Surpresos, políticos repercutem Operação Estafeta em São Bernardo
Operação da Polícia Federal afasta prefeito e presidente da Câmara e expõe divergências sobre gastos e suspeitas de corrupção na cidade
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 14/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A Operação Estafeta, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (14), movimentou os bastidores políticos de São Bernardo do Campo e provocou surpresa entre representantes do Executivo e do Legislativo. Entre os investigados estão o prefeito Marcelo Lima e o presidente da Câmara, Danilo Lima Ramos (Podemos), afastados de suas funções por decisão judicial.
No Paço Municipal, o clima era de cautela. O ABCdoABC encontrou o secretário executivo de Programas Governamentais da Prefeitura, Hiroyuki Minami, que admitiu não ter sido informado previamente sobre as ações.
“Eu estou surpreso tanto quanto vocês. Estamos prontos para tocar o barco na cidade”, afirmou, reforçando que a gestão pretende manter a rotina administrativa.

Na Câmara Municipal, a reação também foi de incerteza. O líder de governo, vereador Julinho Fuzari (Cidadania), afirmou que, até o momento, não houve diálogo entre Legislativo e Executivo sobre os desdobramentos da operação.
“Nesse momento, estou em busca de informação. Não existe ainda nenhum diálogo entre o Legislativo e o Executivo. Acredito que o Executivo está aguardando a formalização, para chegar à decisão, para que, tomando parte disso, possa sim haver um diálogo com o Legislativo, para que a gente possa ter compreensão também, e aí sim nós possamos avançar nesse diálogo”, comentou o parlamentar.

Fuzari destacou que, enquanto não houver notificação oficial, a situação permanece inalterada.
“Enquanto não há um comunicado oficial, se mantém como está. Somos obedientes ao regimento interno e vamos seguir o que ele determina”, declarou.
O parlamentar também reconheceu dúvidas sobre o alcance do afastamento do presidente da Casa.
“É tudo especulação. Não sabemos se o afastamento é apenas da presidência ou também do mandato. Caso seja do mandato, o suplente será convocado; se for apenas da presidência, pode ser que a vereadora Ana Nice assuma temporariamente para convocar nova eleição. Mas, volto a dizer, é tudo muito precoce”, explicou.
Para Fuzari, apesar da gravidade da situação, a cidade tem condições de seguir em frente.
“É ruim para São Bernardo, mas a população é forte e o parlamento é consolidado e comprometido. Vamos continuar levando os bons projetos adiante, sem deixar que isso impacte o serviço público”, concluiu.
A vice-presidente da Câmara, vereadora Ana Nice (PT), afirmou que soube do caso apenas pela manhã.
“Fui surpreendida com a notícia do afastamento do prefeito e do presidente da Câmara, mas ainda não recebemos nenhuma notificação oficial do Tribunal de Justiça”, disse.

Questionada sobre a possibilidade de assumir a presidência, a petista pregou cautela.
“Se isso ocorrer, será um desafio. Temos que tocar os trabalhos da Casa com responsabilidade, seguindo o regimento interno”, afirmou.
Ana Nice também comentou sobre a troca do mobiliário da Câmara, medida que gerou comentários nas ruas e nas redes sociais. Para a parlamentar, a substituição se justificou pela condição dos itens. “Havia muitos móveis quebrados, como cadeiras e mesas, e acredito que a substituição foi necessária”, defendeu.

Mas, se para a vice-presidente a troca atendeu a uma demanda prática, dentro da Prefeitura a decisão foi vista de outra forma. Um integrante próximo ao núcleo político do prefeito Marcelo Lima, ouvido pelo ABCdoABC, aponta que a renovação do mobiliário levanta questionamentos e estaria ligada a um gasto expressivo que poderia ter sido evitado.
Aliado de Marcelo Lima sugere ganância por trás de denúncias de corrupção
Um membro do alto escalão da Prefeitura de São Bernardo do Campo, cujo nome se mantém em sigilo por receio de represálias, demonstrou dúvidas sobre a inocência do prefeito Marcelo Lima. O aliado, que tem acesso direto à cúpula da gestão, foi ouvido pelo ABCdoABC na manhã desta quinta-feira (14).
Ao comentar sobre a investigação da Polícia Federal, que encontrou boletos de Lima e de seus familiares em posse do operador do esquema, preso pela PF, a fonte questionou a motivação para o suposto envolvimento do prefeito. “É muita avareza do Marcelo”, disse, complementando: “Ele não precisa disso, o pai dele deixou herança, aluguel”, afirmou.
O mesmo aliado viu com estranheza outra recente decisão do prefeito, que promoveu a troca do mobiliário da Câmara de Vereadores, substituído por novos, mesmo sem aparente necessidade. “São móveis novos e não precisavam ser trocados. Foram R$ 6 milhões gastos em mobílias”, criticou. A fonte ainda revelou que a “Câmara devolveu os móveis subsitituídos para a Prefeitura, e foram reaproveitados nas Secretarias”.
Operação Estafeta
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (14), a Operação Estafeta, destinada a apurar crimes de corrupção e lavagem de dinheiro supostamente praticados por uma organização criminosa com atuação na administração pública de São Bernardo do Campo.
A ação resultou em duas prisões preventivas, no cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão, afastamentos de cargos públicos, monitoramento eletrônico de investigados e na quebra de sigilos fiscal e bancário de 34 pessoas físicas e empresas.
As investigações tiveram início em julho de 2025, após a apreensão de aproximadamente R$ 14 milhões em espécie, entre reais e dólares, na posse de um servidor público suspeito de integrar o esquema. Segundo a PF, os investigados poderão responder, conforme suas condutas, pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e corrupção ativa.

Entre os presos está o empresário Edmilson Carvalho, sócio da Terraplanagem Alzira Franco Ltda., que mantém contrato com a prefeitura. Na residência dele, a PF apreendeu R$ 400 mil. Também foi preso Antonio Rene da Silva, servidor da Prefeitura de São Bernardo e diretor de departamento na Secretaria de Coordenação Governamental, contra quem havia mandado de prisão.
O atual presidente da Câmara e primo do prefeito, vereador Danilo Lima Ramos (Podemos), é um dos investigados e foi alvo de buscas. Além dele, o suplente de vereador Ary José de Oliveira (PRTB) também está na mira da Justiça. Outro preso foi Caio Fabbri, sócio da empresa Quality Medical, contratada pela administração municipal.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa, o servidor da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Paulo Iran Paulino Costa, é apontado como o operador do esquema. Foi com ele que a PF encontrou os cerca de R$ 14 milhões durante a primeira fase da investigação.
(Com informações do G1)