Poluição e percepção pública desafiam Braskem no ABC

Documentos internos e apresentações institucionais analisados pela Braskem mostram que executivos da empresa reconhecem a existência de desgaste reputacional no ABC paulista e apontam que qualquer ocorrência envolvendo cheiro, fumaça, barulho ou tremores na região frequentemente acaba atribuída ao polo petroquímico

Crédito: (Divulgação/Braskem)

A Braskem intensificou nos últimos anos uma estratégia de comunicação voltada a enfrentar um dos principais desafios históricos da indústria petroquímica: a associação direta entre operação industrial, poluição ambiental e riscos à saúde da população.

Documentos internos e apresentações institucionais analisados pela reportagem mostram que executivos da empresa reconhecem a existência de desgaste reputacional no ABC paulista e apontam que qualquer ocorrência envolvendo cheiro, fumaça, barulho ou tremores na região frequentemente acaba atribuída ao polo petroquímico.

“Hoje, quando tem um cheiro diferente, se tem um barulho, se eu estou tossindo, tudo aponta”, afirmou um dos representantes da companhia durante conversa registrada nos materiais analisados.

A declaração sintetiza um cenário que a Braskem tenta enfrentar por meio de programas de relacionamento comunitário, ações educacionais, visitas monitoradas e iniciativas ligadas à economia circular e sustentabilidade.

Relação histórica com a poluição

A região do ABC paulista carrega uma longa relação com o desenvolvimento industrial brasileiro. O polo petroquímico instalado entre municípios como Santo André e Mauá se tornou um dos principais centros da indústria química nacional desde os anos 1970.

Ao mesmo tempo, o avanço industrial consolidou uma percepção social fortemente ligada à poluição atmosférica, emissões industriais e impactos ambientais.

Nos documentos apresentados pela empresa, representantes da Braskem afirmam que parte da rejeição atual à atividade petroquímica ainda estaria ligada à imagem construída nas décadas de 1970 e 1980.

“Talvez uma imagem antiga, anos 80, anos 70”, afirmou um participante durante discussão sobre movimentos ambientais e percepção pública da petroquímica.

Outro representante afirmou que existe um “misticismo” em torno do setor e que o trabalho atual da companhia passa por “desmistificar” a atividade petroquímica perante a população.

“Não somos culpados por todos os males”

Os materiais mostram que a Braskem busca reforçar a ideia de que a petroquímica não é a única atividade industrial responsável pelos impactos ambientais da região.

“Primeiro que o polo não é a única atividade industrial que tem na região”, afirmou um representante da empresa.

Segundo os executivos, parte da estratégia atual envolve ampliar o diálogo com comunidades vizinhas e explicar tecnicamente processos industriais que frequentemente são interpretados como sinais de risco ambiental.

Entre os exemplos citados está o flare — sistema de segurança utilizado em plantas petroquímicas para queimar gases excedentes.

A empresa reconhece que o equipamento gera incômodo visual, sonoro e até vibração percebida pela população do entorno.

“O flare, a gente sabe como ele funciona, ele é realmente algo que interfere na vida das pessoas”, afirmou um dos representantes.

Apesar disso, a companhia afirma que o equipamento é indispensável para a segurança operacional.

“Sem flare a gente não existe”, declarou o executivo.

Segundo ele, a estratégia da empresa não é eliminar o equipamento, mas reduzir sua utilização por meio de melhorias operacionais e investimentos em energia e automação.

Comunicação virou prioridade

Os documentos indicam que a Braskem passou a tratar comunicação comunitária como elemento central para manutenção da chamada “licença social para operar”.

Em uma das falas registradas, representantes da empresa afirmam que o risco para a indústria não seria apenas econômico, mas também social.

“Não somos nós que saímos, nós seríamos expulsos, se a gente não consegue trabalhar com a licença social”, afirmou um executivo durante apresentação institucional.

A companhia também reconhece que parte da população ainda reage negativamente diante de ocorrências industriais, mesmo quando não há risco ambiental confirmado.

Um exemplo citado foi um tremor ocorrido no Chile que teria sido associado ao polo petroquímico por moradores da região.

“Teve pessoas na região que sentiram tremor e alguns disseram que foi a petroquímica”, afirmou um representante.

Monitoramento ambiental entra no discurso

A Braskem também utiliza dados de monitoramento ambiental para sustentar a defesa de suas operações.

Nos documentos, a empresa menciona a existência de estações de monitoramento da qualidade do ar próximas às unidades industriais e argumenta que qualquer irregularidade seria rapidamente identificada.

“Qualquer coisa que a gente faça ou queira fazer, se a gente quisesse, a gente seria percebido pela sociedade”, afirmou um representante da companhia.

A empresa também afirma ter realizado investimentos para reduzir ocorrências operacionais relacionadas à falta de energia, apontada internamente como uma das principais causas de acionamento de flare.

Segundo os relatos apresentados, a companhia investiu em sistemas próprios de geração de energia e automação industrial para diminuir falhas operacionais.

Projetos sociais e educação ambiental

Outra frente utilizada pela Braskem para melhorar sua relação com a sociedade envolve programas sociais, educação ambiental e visitas monitoradas às unidades industriais.

Entre os projetos mencionados estão iniciativas de capacitação profissional, apoio a cooperativas de reciclagem, empreendedorismo feminino e programas educacionais em escolas públicas.

A empresa afirma ainda que mantém pesquisas de percepção pública e ações de escuta comunitária para medir a imagem da companhia junto à população do entorno.

“Sem dúvida nenhuma, é importantíssimo essa pesquisa para que a gente possa nortear o nosso trabalho”, afirmou uma representante da empresa.

Segundo a Braskem, um dos projetos usados nesse processo é o programa de visitas chamado “Laços”, que leva moradores, estudantes e convidados para conhecer instalações industriais.

“A visita é para a comunicação próxima”, afirmou um representante da empresa.

Relação com ambientalistas

Os documentos também mostram que a empresa mantém interlocução com entidades ambientais, embora reconheça que parte das organizações não deseja aproximação com a indústria petroquímica.

Representantes da companhia afirmam atuar em debates públicos por meio de associações setoriais e entidades ligadas à cadeia do plástico e da reciclagem.

A Braskem cita participação em iniciativas como a Alliance for End Plastic Waste e redes voltadas à circularidade dos plásticos.

Ao mesmo tempo, admite que existem grupos que preferem manter uma postura de antagonismo.

“Tem aqueles que querem buscar essa interação e essa construção em conjunto”, afirmou um representante. “Ou, por exemplo, a gente tem muitas entidades que não querem conversar”.

A disputa em torno da imagem da petroquímica no ABC paulista, portanto, deixou de ser apenas ambiental ou industrial. Nos bastidores da própria Braskem, os documentos revelam que ela passou a ser tratada como uma batalha permanente de narrativa, legitimidade social e permanência territorial.

  • Publicado: 28/05/2026 15:40
  • Alterado: 28/05/2026 15:40
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: ABCdoABC