Prefeitura vê fim de ‘interesse público’ e pede despejo de ONG ‘Meninos e Meninas de Rua’

Projeto que atende crianças vulneráveis há 30 anos pode ser desalojado se Justiça acolher argumentos da gestão municipal que alega necessidade de destinar imóvel público para idosos

Crédito: Reprodução

A Justiça deverá julgar nesta quarta-feira, 26, uma ação da prefeitura de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, que pede tutela de urgência para que a ONG Associação Projeto Meninos e Meninas de Rua, seja obrigada a desocupar imediatamente um imóvel público. A ação corre na Vara da Fazenda Pública. Segundo a ONG, o espaço é utilizado desde a década de 1980 para ações de defesa de direitos humanos de crianças e adolescentes em situação de rua e/ou vulnerabilidade.

De acordo com a ação protocolada pela prefeitura, o uso do imóvel foi permitido à ONG a título precário e gratuito por meio de um decreto oficial de 1994 que previa que a entidade ‘deveria desocupar o imóvel imediatamente quando solicitado pela Administração, sem direito à retenção ou indenização por quaisquer benfeitorias, ainda que necessárias, as quais se incorporariam ao patrimônio público municipal”.

A ação indica que ‘o interesse público que acarretou a permissão de uso deixou de existir, pois a Administração Pública pretende dar ao imóvel outra destinação’. O espaço, segundo o documento, passaria a ser um centro de cuidado com pessoas idosas. Em novembro 2018 a associação teria sido notificada para desocupar o imóvel no prazo de 15 dias, mas não o fez. Por isso, a prefeitura pede tutela de urgência ‘para que o réu desocupe o imóvel imediatamente’.

Alega-se que a ‘recalcitrância’ da entidade está frustrando a implantação do centro Dia do Idoso. ‘Como se sabe, a demanda por serviços públicos de saúde e de assistência social aumenta a cada dia, principalmente em tempos de crise econômica’, aponta a prefeitura.

A ONG contesta essa conduta e afirma que as atividades do Projeto Meninos e Meninas de Rua, que a prefeitura busca desalojar, são fundamentais na assistência à população vulnerável, ao atender diretamente cerca de 600 pessoas e, indiretamente, mais de duas mil por ano.

Em nota, a entidade diz que as ações constituem na distribuição de alimentos, oficinas culturais, apoio psicológico, encontros educativos, entre outros, ‘ com o foco em crianças, adolescentes e famílias em situação de maior vulnerabilidade’, além de apoio a crianças e adolescentes com familiar encarcerado. Ela aponta, também, que suas atividades e auxílios ajudam a construir uma rede de apoio para as mães da comunidade.

Na nota, a coordenadora do Núcleo Especializado da Infância e Juventude da Defensoria Pública, Lígia Mafei Guidi, apresenta apreensão. “Nossa preocupação é a interrupção desta política social tão importante para os meninos e meninas em situação de rua, prestada há mais de 30 anos”.

Já o diretor da ONG, Marco Antônio Silva Souza, conhecido como Markinhos, questiona o fato de que São Bernardo do Campo aderiu ao Projeto Cidades Antirracistas do Ministério Público de São Paulo. “São Bernardo é uma cidade antirracista? Então, por que tenta, com tanto esforço, despejar um projeto com reconhecimento nacional na área de educação? Por que acabou com diversos projetos e encerrou ações na periferia ou voltadas para a população negra?”, disse.

O embate entre a prefeitura de São Bernardo do Campo e a Associação Projeto Meninos e Meninas de Rua se desenrola há anos com direito a manifestações públicas e protestos. O pedido de desocupação, feito em 2018, chegou a ser suspenso temporariamente durante a pandemia.

Desocupação, indenização e pagamento de despesas

Além de pedir a desocupação imediata do imóvel, por meio de tutela de urgência, a ação da prefeitura requer ainda que a Associação Projeto Meninos e Meninas de Rua seja condenada a pagar as ‘despesas necessárias com eventual retirada de benfeitorias, bens e coisas, cujo valor deverá ser apurado na fase de liquidação’, assim como as despesas processuais e os honorários advocatícios.

A ação solicita também a condenação da ONG ao pagamento de uma indenização ‘pela ocupação irregular do imóvel’. O valor também deverá ser apurado na fase de liquidação.

Entidades protocolam amicus curiae

Quatro entidades da sociedade civil intercederam a favor da Associação Projeto Meninos e Meninas de Rua por meio de um amicus curiae, uma ferramenta jurídica que permite que entidades apresentem fatos para tentar ajudar o juiz responsável a julgar corretamente algum processo.

Nesse caso, o Instituto de Referência Negra Peregum, a Coalizão Negra por Direitos, a Associação de Amigos e Familiares de Presos/as e a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio alegaram que ‘o Projeto Meninos e Meninas de Rua é uma importante ferramenta de fortalecimento, defesa e promoção de direitos da infância e juventude, sobretudo de crianças e jovens de famílias negras e das periferias, que são as mais atingidas por violações de direitos de toda sorte’.

O documento acrescenta, ainda, que ‘a permanência do PMMR no prédio onde está estabelecido há mais de 30 anos concretiza a defesa dos princípios constitucionais democráticos, por fortalecer o desenvolvimento de políticas de atenção a populações vulnerabilizadas pelas desigualdades raciais e sociais que desafiam o Estado Democrático de Direito’.

Denúncia na ONU

Segundo nota da Associação Projeto Meninos e Meninas de Rua, as entidades Uneafro Brasil e o Movimento Negro Unificado denunciaram ‘as práticas da administração municipal’ à Organização das Nações Unidas durante o Fórum Permanente de Afrodescendentes, nos Estados Unidos. Antes disso, o Projeto, junto com entidades do movimento negro, denunciou a cidade por ‘racismo institucional’ no Ministério Público.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

Procurada pela reportagem do Estadão, a prefeitura de São Bernardo do Campo enviou nota em que alega que o projeto não vem desenvolvendo atividades ordinárias há anos e que requisitou o espaço para ‘melhor utilização com outros projetos de relevância social’. A prefeitura questionou, ainda, a idoneidade do projeto junto ao TCE. Leia a nota na íntegra:

A prefeitura de São Bernardo o projeto “Meninos e Meninas de Rua” é objeto de ação judicial em curso. A entidade ocupa área pública e não vem desenvolvendo atividades ordinárias há anos, razão pela qual o município requisitou o espaço para melhor utilização com outros projetos de relevância social. Além disso, a entidade é apontada como inidônea pelo TCE/SP (conforme anexo) e, desta forma, se encontra impedida de receber qualquer espécie de repasse de entes públicos no Estado de São Paulo, incluindo a concessão de espaços públicos.

COM A PALAVRA, A ASSOCIAÇÃO PROJETO MENINOS E MENINAS DE RUA

Em nota enviada para responder questionamentos da reportagem do Estadão, a ONG informou que continua desenvolvendo suas atividades e que o processo no TCE é ‘de ordem administrativa’, supostamente podendo ‘ser sanado de forma técnica’. Veja na íntegra:

Apesar do sucateamento de políticas públicas no atendimento à crianças e adolescentes, o Projeto Meninos e Meninas de Rua seguiu desenvolvendo atividades com as crianças e suas famílias. Durante a pandemia, por exemplo, enquanto na Secretaria de Assistência Social estragavam cestas básicas, o Projeto seguiu no suporte a famílias da região.

Hoje as atividades com as crianças que ocorrem no espaço, são de caráter lúdico, pedagógico, social e de cidadania.

Em relação ao processo no TCE-SP é de ordem administrativa e não de idoneidade, que poderia ser sanado de forma técnica.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 26/07/2023
  • Fonte: FERVER