Praticamente 40% das bets já aceitam depósitos de R$1

Levantamento inédito revela que 59 das 163 plataformas licenciadas no Brasil e hoje online permitem começar com apenas R$1. Enquanto o governo Lula declara guerra ao setor, especialistas veem na barreira quase zero um estímulo perigoso ao endividamento

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A porta de entrada para o mundo das apostas online nunca foi tão baixa. Um levantamento do portal especializado Site de Apostas analisou as 162 casas de apostas com licença ativa no Brasil e online em abril de 2026: 59 bets (36,%) já aceitam depósito mínimo de apenas R$1 via Pix. Quando somadas as faixas de R$2 a R$5, o número sobe para 102 plataformas (63% de todo o mercado legal).

“O que os números mostram é uma transformação profunda do mercado. Há poucos anos, antes da Lei 14.790/23, o depósito de R$1 era muito raro. Hoje, ele é a faixa mais numerosa do setor”, afirma Felipe Pereira, editor do Site de Apostas responsável pelo estudo. A combinação entre o Pix, que eliminou tarifas e permitiu processar microtransações, e a regulamentação, que trouxe concorrência para um mercado com mais de 160 marcas, criou o ambiente perfeito para a popularização dos depósitos baixos.

Os dados acendem um alerta num momento em que o governo Lula intensifica a ofensiva contra o setor. O presidente já defendeu publicamente o fechamento das bets: “se depender de mim, a gente fecha as bets”, disse em 8 de abril.

Acessibilidade ou armadilha?

A proliferação do depósito de R$1 abre um debate. Por um lado, a barreira financeira quase zero oferece flexibilidade ao apostador,  que pode testar uma plataforma sem comprometer muito dinheiro e depositar outra vez só se quiser.

Por outro, o valor funciona como um chamariz para a população de baixa renda, justamente a faixa mais vulnerável ao superendividamento. O levantamento revela que, em muitas casas, o saque mínimo ainda é muito superior ao depósito, o que obriga o apostador a acumular saldo ou depositar mais para conseguir sacar.

O cenário é particularmente sensível num país onde 80,4% das famílias estavam endividadas em março de 2026, o maior patamar desde que a Confederação Nacional do Comércio (CNC) começou a medir o indicador, em 2010. Um estudo da CNC aponta que a inadimplência causada pelas bets já retirou R$143 bilhões do comércio varejista entre 2023 e março de 2026.

“A renda aumentou, o salário aumentou, mas o que está acontecendo? Não está sobrando”, resumiu Roberto Perosa, presidente da Abiec, durante reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin no início de maio, ao apresentar dados que ligam o recuo no consumo de alimentos da baixa renda ao avanço das apostas online.

Governo reage com bloqueios e Desenrola 2

Diante do agravamento do quadro, o governo anunciou na semana passada o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas que será lançado com uma medida polêmica: quem aderir ao programa ficará bloqueado por um ano em todas as plataformas de apostas online.

Paralelamente, o Ministério da Fazenda bloqueou 27 plataformas de apostas de mercados preditivos (sites que permitiam palpites financeiros sobre eventos esportivos, políticos e culturais) por operarem em desconformidade com a legislação. Desde a regulamentação, mais de 39 mil sites de apostas ilegais já foram derrubados.

No Congresso, tramitam propostas ainda mais duras: um projeto de lei protocolado em abril pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) quer proibir completamente a publicidade de apostas esportivas, enquanto o próprio presidente avalia um novo marco legal com proibição total das bets no país.

  • Publicado: 11/05/2026 08:04
  • Alterado: 11/05/2026 08:04
  • Autor: Redação
  • Fonte: Assessoria