Ponto de ônibus inteligente pode transformar a mobilidade urbana
O ponto de ônibus pode deixar de ser apenas um local de espera e se tornar um centro de integração entre modais, promovendo mobilidade ativa e inclusão social
- Publicado: 26/01/2026
- Alterado: 05/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Maria Clara e JP
A pesquisa recente Origem–Destino, realizada pelo Metrô, revelou que, pela primeira vez, os deslocamentos individualizados superaram os coletivos na Região Metropolitana de São Paulo. O transporte sobre trilhos se manteve estável. Essa mudança de hábito não gera apenas mais congestionamentos, ela aumenta os riscos de acidentes de trânsito, afetando diretamente outras formas de deslocamento, como pedestres, ciclistas, motociclistas e até mesmo quem depende do transporte público em um simples ponto de ônibus.
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Em nível nacional, o Censo Demográfico de 2022 mostrou que apenas uma pequena parcela da população brasileira tem acesso a pontos de ônibus ou vans próximos às suas residências. Em média, somente 8,8% da população reside em vias com esse tipo de infraestrutura, com forte concentração dessa carência nas áreas periféricas.
Ponto de ônibus sustentável
Sustentável não apenas no sentido tecnológico, com painéis fotovoltaicos ou carregadores de celular, mas no sentido funcional e social, ao se tornar um polo de integração com outros modais de transporte. Já pensou em bicicletários instalados estrategicamente e integrados aos pontos de ônibus, principalmente nas regiões mais afastadas?

Quem utiliza apenas o transporte individual, muitas vezes, não considera outras formas de locomoção. Diante do aumento dos gastos familiares, o modo como nos deslocamos pela cidade se torna uma parte significativa do orçamento doméstico.
Atratividade ao transporte coletivo
Investir em infraestrutura nos pontos de ônibus, especialmente os localizados em áreas estratégicas e com conexões a ciclovias, ciclofaixas e ciclo rotas, pode oferecer alternativas práticas, reduzir o tempo de deslocamento e promover maior independência em relação ao automóvel.
Mas, para isso, é fundamental garantir segurança, tanto no trajeto quanto no tempo de espera entre um modal e outro. O ponto de ônibus pode se transformar em um centro de mobilidade, com bicicletários, espaços para transporte compartilhado (bicicletas, patinetes) e integração com sistemas inteligentes, promovendo a micromobilidade com conforto e segurança.
Iniciativas do poder público podem potencializar os pontos de ônibus e torná-los muito mais eficientes. Ações bem estruturadas têm potencial para reverter a adesão ao transporte público e à mobilidade ativa.
Essas medidas, sobretudo para os trabalhadores informais, podem impactar diretamente a renda familiar e estimular o uso combinado do transporte público com modos ativos e sustentáveis de deslocamento.
Duas iniciativas promissoras
O poder público tem papel fundamental na revalorização dos pontos de ônibus e pode torná-los muito mais eficientes com ações bem fundamentadas:
A primeira iniciativa está no Projeto Abrigo Amigo, do Governo do Estado de São Paulo. Em fase de expansão desde 2023, o programa instala totens de videochamada em pontos de ônibus, oferecendo suporte especialmente a pessoas em situação de vulnerabilidade, como mulheres e idosos. Essa iniciativa, colocado em operação em alguns bairros periféricos, aumenta a sensação de segurança no transporte coletivo.

A segunda iniciativa está no Programa Bike SP, da Prefeitura de São Paulo. Criado por uma lei de 2016 e atualmente em fase de testes, o programa permite que ciclistas ganhem créditos no Bilhete Único ao utilizarem a bicicleta como meio de transporte. O trajeto é monitorado por aplicativo e, ao substituir viagens de ônibus, o usuário é recompensado com parte do subsídio que seria pago pelo poder público. Trata-se de uma forma inovadora de incentivo à mobilidade ativa.
Essas ações têm potencial transformador, principalmente para trabalhadores informais, gerando impactos diretos na renda familiar e estimulando o uso do transporte público em conjunto com modos sustentáveis de locomoção.
Mobilidade ativa e transporte público: funciona?

Sim, e com grande potencial de ser replicado em outros municípios. Ao articular diferentes ações, como a ampliação de bicicletários seguros, a valorização dos pontos de parada e a integração com programas de bonificação e monitoramento, é possível beneficiar especialmente a população mais vulnerável, que, segundo o Censo 2022, muitas vezes não conta com acesso próximo a pontos de ônibus.
Planejamento urbano como instrumento de transformação
Temos à disposição instrumentos legais importantes, como o Plano Diretor, o Plano de Mobilidade Urbana e o Estatuto da Cidade, que permitem transformar a visão sobre os pontos de ônibus. Pensar de forma estratégica e integrada pode otimizar os recursos públicos e criar redes mais eficientes, atrativas e inclusivas.
Criar novos pontos de ônibus isoladamente é uma ação cara e nem sempre eficaz. Por outro lado, promover integração modal, com incentivo à bicicleta, patinetes, caminhadas e outros modos não motorizados, pode melhorar a qualidade de vida e garantir acesso digno ao transporte para todos, em especial para quem mais precisa.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.