Paula Fernandes reencontra a menina que ficou para trás

Em “30 & Poucos Anos”, cantora revisita afetos, escolhas e memórias de 34 anos de trajetória e leva ao palco a mulher que se tornou ao longo do caminho

Paula Fernandes reencontra a menina que ficou para trás

Crédito: (Divulgação)

Mais de três décadas de carreira poderiam levar Paula Fernandes a um espetáculo construído principalmente sobre a memória. Há repertório, imagens, conquistas e sucessos suficientes para preencher horas de retrospectiva. Também existe um público que cresceu ouvindo músicas como “Pássaro de Fogo”, “Jeito de Mato”, “Pra Você” e “Sem Você” e que hoje carrega suas próprias lembranças associadas a diferentes fases da cantora. Em “30 & Poucos Anos”, porém, Paula decidiu olhar para trás sem transformar o passado em ponto de chegada. Aos 34 anos de trajetória profissional, é sobre recomeço que ela prefere falar.

Durante coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (12), com participação do ABCdoABC, a cantora apresentou novos detalhes do projeto que reúne audiovisual, músicas inéditas, releituras, convidados de diferentes gerações e uma nova turnê. O primeiro lançamento chega às plataformas em 13 de agosto com “Era Eu”, composição de Paula Fernandes e Juan Marcos. A primeira parte do audiovisual será disponibilizada no dia 27 e, em 28 de agosto, o projeto alcança o palco com a estreia da turnê na Festa do Peão de Barretos.

O nome “30 & Poucos Anos” brinca com a dimensão de uma trajetória que, segundo a própria artista, completa exatamente 34 anos. A proposta nasceu do desejo de atravessar passado, presente e futuro sem simplesmente reproduzir aquilo que já deu certo. A gravação recupera referências de momentos importantes da carreira, entre eles o audiovisual lançado em 2011, que ultrapassou 2,5 milhões de cópias vendidas, mas também inclui novas músicas, arranjos, imagens e elementos que apresentam quem Paula Fernandes acredita ser hoje.

Para além de celebrar, o projeto coloca em contato versões diferentes da mesma mulher. A artista conhecida nacionalmente, a compositora que construiu sucessos, a menina que começou a cantar aos oito anos e a mulher que agora tenta equilibrar todas essas experiências aparecem reunidas em uma obra cuja principal matéria-prima é o tempo.

Um público que também atravessou os anos

Paula Fernandes - 30 & Poucos Anos - Sertanejo
(Divulgação)

A passagem do tempo não aconteceu apenas do lado de quem está sobre o palco. Quem acompanhou Paula Fernandes desde seus primeiros grandes sucessos também envelheceu, mudou de cidade, profissão, relacionamentos e rotina. Músicas lançadas em determinada fase da carreira passaram a carregar histórias que já não pertencem somente à cantora, mas também a quem as ouviu ao longo dos anos.

Questionada pelo ABCdoABC sobre como essa passagem do tempo influencia a construção de uma turnê apresentada agora para pessoas que também envelheceram ao lado de suas canções, Paula colocou a própria maneira de encarar os anos no centro da resposta. “O que varia é a forma que a gente encara e a forma que, no meu caso, como artista, eu vou expressar. E a minha maneira de expressar é essa, com essa entrega mesmo, de sempre oferecer o melhor espetáculo, de diferenciar para ser referência”, afirmou a cantora.

Essa entrega, segundo Paula, ultrapassa o momento em que ela sobe ao palco. A artista relatou participação direta na concepção dos conteúdos exibidos no show, nas projeções, nos arranjos, na produção musical, no figurino e até em aspectos da maquiagem. Em um dos exemplos citados durante a coletiva, contou ter passado cerca de quatro horas trabalhando na edição visual de apenas uma música. “É uma entrega muito grande, é um pacote completo. Não tem como ser diferente se eu quero deixar meu DNA nas coisas”, resumiu.

Ao falar sobre amadurecimento ocasionado pela passagem do tempo, Paula Fernandes relacionou essa nova etapa à maneira como passou a lidar com a própria vida. A cantora disse que hoje busca preservar mais tempo de qualidade para as relações pessoais, para o trabalho e para aquilo que considera realmente importante. “O tempo está passando. A vida está passando aí. O tempo não vai esperar ninguém”, refletiu.

Essa consciência também aparece na maneira como ela define o momento profissional. Paula diz viver uma fase de maior equilíbrio, com menos autocobrança e mais disponibilidade para aproveitar aquilo que construiu. Depois de anos marcados por agendas intensas, afirma que continua comprometida com a excelência, mas tenta abandonar a busca por uma perfeição que considera impossível.

Quando Paula Fernandes encontra Paula de Souza

Paula Fernandes - 30 & Poucos Anos - Sertanejo
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Se a turnê mostra a mulher que chega aos 34 anos de carreira, “Era Eu” retorna ao ponto em que essa história começou. A primeira faixa do projeto, composta por Paula Fernandes e Juan Marcos, nasce de uma percepção que atravessa a trajetória da cantora desde muito cedo. Paula foi uma menina que não foi criança. Começou a cantar aos oito anos e viu a carreira profissional ocupar um espaço que, para outras crianças, ainda seria reservado às descobertas próprias da infância.

Essa ausência ganhou outro significado com o passar dos anos. Paula costuma estabelecer uma separação entre Paula Fernandes, a artista que cresceu diante do público, e Paula de Souza, a pessoa que precisou amadurecer enquanto a carreira avançava. Segundo ela, durante muito tempo existiu a sensação de que aquela menina havia permanecido em algum lugar do passado, enquanto a artista seguia acumulando experiências, conquistas e responsabilidades.

Era Eu - Paula Fernandes - 30 & Poucos Anos - Sertanejo
(Divulgação)

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Paula contou que imaginava encontrar internamente uma criança triste e isolada. A construção da música, entretanto, conduziu essa imagem para outro lugar. Em vez de encontrar uma menina abandonada em um espaço escuro, ela passou a enxergá-la cercada de afeto e pôde, simbolicamente, dizer àquela criança que o sonho havia dado certo. A experiência foi descrita pela cantora como um encontro de alívio e cura. Paula Fernandes reconheceu que durante muitos anos funcionou como uma “máquina de trabalho” e que a dedicação absoluta à carreira fez com que diferentes fases de sua formação pessoal fossem deixadas para trás. “Durante muito tempo, a Paulinha ficou para trás”, afirma.

Esse reencontro ganhou uma dimensão que vai além da letra. Paula diz que continua tentando aproximar a criança, a adolescente, a jovem adulta e a mulher que se tornou, mesmo sabendo que não é possível reviver as experiências que deixaram de acontecer. O objetivo, segundo ela, é encontrar um equilíbrio maior entre Paula de Souza e Paula Fernandes.

Paula descreveu essa criança como rural, ligada aos cavalos, aos pássaros, à natureza, ao desenho e a uma maneira simples de observar a vida. Segundo ela, é essa versão de si mesma que ainda aparece quando se emociona diante de pequenos acontecimentos cotidianos e que permanece por trás de parte de sua criação musical. “A Paula Fernandes é que acaba tendo que ter cuidado com o cabelo, que tem a roupa, que tem o calçado, que tem que ter performance. Mas eu, comigo mesma, dentro da minha intimidade, sou uma pessoa extremamente simples”, contou.

Essa tentativa de aproximação também foi levada para dentro do audiovisual. A cantora afirmou ter utilizado imagens de sua própria casa, dos cavalos e do lago onde vive. “Eu pude levar a Paula de Souza para aquele palco”, resumiu.E é exatamente isso que diferencia ‘30 & Poucos Anos’ de uma retrospectiva convencional. O projeto não recupera somente o repertório de Paula Fernandes. Ele também tenta permitir que Paula de Souza ocupe um espaço dentro da história construída pela artista.

Um espetáculo pensado para ser vivido

A dimensão pessoal do projeto foi ampliada por uma concepção visual e sensorial que Paula Fernandes considera uma das mais ambiciosas de sua carreira. O audiovisual foi gravado com um cenário construído a partir de projeções mapeadas, que ocupavam diferentes espaços do palco e modificavam a ambientação de acordo com cada música. A experiência alcançou também o olfato, com aromas de café, frutas e flores utilizados em momentos específicos da apresentação. O resultado foi pensado para envolver o público para além da execução musical e transformar cada parte do repertório em uma experiência ligada também às imagens, aos ambientes e às sensações.

Dar forma a essa experiência exigiu ainda uma seleção difícil entre músicas acumuladas ao longo de 34 anos de carreira. Paula contou, bem-humorada, que a definição do repertório provocou uma verdadeira “briga de foice”, tamanho o número de canções que poderiam fazer parte do projeto. Algumas foram reunidas em medleys, permitindo que diferentes momentos da discografia aparecessem no mesmo espetáculo, enquanto outras permaneceram de fora diante da impossibilidade de condensar toda a trajetória em poucas horas de apresentação.

A reconstrução da própria história também abriu espaço para referências musicais e estéticas que acompanham Paula Fernandes desde antes do grande sucesso nacional. Folk, country, música regional e a cultura mineira aparecem nos arranjos, no figurino e na identidade visual de “30 & Poucos Anos”. Em diferentes momentos da carreira, porém, algumas dessas características chegaram a encontrar resistência na própria indústria. Paula recordou, por exemplo, que o uso do chapéu chegou a ser desencorajado por receio de associá-la excessivamente a uma única estética.

O cenário atual permite que a cantora retome essas referências com outra liberdade, justamente em um período no qual elementos do country e do western voltaram a ganhar espaço na cultura popular. Para Paula Fernandes, porém, essa aproximação não nasce de uma tendência recente, mas de uma identidade que sempre esteve presente em sua música. Como a própria cantora reforçou, “sempre fui folk, sempre fui country”.

Barretos conecta a menina e a mulher

Paula Fernandes - 30 & Poucos Anos - Sertanejo
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A escolha da Festa do Peão de Barretos como ponto de partida da nova turnê acrescenta outro círculo à narrativa de “30 & Poucos Anos”. A apresentação acontece em 28 de agosto, justamente no aniversário da cantora, e marca a chegada do espetáculo à estrada. Para Paula Fernandes, a coincidência ajuda a transformar o show em uma “virada de chave”. Barretos atravessa diferentes momentos de sua carreira e também mantém uma relação com experiências muito anteriores ao sucesso nacional.

Um dia antes da estreia, Paula deverá entrar montada a cavalo na arena para interpretar “Ave Maria” na abertura do rodeio. A escolha da música carrega uma história pessoal. Quando ainda era jovem, cantar “Ave Maria” em rodeios fazia parte do trabalho que ajudava no sustento de sua casa.

Além das apresentações já existentes em sua agenda, a equipe de Paula Fernandes informou que dez shows estão confirmados para a turnê “30 & Poucos Anos”. Foram mencionadas as cidades de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Recife, Natal, Fortaleza, Florianópolis, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Uma carreira que atravessou gerações

Paula Fernandes - 30 & Poucos Anos - Sertanejo
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Se “30 & Poucos Anos” revisita a própria história, os encontros escolhidos para o audiovisual também ajudam a dimensionar quantas gerações atravessam essa trajetória. O projeto reúne Zezé Di Camargo, Padre Fábio de Melo, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Simone Mendes, Ana Castela e Guilherme & Santiago, aproximando artistas que pertencem a diferentes momentos da música brasileira em torno de um repertório construído ao longo de mais de três décadas.

Entre esses encontros, a participação de Ana Castela tornou especialmente visível a passagem do tempo. Paula Fernandes contou ter percebido a emoção da cantora durante a gravação e se reconhecido naquela reação, lembrando de quando esteve diante de artistas que também eram referências para ela. As duas gravaram juntas duas músicas, entre elas “Sem Você”, prevista para a segunda parte do projeto. Para a artista, perceber que uma artista de outra geração cresceu tendo seu trabalho como referência trouxe uma sensação de “orgulho” e “missão cumprida”.

A continuidade entre gerações se conecta a um caminho que, segundo Paula Fernandes, precisou ser aberto em meio a resistências. A cantora recordou ter ouvido ao longo da carreira que música lenta não funcionaria, que compositora não teria espaço e até que ser mulher seria uma dificuldade dentro do sertanejo. Décadas depois, vê novas artistas ocupando posições de destaque, embora considere que a presença feminina ainda esteja abaixo do que deveria nas grades dos grandes eventos.

As pressões mudaram quando o sucesso chegou, mas não desapareceram. Depois dos primeiros grandes resultados, Paula passou a conviver com a cobrança pelo próximo hit e pela repetição imediata de fórmulas bem-sucedidas. Ao falar sobre esse período, rejeitou a ideia de construir a carreira a partir do que estivesse momentaneamente em alta e resumiu sua posição ao afirmar que “eu não sou todo mundo”. Para ela, assumir o lugar de referência também exige disposição para sustentar as próprias escolhas, mesmo quando elas seguem um caminho diferente daquele adotado pela indústria.

A defesa dessa identidade ajuda a explicar como Paula Fernandes atravessou tantas transformações do mercado musical sem tratar a adaptação como abandono daquilo que a formou. Natural de Sete Lagoas, em Minas Gerais, ela chega aos 34 anos de carreira com mais de 5,6 milhões de discos vendidos, 2,4 bilhões de streams, dois prêmios Grammy Latino, oito indicações e 15 turnês internacionais. Também acumulou trabalhos com nomes como Taylor Swift, Shania Twain, Alejandro Sanz, Juanes e Il Volo, numa trajetória que começou ainda na era do disco físico e hoje encontra um público distribuído pelas plataformas digitais.

Esse percurso todo poderia transformar “30 & Poucos Anos” em uma celebração sustentada apenas pelas conquistas. Paula Fernandes, porém, prefere fazer o movimento contrário. O projeto recupera músicas, imagens, relações, referências e até a menina que permaneceu distante enquanto a carreira avançava, mas não tenta recriar a artista que existiu no passado. Reúne essas diferentes versões para compreender quem chegou até aqui e, principalmente, quem ainda pode surgir depois delas.

Quando subir ao palco em Barretos, Paula Fernandes terá 34 anos de estrada na bagagem e uma história grande demais para caber inteira em algumas horas de show. Ainda assim, é justamente desse passado que ela pretende retirar impulso para o que vem depois. A mulher que reencontra a menina, reassume referências que nunca deixou de carregar e volta à estrada diante de um público que também cresceu com suas músicas não apresenta “30 & Poucos Anos” como um ponto final.

Como afirmou ao ABCdoABC, “eu estou apenas recomeçando uma nova história”. E talvez seja essa a imagem que melhor define o projeto inteiro. Depois de 34 anos, Paula Fernandes não volta ao começo para repetir o caminho. Volta para descobrir de onde partir novamente.

  • Publicado: 12/08/2026 20:01
  • Alterado: 12/08/2026 20:02
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC