Poluição ameaça albatrozes e petréis no litoral brasileiro
Pesquisa inédita aponta impactos invisíveis da contaminação marinha em aves oceânicas ameaçadas e reforça alerta sobre saúde dos oceanos
- Publicado: 11/05/2026 13:55
- Alterado: 11/05/2026 13:58
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A poluição marinha vem provocando impactos silenciosos em populações de albatrozes e petréis que circulam pelo litoral brasileiro e pelo Hemisfério Sul. Uma pesquisa desenvolvida pela médica veterinária Patricia Serafini revelou que essas aves oceânicas, consideradas sentinelas da saúde dos oceanos, estão expostas a plásticos, substâncias químicas persistentes e alterações biológicas capazes de comprometer sua sobrevivência.
O estudo foi realizado no âmbito do Projeto Albatroz, patrocinado pela Petrobras, e integra a tese de doutorado defendida por Patricia na Universidade Federal de Santa Catarina. A pesquisadora também atua como analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e pesquisadora visitante da Universidade de Oxford.
A investigação analisou os efeitos da contaminação ambiental sobre albatrozes e petréis utilizando biomarcadores bioquímicos e moleculares capazes de identificar alterações invisíveis a olho nu, mas que afetam diretamente a saúde das aves.
Poluição já afeta aves oceânicas ameaçadas

Um dos principais achados da pesquisa envolve a presença de plástico no organismo das aves. Segundo o estudo, 29% das pardelas-sombrias analisadas apresentavam resíduos plásticos no trato digestivo. Além disso, foram identificadas substâncias químicas persistentes como PCBs, HCB, Mirex e Drins, compostos capazes de alterar funções biológicas importantes.
A pesquisa também demonstrou que a resposta à poluição varia conforme a idade das aves. Filhotes, juvenis e adultos apresentam reações biológicas diferentes aos contaminantes, o que exige análises específicas para evitar interpretações equivocadas sobre o estado de conservação das espécies.
Para Patricia Serafini, compreender esses impactos subletais é fundamental para fortalecer políticas de conservação e monitoramento ambiental. “Das 22 espécies de albatrozes que conhecemos, pelo menos 17 se reproduzem e se alimentam em regiões austrais. Mesmo assim, ainda persistem lacunas importantes de conhecimento justamente nessa porção do planeta, tão rica em biodiversidade e tão ameaçada por questões como poluição, crise climática e interações com a pesca”, afirma.
Pesquisa cria base inédita para conservação de albatrozes
Outro avanço importante do estudo foi a criação de transcriptomas hepáticos de referência para duas espécies ameaçadas de extinção que ocorrem no Brasil, o albatroz-viageiro e o albatroz-de-nariz-amarelo. A partir desses dados, pesquisadores poderão identificar genes e vias metabólicas afetadas pela exposição a contaminantes ambientais.
A expectativa é que essas informações ampliem programas de biomonitoramento e fortaleçam estratégias internacionais de conservação.
Segundo Tatiana Neves, as conclusões apresentadas pela tese podem contribuir diretamente para acordos globais de proteção das aves oceânicas. “No âmbito de grandes acordos internacionais de conservação, como o próprio ACAP, e outros de incidência local, com o Plano Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis, novas informações sobre contaminação, manejo e estado de saúde dessas grandes aves oceânicas nos ajuda a atualizar dados científicos e fortalecer as redes globais que protegem os albatrozes”, explica.
Além da poluição, albatrozes e petréis enfrentam ameaças relacionadas à pesca predatória e aos efeitos das mudanças climáticas, fatores que ampliam o risco para espécies já ameaçadas de extinção.