Políticos e jurista do ABC opinam sobre julgamento de Bolsonaro

Alas direitista, esquerdista e um jurista conversaram com o ABCdoABC e apresentaram suas percepções sobre o julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, sobre a possível trama de golpe de Estado ocorrida em 08 de janeiro de 2023, segue em andamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (10), e já tem os primeiros votos consolidados, assim, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, e o ministro Flávio Dino votaram a favor da condenação do liberal.

Voto contrário

Por outro lado, o ministro Luiz Fux, que segue com sua explanação sobre o julgamento, ponderou e foi na direção oposta dos dois primeiros votos, já que descartou a acusação de organização criminosa, além de afirmar que responsabilizar os réus pelos atos de 08 de janeiro de 2023 é inviável, que o STF não tem competência para julgar o caso e votou por cancelar o processo por entender que os réus, por não terem foro privilegiado, deveriam ser julgados em primeira instância.

Quem falta?

Porém, ainda faltam os votos da ministra Cármen Lúcia e do ministro Cristiano Zanin, e a condenação ou absolvição se dará em maioria simples dos votos.

De São Caetano do Sul

Diante do exposto, o ABCdoABC ouviu políticos de alas direitista e esquerdista e suas opiniões sobre o julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e mais sete envolvidos no processo.

De tradicional família política, o sobrinho do ex-prefeito Luiz Olinto Tortorello, de São Caetano do Sul, Thiago Tortorello, atual vice-presidente do Republicanos no diretório municipal da cidade, cientista político e professor, disse que o julgamento não passa de encenação e classificou como ‘ditadura’ a conduta do presidente da República e do relator do processo, o ministro Alexandre de Moraes.

Não passa de um teatro. Existe uma ditadura consorciada no Brasil, que é entre o STF e o Governo Federal, Executivo, e dando nome aos ‘bois’, é uma ditadura do Lula e do Xandão. Ditadura do Executivo e do Judiciário das Cortes Superiores, que foram todos esses ministros, não necessariamente juízes, indicados pelos ex-presidentes, opina o republicano.

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Para Thiago, a ex-presidente e o atual, Dilma Rousseff e Lula, que ficaram mais tempo no poder, têm uma aliança política: o STF e o Governo Federal e dispara por uma trama contra o principal julgado no processo de Golpe de Estado.

“Eles estão tramando a condenação do ex-presidente Bolsonaro, todo esse julgamento não passa de um teatro, uma trama política para enfraquecer o presidente Bolsonaro. E, claro, de quebra, não dá tempo de conseguir um sucessor da direita com o poder de ganhar dessa ditadura consorciada, concluiu Tortorello.

Em Santo André…

Para o vereador de Santo André, Ricardo Alvarez (PSOL), o julgamento coloca o Brasil em seu devido lugar quanto à democracia e deixa claro que quem comanda o país é a sociedade.

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“O julgamento contra o Bolsonaro e os golpistas que o acompanharam, os civis e militares, é absolutamente necessário, por um motivo muito simples: o Brasil tem que fazer um acerto com a sua história, que é não admitir mais a intromissão e a tutela dos militares na vida civil. Então, o papel dos militares constitucionalmente é muito claro, muito definido, e quem comanda o país é a sociedade civil e não os militares. Então, eles têm que ser condenados pelo golpe que tentaram, condenados pelo estímulo à sociedade para não respeitar o resultado das urnas e pela destruição do Estado de Direito. O resultado final, o que tudo indica, vai ser por uma condenação. Eu acho que vai ser uma vitória importante, uma lição para o Brasil, para que isso não se repita no futuro”, pontuou o psolista.

PL de São Caetano do Sul

Já o presidente do diretório municipal do PL em São Caetano do Sul e atual vereador, Cicinho Moreira (PL), segue o mesmo raciocínio de Thiago Tortorello, e vai além ao afirmar que o processo no STF serve para calar uma voz que luta contra as benesses de um sistema que se sustenta pela democracia.

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“O Bolsonaro está sendo julgado não apenas como uma pessoa, mas como símbolo de um movimento que incomoda a quem sempre se beneficiou do sistema, defendendo a democracia. Mas não podemos aceitar que ela seja usada de forma seletiva para calar uma voz que é aceita em todo o Brasil, e o que o presidente Bolsonaro fez nos últimos quatro anos em que foi presidente da República, discorreu o parlamentar.

O liberal corrobora com o republicano ao afirmar que o objetivo do julgamento é tirar do caminho do PT um de seus principais rivais e que poderia dar muito trabalho no pleito do próximo ano.

“A gente vê pelas ruas, pela intoxicação da população brasileira, que é um voto, é um julgamento para tentar tirar o presidente Bolsonaro do país para o próximo ano. Ou seja, essa cena toda, esse julgamento todo, no meu ponto de vista tem um único objetivo: tirar o PL, tirar o Bolsonaro do caminho do PT para as eleições de 2026, que seria talvez o cara que pudesse trazer um certo transtorno ou fazer frente com o PT”, disse Cicinho ao reiterar que sua fala não é apenas como presidente de partido ou parlamentar, mas também de um cidadão e concluiu ao dizer que este cenário favorece o crescimento do PL e da direita nacional.

Na cidade vizinha, São Bernardo do Campo…

O ABCdoABC ouviu, também, a presidente em exercício da Câmara de são Bernardo do Campo, Ana Nice (PT), que manteve a fala da ala esquerdista na qual aponta o ex-presidente Bolsonaro como autor intelectual dos atos.

“É um julgamento acima de tudo necessário, porque não pode ficar impune todas as atrocidades que ele – Bolsonaro – cometeu contra a população brasileira, e depois, atentado contra a democracia após as eleições. Inclusive, está sendo apontado como o organizador, líder, na verdade, da quadrilha do 8 de janeiro, de ataque à democracia. Então, é um julgamento necessário, porque nós precisamos defender a nossa democracia, se posicionou a petista.

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Ana Nice foi perguntada sobre o enfraquecimento do PL e se o julgamento é um ponto que trará prejuízos aos liberais, e a vereadora afirmou que isso já aconteceu.

“O PL já saiu enfraquecido quando Bolsonaro perdeu as eleições, a forma que ele encarou a derrota. Na verdade, não reconheceu e o tempo todo ele atacou a democracia e as urnas. Isso foi demonstrado também nas eleições municipais, nas prefeituras, câmaras e, de fato, a gente vai saber qual rumo tomará ou se dará o PL nos próximos períodos, que a gente vai ter que avaliar aí os desdobramentos, mas o PL já está enfraquecido, sim”, percebe a vereadora.

Presidente do PL em Santo André

De volta a Santo André, o ABCdoABC procurou o presidente do diretório municipal do PL, Luiz Zacarias, que indicou a representatividade do ex-presidente mesmo com o julgamento em andamento e que existe outra prioridade.

Respeito o processo legal, mas acredito que a prioridade de todos nós deve ser fortalecer a democracia e focar nos problemas reais da população. O presidente Bolsonaro é uma liderança nacional importante, que tem o apoio de milhões de brasileiros, e segue desempenhando seu papel político, mesmo diante de desafios jurídicos, comentou o liberal.

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Fraca ou forte?

Zacarias não vê a sigla enfraquecendo, pelo contrário, para ele, o grande número de políticos eleitos e a penetração nas cidades comprovam a força da legenda.

“O PL é hoje o maior partido do Brasil em número de parlamentares e com forte capilaridade nos municípios. É claro que uma decisão como essa tem repercussão, mas a força do partido está nas suas lideranças, na militância e no compromisso com a população. O PL segue firme e organizado, sugere ele.

Entre as ações em que o PL tem se debruçado em Santo André, Luiz destacou o fortalecimento das bases, ampliação da presença e debate de soluções locais, em busca de resultados que a população deseja como na saúde, na segurança e geração de empregos.

Eleições 2026

Sobre um nome do PL para as eleições de 2026 à presidência, em caso de permanência da inelegibilidade de Bolsonaro, Zacarias avisou de quem é a responsabilidade, mas já deu indícios de um possível indicado, mesmo sem citar nomes, mas para um bom entendedor, um pingo é uma letra.

“Essa é uma decisão que cabe ao diretório nacional, no momento oportuno. Hoje, nossa prioridade não é especular sobre 2026, mas sim apoiar o governador Tarcísio de Freitas, que tem feito um excelente trabalho à frente de São Paulo, e organizar o partido em cada cidade. Quando chegar a hora, teremos nomes preparados para representar o PL e fazer frente a qualquer adversário, avisou o presidente.

Por fim, Zacarias afirmou que “o PL é maior que qualquer circunstância. Temos um projeto nacional sólido, quadros preparados e a confiança de milhões de brasileiros. Não se trata de dificuldades, mas de continuar construindo alternativas que reflitam os valores que defendemos: liberdade, família e desenvolvimento.

Fala, Dr. Jayme Tortorello!

O catedrático, juiz de Direito aposentado e doutor em Direito, Dr. Jayme Tortorello analisou do ponto de vista de sua ampla atuação no judiciário e apontou uma grave inversão de atuação do Judiciário.

“Nos dias atuais, o Brasil está vivendo um período de exceção. O STF tem avocado poderes para legislar. Dentro desse cenário é que tramita o indigitado processo e que levará Bolsonaro e seus aliados a cumprir penas elevadas, pelos crimes denunciados pela Procuradoria Geral da União. Essa é a realidade que a esquerda pretende, festeja, e que vai se consolidar”, sugere o Dr.

Arquivo pessoal

Em outro ponto, Dr. Jayme segue o mesmo entendimento do ministro Luiz Fux, na qual entende não ser de competência do Supremo o julgamento.

Analisando-se à luz do direito em vigor no País, esse processo deveria iniciar na primeira instância, porque os réus não são agentes públicos e não têm foro privilegiado. O deputado Ramagem é o único dos oito réus que tem foro privilegiado e deve ser julgado pelo STF. Quanto aos demais, o STF deve decidir se a competência é da primeira instância ou não. Devido ao princípio geral do direito penal, quando há dois caminhos a serem tomados, deve sempre se decidir o que for favorável aos réus. Portanto, o foro competente para os sete réus é a primeira instância, garante o juiz aposentado.

Dr. Jayme ainda pontua que há parcialidade na julgamento, pois indicou relação estreita entre jurista e Governo Federal e a antipatia entre dos demais ministros e o julgado.

“Para um julgamento justo, o juiz natural tem que ser imparcial e se houver alguma relação entre o juiz e o réu, o juiz deve se declarar suspeito e se não o fizer será declarado suspeito. A suspeição é flagrante dos ministros do STF para julgar Bolsonaro. O ministro Zanin foi advogado do presidente Lula. Os ministros Mendes, Moraes, Carmen Lúcia e Barroso são inimigos declarados do ex-presidente. Só o fato de que todos eles já declararam os seus votos, em entrevistas, ou pelas redes sociais, é suficiente para torná-los suspeitos, dispara Tortorello.

Dr. Jayme Tortorello ainda argumenta que o mérito da questão deve ser tratada com objetividade e não com subjetividade, que a materialidade tem que ser comprovada e, se houver dúvida, os réus devem ser favorecidos e conclui:

“Em certo trecho do voto do ministro Moraes, ele afirma que os manifestantes do dia 08/01 estavam fortemente armados. Com base nesses fatos, este julgamento é nulo, é político, com o objetivo de levar, injustamente, para a prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirma o juiz e finaliza:

“Essa queda de braços entre a esquerda e a direita só será resolvida nas eleições do ano que vem”.

Além do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, são julgados Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e deputado federal; Almir Garnier, almirante e ex-comandante da Marinha; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça; Augusto Heleno, general e ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI); Mauro Cid, tenente-coronel do Exército e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro; Paulo Sérgio Nogueira, general e ex-ministro da Defesa e Walter Braga Netto, general e ex-ministro da Casa Civil e da Defesa.

Jair Messias Bolsonaro está sendo julgado pelas acusações de:

Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;

Organização criminosa armada;

Golpe de Estado;

Dano qualificado a patrimônio da União;

Deterioração de patrimônio tombado.

E o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a inelegibilidade de Bolsonaro por oito anos, a contar das eleições de 2022, por entender que o ex-presidente abusou do poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 11/09/2025
  • Fonte: FERVER