Preço do café pode cair, mas não por causa de Trump: setores buscam novos mercados na Ásia

Com a imposição de tarifas pelos EUA, agroindústria brasileira se reorganiza para evitar perdas e redirecionar exportações

Crédito: Governo de SP

Apesar da sobretaxa de 50% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, a possível queda no preço do café não está relacionada a essa decisão. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), os preços devem cair a partir de outubro e novembro graças à expectativa de uma safra recorde no próximo ano, o que deve reequilibrar a oferta global.

“O café subiu nos últimos anos por uma combinação de fatores climáticos e especulação nos mercados futuros”, explicou Pavel Cardoso, presidente da Abic. “Com a normalização da produção, os preços devem recuar naturalmente, independentemente do tarifaço norte-americano”, completou.

Ainda assim, a Abic ressalta que os Estados Unidos são o maior mercado individual para o café brasileiro, respondendo por 16% das exportações — atrás, em bloco, apenas da Europa, que representa 53%.

Carnes e ovos devem redirecionar exportações para a Ásia

Nos setores de carnes e ovos, o impacto da tarifa americana tende a ser mais limitado. O Brasil já exporta cerca de 30% da carne bovina que produz e mantém a maior parte do mercado interno. Os EUA absorvem apenas 12% dessas exportações, especialmente cortes de dianteiros do boi e miúdos, utilizados em hambúrgueres e pratos asiáticos.

Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), a China é o maior destino da carne bovina brasileira, com 44% das exportações. “O mercado asiático pode absorver parte do excedente. Os EUA, por sua vez, são grandes dependentes da nossa carne, e serão os mais prejudicados”, afirmou.

Já na carne suína e nos ovos, a participação americana é ainda menor. De acordo com a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), os EUA são apenas o 12º comprador de carne suína brasileira e, embora liderem nas compras de ovos, o volume exportado representa menos de 1% da produção nacional.

Suco de laranja é o setor mais ameaçado com tarifa

Diferentemente dos demais setores, o de sucos cítricos — especialmente o suco de laranja — tem fortes razões para se preocupar. A CitrusBR (Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos) alerta que cerca de 95% da produção brasileira é voltada para exportação, sendo 42% destinada aos Estados Unidos.

“O imposto extra fará com que 70% do valor da tonelada negociada vá apenas para cobrir a tarifa”, destacou Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR. “A operação se tornará inviável.” Além disso, o mercado europeu, que já responde por 52% das exportações, não tem capacidade de absorver o excedente. A aposta passa a ser a Ásia, mas, segundo Netto, países como China e Coreia do Sul ainda não conseguem substituir o volume americano no curto prazo.

A indústria de sucos, segundo o executivo, não está estruturada para vender ao mercado interno: o produto viaja a granel e é envasado no destino. Além disso, o consumidor brasileiro está mais habituado a sucos naturais, o que torna o redirecionamento logístico e comercial pouco viável.

Economistas apontam riscos e oportunidades com a medida

Para especialistas, a medida do presidente Donald Trump é mais um reflexo do cenário geopolítico atual, especialmente após o encontro dos Brics, que teria irritado o governo americano. “Trump teme a perda de protagonismo do dólar e tenta reagir com protecionismo”, analisa o economista André Perfeito.

André Braz, da FGV Ibre, vê na crise uma oportunidade de abrir novas frentes comerciais. “O Brasil precisa aproveitar o momento para se reposicionar globalmente”, disse. Já Maria Andréia Parente Lameiras, do Ipea, alerta para efeitos colaterais internos. “Se as empresas não conseguirem redirecionar a produção, podem cortar empregos para conter custos.”

O professor Ladislau Dowbor, da PUC-SP, vai além: “Devemos usar esse momento para fortalecer o mercado interno e combater a insegurança alimentar. Produzimos alimentos em volume suficiente para isso.” Para ele, a diversificação de mercados e o incentivo ao consumo interno são saídas estratégicas diante de incertezas internacionais.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 13/07/2025
  • Fonte: Sorria!,