O retorno dos patinetes: desafio ou solução para a micromobilidade urbana?
Doze cidades brasileiras já regulamentaram o uso de patinetes elétricos. Mas, na prática, esse novo modal é realmente eficiente?
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 10/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Os patinetes elétricos estão de volta aos grandes centros urbanos, agora mais tecnológicos, equipados com sistemas de georreferenciamento, que limitam suas áreas de atuação. A proposta é clara: oferecer mais uma alternativa de transporte dentro da lógica da micromobilidade.

Mas afinal, o que é micromobilidade?
Micromobilidade é o conjunto de meios de transporte voltados a trajetos curtos, distâncias que são longas demais para se fazer a pé, mas pequenas para o uso de veículos automotores. A bicicleta tem sido o símbolo desse conceito e, agora, divide espaço novamente com os patinetes.
Seguindo o modelo das bicicletas compartilhadas, empresas, em sua maioria estrangeiras, passaram a disponibilizar patinetes elétricos nas principais cidades brasileiras. Esses veículos são equipados com propulsão elétrica, suspensão dianteira e freios nas duas rodas. A habilitação e o uso são simples: basta ser maior de 18 anos e baixar o aplicativo da operadora para começar a utilizar.
Nos fins de semana, é comum ver pessoas testando os patinetes, seja por lazer, seja em preparação para usá-los como meio de transporte nos dias úteis. E esse uso consciente e funcional pode ser, de fato, uma ferramenta eficaz na redução do uso de automóveis.

Quando utilizados com foco na mobilidade, como complemento ao transporte público ou para deslocamentos curtos em bairros atendidos pelo serviço, os patinetes contribuem para a fluidez do trânsito. No entanto, o descuido com a segurança pode ter efeito contrário: acidentes não apenas colocam vidas em risco, como também podem gerar novos pontos de congestionamento nas vias urbanas.
Para que o retorno dos patinetes seja um sucesso, três fatores são fundamentais: infraestrutura, educação e fiscalização.
1. Infraestrutura: por onde circular?
Em cidades como São Paulo, a regulamentação permite o uso dos patinetes em ciclovias, ciclofaixas e ruas calmas, estas últimas, com limite de até 40 km/h. Ciclovias são segregadas fisicamente das vias; já as ciclofaixas são delimitadas por tachões, as populares “tartarugas”.
Porto Alegre, entre outras, vai além: permite a circulação também nas calçadas, desde que seja respeitado o limite de 6 km/h, equivalente à velocidade de uma caminhada rápida a pé. Em geral, o limite para os patinetes é de 20 km/h, embora muitas operadoras limitem a velocidade a 15 km/h para as primeiras utilizações.
2. Educação: como usar com segurança?
Um dos maiores desafios do modal é a condução segura. A ausência de equipamentos de proteção individual, como capacete, pode transformar pequenos acidentes em tragédias. Houve, na primeira fase dos patinetes, uma morte por queda em Belo Horizonte, em 2019, e um caso recente em Porto Alegre, em 2024, após colisão com uma motocicleta.
Seria extremamente positivo se os aplicativos das operadoras oferecessem um “curso de boas práticas”, com orientações teóricas e práticas. Durante o período de uso recreativo, o usuário poderia aprender noções básicas de segurança e receber uma certificação simples. Tal medida reforçaria a consciência de risco e incentivaria o uso responsável, algo já comum entre ciclistas.
3. Fiscalização: quem controla?
A fiscalização é um ponto ainda nebuloso. Sem placas de identificação nos veículos, como penalizar condutores que desrespeitam regras?
Esse tema já era debatido em 2019 e, mesmo com o retorno dos patinetes, segue pouco resolvido. Algumas cidades podem utilizar câmeras de vigilância para identificar infrações. As notificações podem ser enviadas às empresas operadoras, que, por sua vez, responsabilizam os usuários. Há ainda ações presenciais feitas por guardas municipais e agentes de trânsito. No entanto, com o crescimento do uso, soluções mais tecnológicas e automatizadas se tornam urgentes.
Com a expansão do serviço, milhares de patinetes estão sendo ofertados no país. Se a tarifa dinâmica for acessível, por exemplo, menor que o valor de um lanche em fast food, o uso tende a crescer para fins de mobilidade real e não esporadicamente por recreação.
Por isso, a conciliação entre infraestrutura adequada, educação dos usuários e fiscalização efetiva é essencial para garantir que o retorno dos patinetes seja não apenas uma tendência ou moda urbana, mas uma solução eficiente e segura para as cidades brasileiras.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.