eleva o risco para quem empresta e encarece o crédito para quem toma.
É neste cenário de incerteza que o modelo de crédito consignado privado da Gooroo se destaca. Ao operar com o Crédito do Trabalhador, possibilitando consignado privado com desconto em folha, a fintech mitiga o risco de inadimplência e elimina a necessidade de inflacionar renda, pois a garantia está no vínculo empregatício.
Tecnologia contra fraudes e juros abusivos
A segurança da operação permite que a fintech ofereça taxas competitivas, começando em 1,79% ao mês — patamar inferior ao financiamento de veículos, que gira em torno de 2,29%. Além disso, o uso intensivo de tecnologia blinda a operação.
“A Gooroo nunca sofreu nenhuma fraude, porque investimos muito em tecnologia. A inadimplência é um pouco maior que a média do mercado tradicional porque ofertamos crédito a colaboradores negativados, mas nada que extrapole o controle”, garante Takahashi.
A agilidade também é um diferencial da operação digital que será levada para as lojas: a aprovação e assinatura do contrato do consignado privado podem ser feitas em apenas 4 minutos, com o recurso caindo na conta em até 24 horas. Através da integração com a CTPS Digital (Carteira de Trabalho Digital), o trabalhador consegue solicitar e assinar o contrato de forma virtual.
Expansão agressiva para 2026
A meta da Gooroo é estar em mais de 80% das cidades brasileiras por meio do atendimento on-line via canais digitais e parceiros e inaugurar mais de 40 lojas ao longo do ano. O novo produto de crédito consignado privado, impulsionado pela política governamental de crédito, permitiu que a empresa escalasse rapidamente. “O meu negócio só existe hoje por causa do programa do Governo. Antes era uma lei onde qualquer empresa poderia atuar, mas agora a Gooroo foi uma das poucas habilitadas”, pontua o executivo.
Para sustentar essa expansão, a fintech utiliza um FIDC próprio (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). Esse modelo permite captar recursos com investidores para emprestar na ponta final.
As três novas lojas entre o ABC e São Paulo são apenas o começo de um plano ambicioso. “Cidades como Guarulhos e na Baixada Santista já estão no nosso planejamento de curto prazo”, revela Takahashi.
O varejo tradicional vê o consumo ficar mais racional devido ao comprometimento de renda, como aponta Vanderley Cardoso de Moraes, CEO da Top One: “O consumo não parou, mas ficou mais racional. Com juros elevados e renda comprometida, o consumidor passou a analisar com mais critério o impacto das parcelas no médio e no longo prazo”, destaca o executivo.
Enquanto isso, as fintechs que conseguem navegar entre o digital e o físico para atender o público desbancarizado ou negativado encontram um oceano azul de oportunidades. “O crediário se fortaleceu por oferecer previsibilidade, prazos claros e maior controle financeiro, sobretudo em compras de bens duráveis, que exigem planejamento e decisões mais conscientes”, finaliza Moraes.