Parada LGBTQIA+ busca novas fontes de verba após perda de patrocínios

Com menos empresas apoiando o evento, organização procura recursos públicos para garantir a realização da Parada e de atividades ligadas à comunidade LGBTQIA+ em São Paulo

Crédito: Helber Aggio/PSA

A Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, realizada desde 1997 na Avenida Paulista, enfrenta um cenário de redução no número de patrocinadores e na arrecadação para a edição de 2026. Segundo a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), o evento deve contar com cerca de R$ 2 milhões em recursos privados neste ano, valor inferior ao registrado em 2022 e 2023, quando o patrocínio chegou a aproximadamente R$ 5 milhões por edição.

Atualmente, apenas duas empresas patrocinam a Parada LGBTQIA+: a Amstel, do grupo Heineken, e a L’Oréal. Nos últimos anos, diversas marcas deixaram de apoiar financeiramente o evento, entre elas Burger King, Mercado Livre, Sephora, Smirnoff, Terra, Vivo e Jean Paul Gaultier.

Diante desse cenário, a organização passou a buscar apoio de parlamentares por meio de emendas parlamentares para ampliar as fontes de financiamento e diminuir a dependência da iniciativa privada.

Emendas parlamentares entram no radar da organização

O presidente da APOLGBT-SP, Nelson Matias Pereira, afirma que a entidade iniciou articulações com deputados federais alinhados às pautas de diversidade e direitos humanos.

Segundo ele, a associação procurou 26 parlamentares progressistas em busca de apoio para as próximas edições da Parada LGBTQIA+, mas recebeu retorno positivo de apenas quatro.

A estratégia é utilizar recursos públicos de forma legal e transparente, por meio de planos de trabalho e prestação de contas, mecanismo já utilizado por diversas entidades culturais e sociais.

A expectativa da organização é retomar as conversas após o período eleitoral, na tentativa de garantir uma fonte mais estável de financiamento para os próximos anos.

Queda de patrocínio reflete mudanças no cenário corporativo

Para Nelson Pereira, a redução do interesse de empresas em associar suas marcas à Parada LGBTQIA+ está relacionada ao avanço de movimentos conservadores e ao aumento da pressão sobre pautas ligadas à diversidade.

O dirigente avalia que muitas companhias passaram a agir com maior cautela ao investir em iniciativas ligadas à inclusão e aos direitos humanos, especialmente em um ano marcado por disputas eleitorais.

Apesar disso, ele afirma que a Parada continua sendo um dos principais eventos de visibilidade e defesa de direitos da população LGBTQIA+ no mundo.

Custos superam arrecadação prevista para 2026

De acordo com a APOLGBT-SP, os custos diretos para colocar a Parada LGBTQIA+ nas ruas chegam a aproximadamente R$ 3,5 milhões por ano.

Além disso, a entidade mantém uma estrutura permanente ao longo dos 12 meses, com despesas administrativas, jurídicas, contábeis e de tecnologia. Para sustentar essas atividades, é necessária uma receita adicional estimada em R$ 1,5 milhão.

A Prefeitura de São Paulo também participa da realização do evento por meio de investimentos em infraestrutura, segurança, limpeza urbana e logística. Em 2025, o aporte municipal superou R$ 6 milhões.

Mesmo com a redução dos patrocínios, a organização afirma que a realização da Parada não está ameaçada.

Programação paralela pode ser afetada

Embora o evento principal esteja garantido, a falta de recursos pode impactar atividades complementares que integram a programação oficial.

Entre elas estão a Corrida do Orgulho LGBTQIA+ e a Feira da Diversidade e Empreendedorismo LGBTQIA+, iniciativas voltadas à promoção da inclusão, geração de renda e fortalecimento da comunidade.

A avaliação da organização é que esses projetos são os mais vulneráveis diante da diminuição das receitas.

Empresas explicam ausência no patrocínio

Algumas empresas que deixaram de patrocinar a Parada LGBTQIA+ em 2026 apresentaram justificativas para a decisão.

A Diageo, responsável pela marca Smirnoff, informou que continua reconhecendo a relevância da Parada para a comunidade LGBTQIA+, mas atribuiu a ausência neste ano à concentração de investimentos em outros compromissos estratégicos da marca, incluindo ações ligadas à Copa do Mundo.

O Burger King declarou que mantém iniciativas de apoio e visibilidade à população LGBTQIA+, embora não participe do patrocínio da edição atual.

Já o Mercado Livre afirmou que vem priorizando investimentos internos voltados à diversidade, como processos seletivos inclusivos, políticas de equidade salarial e ações para ampliar a representatividade dentro da empresa.

Outras marcas citadas pela organização, como Sephora, Terra e Jean Paul Gaultier, não comentaram o assunto.

Evento mantém importância para a comunidade LGBTQIA+

Mesmo diante das dificuldades financeiras, a APOLGBT-SP afirma que a Parada LGBTQIA+ continuará sendo realizada. Para a entidade, o evento representa não apenas uma celebração, mas também um espaço de visibilidade, reivindicação de direitos e combate à discriminação.

A edição de 2026 acontece no próximo domingo (7), na Avenida Paulista, mantendo a tradição de reunir milhares de participantes em uma das maiores manifestações públicas da comunidade LGBTQIA+ no mundo.

  • Publicado: 04/06/2026 11:05
  • Alterado: 04/06/2026 11:05
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: ABCdoABC