PF investiga uso de obras de arte por facção criminosa em esquema de lavagem de dinheiro
Peças atribuídas a Romero Britto e outros artistas renomados foram localizadas em endereços ligados ao PCC e à máfia europeia
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 06/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
A Polícia Federal investiga se obras de arte de artistas como Romero Britto e Cilene Derdyk foram utilizadas por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), em parceria com máfias europeias, como estratégia para lavar dinheiro oriundo do tráfico internacional de drogas. A apuração integra a operação Mafiusi, que prendeu novamente o doleiro Tharek Mourad na última semana, em São Paulo. Mourad é apontado como elo entre a facção criminosa brasileira e a máfia italiana.
Embora não tenham sido apreendidas fisicamente, diversas obras foram identificadas por meio de certificados de autenticidade. Os documentos foram encontrados em locais ligados à investigação, como a empresa Sulvene Factoring, que teria sido usada para movimentar recursos ilícitos. Entre os nomes citados está William Barile Agati, sócio da empresa e preso em janeiro, acusado de atuar como um operador do PCC.
Romero Britto e peças de alto valor
Três obras atribuídas a Romero Britto, artista brasileiro conhecido por suas composições coloridas, chamaram a atenção dos investigadores. Uma escultura em formato de bola de futebol, um quadro com desenho de urso e outro retratando Nossa Senhora de Guadalupe estariam entre os itens utilizados no esquema. As peças foram adquiridas, segundo a PF, com recursos oriundos do tráfico de drogas.
Além das obras de Britto, a Polícia Federal também identificou uma escultura da artista Cilene Derdyk, parte da série “Tramas Circulares”, de 2022. A obra, composta por fios de cobre, alumínio e couro, estava em posse de Agati e acompanhada de certificado de autenticidade emitido por uma galeria de arte em janeiro de 2023.
Rota do tráfico e conexão internacional
A operação Mafiusi teve início em dezembro de 2024, em ação conjunta com autoridades italianas. O foco da investigação são organizações criminosas interligadas que realizavam o envio de grandes quantidades de cocaína da América do Sul para a Europa. A droga era despachada principalmente pelo porto de Paranaguá (PR) e chegava ao porto de Valência, na Espanha, oculta em contêineres com cargas de cerâmica, madeira e louça sanitária.
A movimentação financeira dos suspeitos alcançou cerca de R$ 2 bilhões entre 2018 e 2022. Segundo a PF, o PCC contratava a logística da máfia italiana para a exportação da droga. A atuação conjunta entre as facções e a tentativa de esconder o lucro do tráfico em obras de arte apontam para um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro.
Defesa nega acusações
Procurado, o advogado de William Barile Agati afirmou que seu cliente é inocente, tem bons antecedentes e atua legalmente como empresário. A defesa sustenta que Agati está sendo alvo de perseguição ilegal. Já os representantes de Tharek Mourad não responderam aos questionamentos da reportagem.
Casos semelhantes já foram registrados anteriormente. Em 2017, três quadros assinados por Romero Britto foram encontrados na casa de veraneio do ex-governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, também em uma investigação da Polícia Federal.