PF prende deputado Márcio Canella em operação no Rio
Preso na Barra da Tijuca por determinação do STF, deputado Márcio Canella é investigado por lavagem de R$ 7,6 bilhões em rede de postos
- Publicado: 15/10/2026 08:52
- Alterado: 15/10/2026 08:54
- Autor: Daniela Ferreira
A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (15), a oitava etapa da Operação Unha e Carne, que resultou no cumprimento de mandados de prisão preventiva contra figuras de alto escalão da política e da segurança pública do Rio de Janeiro.
Entre os detidos estão o deputado estadual reeleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo parlamentar mais votado do estado no pleito recente, e o delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes, que ocupou o cargo de secretário de Estado de Polícia Civil.
Esquema bilionário, articulação política e uso de postos de combustíveis
As apurações policiais, iniciadas a partir de um Relatório de Inteligência Financeira encaminhado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelaram a existência de uma estrutura criminosa altamente organizada.
O grupo é acusado de movimentar cerca de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos por meio de uma vasta rede comercial de combustíveis espalhada pelo Grande Rio. A estratégia visava disfarçar a origem ilícita dos valores e reintroduzi-los no mercado formal.

De acordo com as investigações da PF, a engrenagem ilícita contava com o suporte de agentes públicos ativos e forte articulação político-institucional. Um dos papéis centrais no esquema era exercido por Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como “Pablo Russo”, inspetor da Polícia Civil.
Apontado como homem de confiança do delegado Marcus Amim nas delegacias por onde passaram, Pablo Russo atuava como o verdadeiro gestor oculta de dezenas de postos de combustíveis registrados em nome de interpostas pessoas (“laranjas”).
Decisão do STF, desdobramentos operacionais e prisões efetuadas
As ordens judiciais executadas nesta quinta-feira foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A ação desdobra-se da sexta fase da operação, ocorrida em julho, oportunidade na qual Canella havia sido detido em flagrante após agentes federais encontrarem um fuzil calibre .556 em seu veículo.
Naquela ocasião, o parlamentar alegou que o armamento pertencia ao policial militar responsável por sua escolta, obtendo posteriormente a liberdade provisória concedida pelo STF mediante o cumprimento de medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e entrega de passaporte.

Na deflagração desta 8ª fase, o deputado Márcio Canella foi localizado e preso em sua residência em um condomínio localizado na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste da capital fluminense. Ao todo, a PF e a Corregedoria da Polícia Civil saíram às ruas para cumprir seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão distribuídos pelos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios.
Além do deputado e do ex-secretário de Polícia Civil, a PF confirmou a prisão de quatro inspetores da corporação estadual:
- Pablo Jukia Felix Ferreira (“Pablo Russo”), inspetor da Polícia Civil;
- Christiano Gaspar Fernandes, inspetor da Polícia Civil;
- Giovanni Gaspar Fernandes, inspetor da Polícia Civil;
- José Carlos Alves de Souza Júnior, inspetor da Polícia Civil.
O delegado Glaucio Paz da Silva também figurou entre os alvos de mandados de busca e apreensão. Por determinação do STF, foram aplicadas medidas de sequestro de bens e valores, somadas à suspensão imediata das atividades econômicas de 112 pessoas jurídicas, das quais 96 correspondem a estabelecimentos de venda de combustíveis apontados como peças-chave do mecanismo de lavagem de dinheiro. A defesa de Márcio Canella declarou que não se pronunciará sobre os fatos até que tenha acesso integral aos autos do processo.
Inserção na ADPF das Favelas e Força-Tarefa Redentor II
A deflagração da Operação Unha e Carne 8 está inserida no escopo de atuação da Força-Tarefa Missão Redentor II, mecanismo da Polícia Federal criado para desmantelar redes de crime organizado e milícias no estado do Rio de Janeiro.
A intervenção responde também às diretrizes fixadas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF 635 (conhecida como ADPF das Favelas), que determinou que a PF investigasse os vínculos de autoridades e agentes públicos com grupos criminosos atuantes na região.

O planejamento das ações de campo foi alinhado em reunião realizada no dia 6 de outubro entre a direção-geral da Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes.
Os investigados responderão, dentro de suas respectivas responsabilidades, pelos crimes de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, violação de sigilo funcional, formação de cartel e venda ilegal de combustíveis.
“A ação visa desarticular uma organização criminosa que utilizava a infraestrutura comercial do estado para camuflar e legalizar recursos decorrentes de práticas ilícitas”, aponta o relatório da Polícia Federal.