"Papaizinho,” estreia em São Paulo no Sesc Belenzinho
Peça "Papaizinho," inspirada em Édouard Louis, estreia propondo a reinvenção do laço na complexa relação entre pais e filhos no Sesc Belenzinho
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 17/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O ator, diretor e dramaturgo Caio Scot encontrou no livro “Quem Matou Meu Pai”, do aclamado escritor francês Édouard Louis, o motor criativo para o espetáculo inédito “Papaizinho,”. Mais do que uma simples adaptação, a montagem é uma jornada íntima e coletiva que dissocia e reconstrói o complexo tema da relação entre pais e filhos na contemporaneidade. A peça, que estreia a partir de 27 de novembro de 2025, no Sesc Belenzinho, com curta temporada, utiliza a literatura como ponto de partida para um diálogo urgente sobre afeto, legado e violência estrutural.
A dramaturgia de “Papaizinho,” é um trabalho de criação colaborativa assinado por Caio Scot, Felipe Rocha, Júlia Portes, Lucas Cunha e Luisa Espindula — sendo esta última codiretora da obra ao lado de Caio. A criação se alimenta da obra de Louis, mas se aprofunda nas vivências do próprio Caio. O espetáculo incorpora memórias resgatadas de fitas de VHS da família do ator, justapostas a gravações documentais de audições realizadas pela equipe para o projeto, batizado de “Procura-se um pai”. É nessa fusão entre o biográfico e o documental que a obra encontra sua força.
A Incomunicabilidade no Palco: O Filho e o Espelho
No palco, Caio Scot e Felipe Rocha dão corpo a uma narrativa que coloca Édouard, Caio e outras figuras paternas frente a frente em um rito de autodescoberta. A peça resgata o protagonista ainda garoto, confrontando sua imagem e o trauma de ser chamado de “viado”. Na fase adulta, o personagem visita o pai que não via há tempos, deparando-se com uma figura que não reconhece.
Este encontro é o epicentro de uma história marcada pela solidão e pela incomunicabilidade, onde a relação entre pais e filhos é apresentada como um campo minado de intolerância e dificuldade de conexão. A montagem não se detém em apenas uma história, mas apresenta diversas experiências de pais e filhos, revelando a complexidade dessas figuras e como as trocas afetivas se perdem ao longo do tempo.
A força documental das projeções
Para enriquecer a narrativa, o espetáculo utiliza projeções em vídeo que trazem histórias adicionais. Este material documental complementa a trama central, ilustrando o espectro da paternidade: desde a negligência e a falta de afeto — temas frequentemente presentes nas relações familiares — até exemplos de amor incondicional.
O processo de criação levou a equipe a um questionamento essencial que estrutura toda a peça: o que significa ser pai e o que significa ser filho? A montagem sugere que é crucial questionar os papéis que são inerentes a essas figuras e a responsabilidade de cada um na dinâmica familiar.
O diálogo com “Quem Matou Meu Pai”
“Papaizinho,” se entrelaça profundamente com o livro de Édouard Louis, que expõe a violência do sistema patriarcal e os ciclos de abuso e opressão. Louis analisa a relação com seu pai como um reflexo de uma sociedade que define os homens pela dureza, o que leva o pai a perpetuar o sofrimento de seu filho, ao mesmo tempo em que carrega em si as cicatrizes dessa mesma opressão social.
Embora não siga a narrativa literal do livro, a peça se apropria desse embate de gerações, questionando as expectativas sociais. A figura do pai no palco representa não apenas um indivíduo, mas um conjunto de normas rígidas que governam os afetos de maneira destrutiva. A busca do protagonista por um “pai” idealizado ou simbólico ecoa a luta de Louis para entender a sua difícil relação entre pais e filhos — um elo determinado por um sistema que inibe a vulnerabilidade e o afeto.
A diferença crucial: A abertura para o futuro
A peça de Caio Scot e Luisa Espindula oferece um olhar otimista e menos fatalista em comparação ao livro. Enquanto Louis se concentra nas duras constatações sobre a violência estrutural, “Papaizinho,” abre espaço para a potência da transformação. O espetáculo se recusa a fechar a narrativa na resignação e na repetição do ciclo de violência.
Ao buscar diferentes pais através das audições e ao explorar a pluralidade das histórias, a montagem sugere que a figura paterna pode ser desconstruída, questionada e, fundamentalmente, reinventada. Em contraposição à visão mais rígida de Louis, a peça propõe uma visão mais fluida e complexa sobre os laços familiares.
A peça convida o público a refletir sobre como podemos, enquanto filhos e enquanto pais, reconstruir nossas relações, libertando-nos das amarras de um passado que pode ter sido doloroso. A relação entre pais e filhos é, aqui, vista como um caminho de confronto e, sobretudo, de resgate da humanidade perdida nas sombras da incompreensão.
Serviço:
- Peça: Papaizinho
- Local: Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000).
- Temporada: De 27 de novembro a 14 de dezembro de 2025.
- Horários: Quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 18h30.
- Valores: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada), R$ 15 (Credencial Sesc).
- Classificação: 14 anos. Duração: 90 minutos.
- Acessibilidade: Haverá Interpretação em Libras nos dias 4, 5, 6 e 7 de dezembro e Serviço de Audiodescrição no dia 7 de dezembro.
Bate-Papo: Conversa “Papaizinho,” em diálogo com o livro “Quem matou meu pai”, com Caio Scot e Luisa Espindula. Mediação de Júlia Lemmertz. Dia 6/12. Sábado, das 17h às 18h30.