Profissionais abandonam empregos presenciais em busca de qualidade de vida

Trabalhadores priorizam saúde e qualidade de vida, gerando uma onda de demissões

Crédito: Marcelo Camargo - Agência Brasil

O crescente receio de assaltos, importunação sexual, a falta de tempo para aprimoramento profissional e a necessidade de conciliar a vida pessoal com as demandas do trabalho têm levado muitos profissionais brasileiros a optarem por deixar seus empregos, em vez de retornarem ao ambiente presencial. Essa situação se intensificou, mesmo com as potenciais perdas financeiras que essa escolha pode acarretar.

Um exemplo representativo é o caso de Rael Souza, morador de Santo André (SP), que enfrentava uma rotina desgastante de deslocamentos diários que somavam quase cinco horas. Rael, um jovem profissional da área de tecnologia da informação, foi forçado a retornar ao trabalho presencial após sua empresa ser adquirida. Em apenas quatro meses, ele decidiu pedir demissão e se reinventar como motorista de aplicativo, buscando melhorar sua qualidade de vida e ter mais tempo para cuidar da saúde.

“Era desgastante. Não tinha tempo para me cuidar e já chegava cansado no trabalho, o que afetou minha produtividade. Não via perspectiva e repensei minha carreira”, diz Rael. O cenário observado por Rael é compartilhado por muitos trabalhadores que optam por deixar seus postos diante da pressão para retornar ao ambiente de escritório.

Dados recentes do Ministério do Trabalho revelam que 8,5 milhões de trabalhadores se demitiram voluntariamente em 2024. A pesquisa apontou que a transição do trabalho remoto para o presencial tem sido um fator significativo na decisão de desligamento desses profissionais.

A pesquisa revelou ainda algumas razões principais para as demissões:

  • 15,7% mencionaram a falta de flexibilidade na jornada.
  • 21,7% relataram dificuldades de locomoção entre casa e trabalho.
  • 9,1% destacaram a responsabilidade em cuidar de crianças ou outros familiares.

Um estudo global realizado pela Gartner indicou que 33% dos executivos que tiveram que retornar ao escritório estão considerando deixar suas empresas devido a essa mudança. Além das questões práticas relacionadas à mobilidade urbana, outros fatores como medo de violência nas ruas e a necessidade de passar mais tempo com a família têm contribuído para esse cenário.

Histórias como a de Rael são comuns no atual mercado laboral. Luciano Freitas, ex-líder em uma startup, também decidiu pedir demissão após enfrentar longos trajetos diários que resultaram em estresse e cansaço. Ele descreve um episódio onde levou 2h30 para voltar para casa em uma noite chuvosa: “Pedi demissão sem ter outra proposta em vista, simplesmente cansado da cultura do presencial a qualquer custo”.

Michelle Barbosa, recrutadora na área de tecnologia, exemplifica outra perspectiva: mesmo com promessas de aumento salarial, ela recusa-se a retornar ao trabalho totalmente presencial. Para ela, “conhecer o céu do home office tirou a venda dos olhos” e demonstrou que é possível viver uma vida além do trabalho.

A insegurança nas ruas é uma preocupação crescente entre os trabalhadores. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 86% das pessoas se sentem inseguras em suas cidades. O fenômeno é ainda mais acentuado entre mulheres: um levantamento revelou que três em cada quatro mulheres já sofreram assédio em transportes públicos.

Essas preocupações tornam o trabalho remoto uma opção atraente não só pela flexibilidade mas também pela sensação de segurança associada ao fato de poder trabalhar em casa. Para muitos trabalhadores, permanecer em casa significa evitar riscos e garantir maior proteção pessoal.

A mudança no cenário profissional após a pandemia fez com que muitos repensassem suas prioridades. Segundo Taís Targa, mestre em educação e trabalho, houve um deslocamento no foco dos profissionais: “A pandemia incentivou muitos a valorizarem aspectos intangíveis da vida profissional, como estar próximo da família e ter tempo livre”.

No entanto, as empresas também precisam se adaptar às novas demandas. Algumas organizações estão adotando modelos híbridos ou completamente remotos como forma de atrair e reter talentos. A Atlantic Tax & Advisory é um exemplo positivo desse movimento; segundo seu CEO Daniel Pires, o home office resultou em aumento da produtividade e satisfação entre os colaboradores.

A Dale Comunicação também se destacou ao implementar políticas flexíveis que permitiram uma maior diversidade na contratação e crescimento financeiro. Ao contrário dessas empresas adaptativas, outras gigantes como Amazon e Dell enfrentam desafios com suas políticas rígidas de retorno ao presencial.

A transição abrupta para o modelo presencial tem gerado uma onda crescente de pedidos de demissão entre aqueles que desejam permanecer no remoto. Por outro lado, empresas que oferecem flexibilidade tendem a obter vantagens competitivas na retenção de talentos.

Portanto, o debate sobre qual modelo de trabalho é mais eficaz permanece acalorado entre empregadores e empregados. Especialistas alertam para a importância da comunicação aberta e compreensão mútua nas relações profissionais contemporâneas. O futuro do trabalho parece depender da capacidade das organizações em equilibrar produtividade com as necessidades humanas básicas dos colaboradores.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 04/06/2025
  • Fonte: Sorria!,