Caderno
Nelson Albuquerque Jr
Pequenos problemas em prosa
É como se pudéssemos clicar uma ideia e guardá-la em poucas palavras. O registro instantâneo de um momento. Uma fotografia revelada em texto. De Nelson Albuquerque Jr.
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 13/12/2019
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O título desta coluna remete ao livro “Pequenos Poemas em Prosa”, de Charles Baudelaire. Obra – tenho que aqui registrar – responsável por me desviar para o caminho da escrita literária (sim, a culpa é dele). Os minicontos que seguem abaixo são ligeiras ideias transformadas em pequenas prosas. Nem aos pés da arte de Baudelaire e, por isso, meus problemas.
BOTA
Tenho bota. Pé direito. Lustrada. Conservada. Desfurada com durepox. Só um prego. Num cantinho. Dá nada. Tá guardada. Mas fica à mão. Pois se me canso. Se me encho dessa vida. Calço logo. Pego impulso. E dou-lhe um pé. Uma bica. Pra acabar de uma só vez. Com esse fica ou não fica.
UMA LÁGRIMA
Não era uma lágrima. Era uma história o que escorria. Os dias de angústia e solidão. As horas de desprezo. Guardadas ao sabor da resiliência. Escorriam ali todas as outras lágrimas derrubadas nos difíceis dias de calvário. Maus tratos. E a história escorria por sua pele quase enrugada e desaguava em lábios sorridentes. Dentes escondidos, mas alegria latente. Sorriso apenas. Desafogo. Uma vitória aguada. Naquela lágrima, que não era lágrima. Era só uma história. E a certeza de que o bem era o lado onde realmente deveria estar.
LITERÁRIOS E DISSERTATIVOS
Resolvi inovar na forma de pechinchar. A ideia surgiu de repente. Li na caixinha de lâmina de barbear: “Para peles sensíveis”. Achei que poderia me apropriar dessa informação, adicionar algum humor, criatividade literária e estilo. Ataquei:
– Tem lâmina de barbear para bolsos sensíveis?
A vendedora respondeu com coerência e concisão:
– Não.
DICA GASTRONÔMICA
Cansado dos mesmos aperitivos de sempre? Experimente biscoito de polvilho doce com queijo gorgonzola. Antes de torcer o nariz, experimente.
Primeiro, morda o biscoito de polvilho e deixe o leve sabor adocicado se espalhar pela boca. Logo em seguida, abocanhe um pedaço de gorgonzola. O choque é maravilhoso! Faz as papilas vibrarem. Confunde e alegra. Uma bela surpresa!
Acompanha vinho tinto.
O POEMA
Ele escreveu um poema para ela. Não era de palavras. Era de bílis e vísceras. Doía de ler. Doía de amor. Pulsava. Seu maior desejo agora era fazê-la ler. E quando lesse, saberia que era seu. Mesmo sem ter seu nome, saberia. Entenderia tudo. Paixão é vírus. Pega. Como entregar? Postou no Facebook. E ela leu. Curtiu. Rolou pra cima. Viu o meme do gatinho. Curtiu. Rolou. Viu o vídeo do furacão. Curtiu. Rolou. A foto de uma pizza. Curtiu. Rolou. A piscininha das amigas. Curtiu. Rolou…
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