Pesquisa descobre gene que barra remédio contra câncer
Mutações no gene TP53 reduzem a eficácia das terapias mais modernas contra o câncer de pulmão, aponta mapeamento inédito
- Publicado: 20/06/2026 17:51
- Alterado: 20/06/2026 17:51
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: Agência SP
Um estudo científico brasileiro, conduzido por pesquisadores do Hospital de Amor, trouxe uma descoberta que promete mudar a abordagem clínica e a escolha de terapias para o câncer de pulmão no país. A pesquisa, publicada pela prestigiada revista científica The Lancet Regional Health Americas, mapeou o perfil genético de tumores de 1.131 pacientes e identificou que alterações no gene TP53, conhecido na biologia como o “guardião do genoma”, reduzem drasticamente a eficácia até mesmo das terapias-alvo mais modernas disponíveis no mercado.
O estudo diferenciou-se pelo tamanho e pela diversidade étnica e geográfica da amostra, que reuniu pacientes do SUS atendidos no dia a dia das unidades de Barretos (SP) e Porto Velho (RO), incluindo populações sub-representadas da Amazônia Ocidental.
O Impacto do “Guardião do Genoma” no Tratamento

A oncologia de precisão utiliza medicamentos desenhados para atacar mutações genéticas específicas do tumor (como alterações nos genes EGFR, KRAS e ALK), oferecendo um tratamento muito mais eficiente que a quimioterapia tradicional. O estudo revelou que 88% dos pacientes analisados possuíam alguma alteração genética relevante. As mais frequentes foram:
- TP53: 58%
- KRAS: 25,6%
- EGFR: 20,6%
- ALK: 6,6%
O grande ineditismo do trabalho foi cruzar essas informações com a evolução clínica dos doentes. Os cientistas descobriram que, quando um paciente possui a mutação no gene EGFR, mas também apresenta alteração no gene TP53, a resposta aos medicamentos de última geração é severamente prejudicada.
“Mesmo recebendo o tratamento mais moderno [terapia EGFR-alvo], pacientes com mutações no TP53 evoluíram pior. Esse achado já mudou a conduta no hospital. Passamos a incorporá-lo na rotina de laudos porque essa informação ajuda na escolha terapêutica. Um paciente com essa dupla mutação pode ser o candidato ideal para novos ensaios clínicos”, explica o pesquisador Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor e um dos coordenadores do estudo financiado pela FAPESP.
O Gargalo Financeiro e o Acesso no SUS

A descoberta joga luz sobre um problema estrutural da saúde pública no Brasil: o acesso restrito à medicina genômica. Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) não financia testes genéticos amplos. Embora a Conitec tenha aprovado recentemente o custeio do teste isolado para o gene EGFR, a pesquisa demonstra que analisar apenas um gene pode induzir médicos ao erro.
A indicação inadequada gera desperdício de recursos públicos e privados, uma vez que as terapias-alvo são de alto custo, variando entre R$ 20 mil e R$ 40 mil por mês por paciente. Em contrapartida, um painel genético abrangente, que evitaria o tratamento ineficaz, custa hoje entre R$ 2 mil e R$ 8 mil. Os pesquisadores defendem que os achados guiem políticas públicas para otimizar a incorporação de biomarcadores na rede pública brasileira.