O problema do engajamento pode estar na gestão da comunicação interna
Alinhar estratégia, dar clareza às decisões e transformar mensagens em ação é o que torna a comunicação eficaz
- Publicado: 05/05/2026 18:13
- Alterado: 06/05/2026 10:03
- Autor: Rodrigo Freitas
- Fonte: ABCdoABC
A comunicação interna ainda é subestimada na maioria das empresas, e esse talvez seja um dos erros mais caros da gestão contemporânea. Durante anos, foi tratada como suporte operacional, um canal para repassar decisões já tomadas. Esse modelo não apenas ficou ultrapassado, como se tornou um risco. Em um ambiente organizacional cada vez mais complexo, multifacetado e diverso, focar em engajamento é dar a direção correta.
Os dados mais recentes deixam isso evidente, embora nem sempre as empresas traduzam isso em prática. A pesquisa Tendências da Comunicação Interna da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) aponta que 79% das empresas indicam o fortalecimento da cultura organizacional como prioridade, enquanto 78% destacam a necessidade de ampliar a clareza estratégica. Além disso, 58% utilizam a comunicação interna para apoiar a adoção de novos comportamentos e processos. O quadro é claro, as empresas já entendem a importância, mas ainda têm dificuldade em transformar isso em rotina.
O problema aparece quando essa consciência não chega à execução. Segundo o estudo, 71% das organizações apontam dificuldade em engajar lideranças como comunicadoras, enquanto 63% indicam desafios na comunicação de estratégia e cultura. A comunicação ganhou espaço, mas ainda não ganhou consistência. Em muitos casos, não há um responsável claro por sustentar essa agenda no dia a dia.
É nesse ponto que o engajamento começa a se perder. Não falta iniciativa, mas faltam clareza e continuidade. Engajamento depende de entendimento, e quando as pessoas não compreendem o rumo da empresa, o motivo das decisões, bem como o papel que desempenham, o vínculo enfraquece. E quando isso acontece, qualquer esforço de mobilização perde força rapidamente.
Comunicação como construção de sentido coletivo

Ainda existe uma tendência de achar que melhorar a comunicação é aumentar canais, no entanto, somente essa estratégia não resolve. A maioria das empresas não tem falta de ferramentas, mas, sim, excesso de informação circulando sem uma direção clara.
O que importa neste contexto não é o volume de canais e informações, mas se de fato existe entendimento das ações e conteúdos propostos. Comunicação eficaz reduz ruído, organiza prioridades e conecta estratégia com execução, engajando os times. Isso exige constância e alinhamento entre discurso e prática, e os gestores diretos têm um papel central nesse processo. São eles que traduzem a estratégia no cotidiano para o restante da empresa. Quando estão preparados, ajudam a dar coerência, caso contrário, cada equipe passa a interpretar as mensagens de um jeito, o que fragmenta a execução. Com o tempo, essa fragmentação ultrapassa a operação e passa a afetar a forma como as pessoas se conectam com a organização.
O impacto direto na retenção e na cultura
A relação entre comunicação interna e retenção também é subestimada em algumas empresas, o que acaba gerando turnover alto, uma vez que, atualmente, a permanência dos colaboradores não depende exclusivamente de benefícios, cargos ou salário. Na contemporaneidade, ela também está ligada ao entendimento do contexto, à confiança nas decisões e à sensação de pertencimento.
Quando a comunicação falha, o ambiente se torna mais instável. Decisões pouco explicadas e mensagens desconectadas criam interpretações paralelas, o que desgasta, ao longo do tempo, a relação com a organização. Por outro lado, quando a comunicação é tratada como parte da estratégia, há mais coerência no dia a dia. A narrativa se aproxima da prática e, assim, a cultura se sustenta de forma mais consistente.
A mensuração da comunicação interna já faz parte da realidade de muitas empresas. Indicadores ajudam a entender alcance e engajamento, mas não resolvem sozinhos. O desafio dos profissionais de comunicação, com apoio da alta liderança, está justamente em interpretar esses dados e transformá-los em ação concreta e contínua.
Diante disso, a comunicação interna precisa ser tratada como uma alavanca de gestão, capaz de dar consistência às decisões e fluidez à execução. Quando bem conduzida, ela cria um ambiente mais previsível e confiável, gerando engajamento.
Organizações que evoluem nessa frente conseguem transformar informação em entendimento, além de estratégia em ação. O resultado aparece no cotidiano, refletindo em equipes alinhadas, lideranças mais preparadas e uma cultura que se sustenta pela prática. A comunicação interna, assim, deixa de ocupar um papel secundário e passa a contribuir diretamente para a solidez e continuidade do negócio.
Rodrigo Freitas

Rodrigo é jornalista e radialista, com pós-graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atua no mercado de comunicação desde 2007, com foco no relacionamento com a imprensa, influenciadores e diversos stakeholders. Atualmente, é gerente de comunicação na Race Comunicação, e está à frente do caderno Comunicação em Contexto no ABCdoABC.