Paitea: documentário mostra a realidade da paternidade atípica

Filme gravado em Santo André destaca histórias reais de pais que permanecem presentes na criação de filhos com deficiência, desafiando estatísticas de abandono e preconceito social

Crédito: Suzana Rezende / ABCdoABC

O documentário “Paitea”, produzido com apoio da Lei Paulo Gustavo e lançado na cidade de Santo André (SP), coloca os holofotes sobre um tema ainda invisibilizado: a paternidade atípica. Com relatos sinceros e emocionantes, o filme reúne pais de crianças com deficiência, especialmente do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que resistem ao abandono e assumem seu papel de forma ativa, amorosa e transformadora.

Idealizado pelo produtor cultural e arte-educador Emerson Pequeno, que também é pai de duas crianças autistas, o documentário surgiu a partir de uma inquietação pessoal. “Quando eu recebi o diagnóstico dos meus filhos, fui pesquisar nas redes sociais e só encontrava resultados negativos, falando sobre abandono, descaso. Isso me incomodava muito. Então, sempre tive vontade de produzir algo nesse sentido”, relatou Emerson.

O filme tem 70 minutos de duração e foi construído com depoimentos reais sobre a paternidade atípica, indicados por cinco grupos de apoio à pessoa com deficiência de Santo André. “Responsabilidade não é uma escolha. Responsabilidade é uma obrigação. E o filho é sua responsabilidade até o tempo permitir”, reforçou o diretor.

A importância do pai presente: histórias de superação na paternidade atípica

Um dos entrevistados sobre a paternidade atípica é Arlindo Manoel da Conceição, pai de Leonardo, diagnosticado com autismo há cerca de 13 anos. Ele e a esposa, Cirlene, realizam um trabalho comunitário junto a famílias de pessoas com deficiência por meio da Associação Aviva e do CAPDEF.

Ao comentar sobre o impacto do diagnóstico na paternidade atípica, Arlindo relembra: “Foi desafiador porque não tinha informações em profundidade, não tinha muitos profissionais que pudessem nos dar mais suporte. Mas conseguimos juntos enfrentar tudo isso”. Para ele, a presença paterna é crucial no desenvolvimento da criança: “A criança precisa da presença do pai para aprender, copiar, se desenvolver. Quando esse pai está presente, dividindo momentos, aprendendo junto com a esposa, ele faz toda a diferença”.

Segundo Arlindo, cerca de 80% dos homens abandonam a família após um diagnóstico de deficiência. “Queremos transformar isso. Nós, homens, precisamos continuar sendo homens, aprendermos a ser bons maridos e bons pais. Você vai superar isso. Seu filho vai te agradecer”, aconselha.

O luto simbólico e o renascimento da paternidade atípica

Outro depoimento marcante é o do psicólogo André Martins, pai de Raul, diagnosticado com TEA aos três anos. “Mesmo sendo psicólogo, o impacto foi imenso. Chorei sozinho no carro quando recebi o laudo. É como se o sonho do filho idealizado desmoronasse”, disse André.

Ele fala sobre o “luto simbólico”, que muitos pais enfrentam ao perceberem que o futuro idealizado não será como o planejado. Porém, destaca o quanto a dedicação e o acesso às terapias adequadas transformaram a vida do filho. “Aquela criança que não falava e pouco interagia passou a formar sentenças, a olhar nos nossos olhos. Cada vitória do Raul é uma festa”, relembrou.

A família ainda enfrentou um segundo desafio: o diagnóstico de câncer da filha Eva, que demandou atenção total por um tempo, provocando uma regressão no desenvolvimento de Raul. “Mesmo diante de tanta adversidade, eu nunca me vi fora da minha paternidade. Eu gosto de ser pai. É inconcebível não estar com meus filhos”, completou.

Produção comunitária e luta por representatividade da paternidade atípica

“Paitea” é também um exercício de inclusão social e artística. O filme apresenta recursos de acessibilidade e desafia o público a refletir sobre como consumimos arte e cultura. Como explicou Everson Pequeno, diretor artístico: “Nem todos estão acostumados a assistir um vídeo assim. Mas é necessário adotar uma nova postura. Todas as peças de teatro, musicais e filmes deveriam ter esse tipo de recurso”.

A iniciativa também contou com apoio da Secretaria de Cultura, da Secretaria da Pessoa com Deficiência e do CRPD. O elenco foi formado por famílias reais, indicadas por movimentos sociais como o TEA Ativismo e o TEA Acolha.

O TEA e os desafios das famílias atípica

Paternidade atípica
Suzana Rezende / ABCdoABC

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social. De acordo com os relatos presentes em “Paitea”, o diagnóstico exige das famílias uma reorganização completa da rotina, paciência e, principalmente, acolhimento.

O diretor Emerson Pequeno destaca que o diagnóstico não define a criança: “Ela não tem culpa do mundo que nasceu, nem do diagnóstico que recebeu. E nem você, pai. É possível superar. Amor e paciência: é isso que você vai precisar para enfrentar qualquer desafio”.

O documentário “Paitea” não só rompe o silêncio sobre a paternidade atípica, como propõe uma nova forma de encará-la: como oportunidade de crescimento, conexão e amor. Um retrato necessário e urgente num país em que tantas famílias ainda enfrentam o abandono paterno como realidade.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 06/07/2025
  • Fonte: Sorria!,