Plataformização do ensino: professores denunciam precarização e abandono

Docentes afirmam que modelo digital reduz autonomia pedagógica, desestimula leitura e substitui salas de leitura por aplicativos

Crédito: Divulgação/Secretaria de Educação do Estado de SP

A digitalização acelerada, também chamada de plataformização, da rede estadual de ensino em São Paulo, apresentada pelo governo como modernização, tem sido alvo de fortes críticas de professores. O processo de plataformização, que centraliza o ensino em aplicativos e materiais padronizados, estaria precarizando o trabalho docente, retirando a autonomia pedagógica e até mesmo comprometendo o interesse dos estudantes pela leitura.

Relatos coletados por sindicatos de professores apontam ainda que a medida tem provocado o esvaziamento das bibliotecas escolares e a imposição de metas de leitura digitais que não condizem com a realidade das salas de aula. “É triste, revoltante o que tenha acontecido com esses professores que precisavam retomar esse projeto”, afirmou a professora Emily, de Língua Portuguesa e Literatura.

Livros físicos substituídos por aplicativos

Um dos principais pontos de crítica da plataformização é a substituição do contato físico com os livros por leituras em plataformas digitais. Em muitas escolas, bibliotecas foram desativadas e transformadas em salas administrativas, com acervos guardados de forma precária.

“Na escola que eu estou, a biblioteca foi excluída há pouco tempo. Alunos e professores chegaram a organizar os livros em prateleiras, colocar tombos, registrar em planilhas. Infelizmente, todo esse trabalho foi colocado de lado, porque a sala precisou ser usada para reuniões, por causa da plataformização. Agora os livros ficam numa gaiola”, relatou Emily.

De acordo com a professora, a experiência de leitura em plataformas não gera o mesmo engajamento. “Os estudantes não gostam de ler, porque ainda que gostem do celular, uma coisa é gostar de redes sociais, outra é gostar de ler em aplicativo. Quando levamos livros para dentro da sala, é outra experiência: eles tocam, cheiram o livro. É totalmente diferente”, completou.

Autonomia pedagógica em risco

Outro aspecto criticado é a padronização das aulas, cada vez mais limitadas a conteúdos previamente definidos pelo governo estadual. Professores relatam que o HTPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo), antes voltado ao planejamento de aulas e discussão de casos dos alunos, foi transformado em sessões de vídeos obrigatórios.

“Hoje em dia, o que é esse HTPC? São vídeos que a gente tem que ficar assistindo, prontos do governo, já com os temas das aulas definidos. Essa seria a nossa preparação de aula. Só que preparar uma aula é estudar o conteúdo, organizar atividades, planejar correções. Não é só assistir um vídeo”, criticou a professora de sociologia e coordenadora do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (APEOESP), Maíra Machado.

Essa prática, segundo os professores, afeta diretamente a liberdade de cátedra, prevista na Constituição como um princípio da educação. “A escola tem que ser um espaço livre, um espaço de disputa de ideias. Quanto mais você limita isso, menos sentido tem participar daquilo”, pontuou Maíra.

Precarização do trabalho docente

Marco Ankosqui

A plataformização também impacta a carreira dos professores. Com a redução de aulas tradicionais e a reorganização curricular baseada no Novo Ensino Médio, muitos profissionais têm sido deslocados para disciplinas de itinerários formativos, esvaziadas de conteúdo.

“Eu sou professora efetiva de sociologia, mas ultimamente só dou itinerário formativo. Tenho apenas uma sala em que leciono minha disciplina de formação. Nas outras, dou aula de liderança, de projeto de vida, de oratória. Já me vi explicando vícios de linguagem, que eu não estudei para ensinar”, relatou a coordenadora da APEOESP.

Essas disciplinas, segundo a docente, têm um viés alinhado ao empreendedorismo. “Qual é o conteúdo da aula de liderança? É ensinar o aluno a ser empreendedor, rejeitar leis trabalhistas e achar que é um absurdo ter CLT. Está colocado ali que ele tem que ser um coach. É bem complicado, porque substitui aulas de sociologia que tinham muito conteúdo importante”, acrescentou.

A situação criada pela plataformização, afirmam, atinge também áreas como Química e Física, que perderam espaço na grade para os itinerários. O resultado seria uma formação superficial, que não prepara o estudante nem para o mercado de trabalho, nem para o vestibular.

Pressão e vigilância sobre professores

Os educadores também denunciam que a plataformização se transformou em um mecanismo de controle sobre a categoria. Programas como o Multiplica, que oferecem formações obrigatórias, exigem participação mesmo em situações extremas.

“Já vimos professor no hospital fazendo o programa Multiplica, porque não pode ter falta. Senão você é excluído. Vamos chegar ao ponto de que o professor, mesmo com licença médica, vai ser obrigado a participar, acamado, com a costela quebrada, na situação que for. Porque senão está ameaçado de perder o emprego”, alertou Maíra.

Essa lógica, segundo os sindicatos, se conecta à mesma política que ameaça contratos de professores categoria O por conta de licenças médicas, tema que também vem gerando mobilizações na região do ABC e em outras cidades do estado.

Tecnologia a favor ou contra a educação?

Os professores frisam que não são contrários ao uso de tecnologia, mas ao modo como a plataformização tem sido implementada. “A tecnologia tem que ser usada a nosso favor e também dos estudantes. O problema é que ela está sendo usada para precarizar a educação e o trabalho docente”, disse Maíra Machado.

Na visão da categoria, a plataformização serve mais aos interesses de empresas privadas de tecnologia educacional do que à melhoria do ensino. Ao mesmo tempo em que reduz a carga de trabalho docente, gera contratos milionários para fornecedores de sistemas digitais.

Impactos nos estudantes

A consequência direta da plataformização é a desmotivação dos alunos. Professores relatam que os jovens não se identificam com a leitura em plataformas e têm sentido que a escola perdeu o sentido.

“Eles vão para lá e muitas das aulas são slides prontos do governo, que depois vão ser cobrados na Prova Paulista. Isso limita a participação do professor e tira o interesse do estudante, porque a escola deixa de ser espaço de troca de ideias”.

A falta de acesso a bibliotecas físicas também restringe experiências fundamentais para a formação cultural. Em muitas escolas, alunos de baixa renda encontram no livro físico o único contato com a literatura, algo que os aplicativos não conseguem substituir.

Expansão do modelo

Embora São Paulo seja apontado pelos professores como “vanguarda da plataformização”, a tendência se repete em outros estados. A centralização digital, impulsionada pelo Novo Ensino Médio, tem provocado resistências de educadores em todo o país.

Campanhas nacionais já pedem a revogação integral do Novo Ensino Médio, argumentando que o modelo esvazia o currículo e amplia desigualdades. “É um projeto que serve ao lucro dos tubarões do ensino, que vendem plataformas e apostilas, enquanto esvazia o conteúdo e desvaloriza a carreira docente”, afirma a representante sindical.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 12/09/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping