Os Estranhos: Capítulo 2 — Sequência tenta ampliar o mito e tropeça no próprio espanto

A franquia iniciada em 2008 com Liv Tyler conta a história de três assassinos mascarados desconhecidos

Crédito: Divulgação

Introdução: Evolução da Franquia

Se você não sabe e está tão desavisado como eu estive, calma: Os Estranhos virou bagunça, então aqui e agora, vou tentar organizar as coisas pra você — e sim, dá para se perder!

O filme Os Estranhos estreou em 2008, tendo como seu ponto de partida, aquele terror seco sobre invasão domiciliar com desconhecidos que fica na espinha dorsal da trama, com os acertos do inexplicável. Já em 2018 veio a continuação meio direta, quase spinoff, Os Estranhos: Caçada Noturna que deslocou a carnificina para um parque de trailers, sendo uma continuação direta.

Após dezesseis anos, em 2024, chega ao cinemas Os Estranhos: Capítulo 1, (e quem estranhou fui eu), por não se tratava de uma sequência do original ou continuar os fatos dos antecessores, ele o título se torna objeto de franquia, pra acomodar a moda sem fim de incontáveis reboots, que reinicia tudo plantando as bases para uma nova trilogia. Ou seja, não negando seu passado antigo, mas neste novo rumo, os universos meio que podem coexistir — o mito do anônimo do primeiro agora se somando a ambição (explicativa) desta nova linha pretende dar rostos, motivos e continuidade. Deus, não!

Dependendo do gosto do cliente, isto pode mudar a forma de se assistir os filmes. Se você prefere o terror abstrato — o velho “não saber quem” e “por quê” — talvez estranhe a vontade (travestida de tara) desta nova trilogia, em querer mapear a origem e a motivação dos mascarados. Se você gosta de universo expandido e personagem central forte, é está conectado as novas gerações, saiba que agora a aposta está na personagem de Maya (a sobrevivente do reboot).

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O Novo Capítulo

Com a direção do veterano Renny Harlin de filmes como A Hora do Pesadelo 4 – O Mestre dos Sonhos e Duro de Matar 2, além de ter assumido a batuta do primeiro longa da nova saga Os Estranhos: Capítulo 1, na abertura dessa nova saga.

Assim, estreia nesta quinta feira (02), Os Estranhos: Capítulo 2, então escolha seu atalho: assistir pela ordem de lançamento (para sentir a evolução da mitologia), ou pular direto para o reboot e acompanhar a nova trilogia como um arco à parte — só não vá confundir “continuação” com “recomeço”.

Com a intenção de transformar a mítica dos longas em produto rentável, renasce o terror agora na continuação de um novo episódio: Os Estranhos: Capítulo 2, que empurra essa ambição adiante ao prometer ampliar a lore da trama e gerar respostas com mais perguntas.

Dito isto, vamos à crítica.

Crítica

Trama, Elenco e Protagonismo

A trama segue do ponto de parada de seu antecessor, ao continua acompanhando a história com Maya (Madelaine Petsch) se recuperando no hospital da perseguição dos três mascarados. E de cara, já se pode dizer que, o longa oscila bastante entre expansão de lore e repetição preguiçosa.

O trabalho do diretor Renny Harlin chega com uma ambição clara: transformar o remake-prólogo em uma trilogia que explique (ou ao menos amplie) ao que tivemos no terror original. Com roteiro assinado por Alan R. Cohen e Alan Freedland, Os Estranhos: Capítulo 2, traz uma antagonista Maya, em meio a recuperação dos traumas do primeiro filme segue ferida em constante desconfiança, mas sobretudo, condenada a não dormir em paz — porque os tais “Estranhos” perceberam que ela sobreviveu.

A premissa é promissora: um filme que segue a sobrevivente, explora paranoia e coagula um mito maior. Na prática, o capítulo do meio oscila entre momentos bons e decisões de roteiro que drenam energia e paciência do espectador. O mérito mais sólido do filme está nos esforços de Madelaine Petsch (Riverdale). Depois de se destacar no primeiro capítulo, ela aqui brilha com uma performance ao mesmo tempo física e contida, um trabalho de quase mímica e sobrevivência: olhos, respirações, pequenos reflexos que comunicam dor e uma vigilância permanente.

O roteiro sacrifica a protagonista que segura o plot inteiro nas costas, quanto aos coadjuvantes, há eficiência no elenco de suporte — que aqui, são meras figuras que o roteiro transforma em possíveis aliados e suspeitos, mantendo a paranoia de Maya em constante funcionamento. Gabriel Basso, Brooke Lena Johnson e Richard Brake conseguem momentos de presença que ajudam a amortecer os buracos de lógica do roteiro. Ainda assim, são peças secundárias: o filme vive e morre na intensidade que Petsch consegue imprimir credulidade.

Petsch segura o filme nos momentos em que a escrita falha, ou seja, a todo momento. A entrega honesta e previsível para uma protagonista “verossímil” em território de “final girl” (termo utilizado pra denominar a menina que fica para o final dos filmes de terror). Se além do fato de gostar do gênero ou da franquia, cabe ressaltar que é por ela que vale assistir. A atriz atravessa cenas ásperas e sustos bem montados com compromisso muito divertido dentro do plausível para os amantes de sangue da telona.

Direção, Roteiro e Referências de Os Estranhos: Capítulo 2

Apesar dos esforços técnicos e de uma protagonista cativante, alguns aspectos da execução comprometem o resultado final do longa, ou seja, o problema é o resto. O comando de Harlin e dos roteiristas é uma queda de braço entre profissionais que não conseguem definir o sentido do longa existir. Existe uma divisão bagunçada no tempo de tela, que não se decide entre expandir a mitologia dos assassinos e sucumbir ao referenciar os subgêneros que pouco casam entre si — do horror de invasão doméstica, ao slasher de floresta e até ao nonsense do ataque de javali CGI.

A condução de Os Estranhos: Capítulo 2 parece muitas vezes guiada por um catálogo de homenagens toscas dos anos 80 (que traz ecos de Halloween II, O Iluminado e A Hora do Pesadelo, pra citar alguns). E quem notou a piscadela (mal feita) para quem assistiu à homenagem de Razorback – As Garras do Terror, de 1984, também conhecido como “O Corte da Navalha“, cult oitentista. Contudo, as referências soam mais como preguiçosas do que para de fato reverenciar as obras clássicas, visto que utilizadas sem a articulação que as tornaria significativas. O resultado é um filme que tenta ser grande mostrando cenas grandiosas e esquece de costurar sentido entre elas.

Estrutura Narrativa e Aspectos Técnicos

A estrutura narrativa deste capítulo do meio é outro nó meio esquisito. Em vez de aprofundar o mistério com economia e tensão, Harlin espalha flashbacks, interlúdios e set-pieces que não somam a um propósito claro. A trilogia — ainda por ser concluída —, parece ter nascido de um roteiro maciço que foi recortado. As escolhas da construção de linha narrativa, geram uma sensação de que este capítulo intermediário só existe para ligar pontos futuros do que para justificar-se por si só.

Com todo o respeito e guardadas as proporções, é meio o que aconteceu com o longa de Peter Jackson, O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, que finaliza anticlimático e até parece mal editado. Se lá, o caso foi da pressa e valorização do Gollum, entre outros arcos — aqui foi apenas ruindade mesmo. Em outro aspecto, essa insistência da humanização dos vilões que não são o Darth Vader, cansam bastante. Em que universo se poderia pensar que ao contar quem foi a freira eu poderia ficar com mais medo, por exemplo? Quando um filme explica demais, empobrece o horror, quando deixa em aberto, irrita os puristas que preferem o anonimato absoluto dos vilões (meu caso). A ambivalência entre explicar e manter o mistério acaba polarizando o público.

Tecnicamente, Os Estranhos: Capítulo 2 tem lampejos que dançam entre enquadramentos sólidos, alguns sustos bem montados e uma direção de arte que acerta no clima. Harlin sabe compor um plano e montar bons jumpscare com precisão comercial. Mas esses acertos técnicos não compensam falhas de ritmo — há sequências que se arrastam e outras que pulam para soluções convenientes. E, sim: o javali CGI é uma pérola involuntária de descompasso tonal — um momento que mais distrai do que acrescenta, mesmo que tentasse tivesse boa intenção.

Mitologia e Origem do Mal

A expansão da mitologia de “Os Estranhos” é a parte mais controvertida. Aqui há revelações e sugestões para o terceiro capítulo, visto que há também escolhas que desmistificam aquilo que torna o original cortante na aleatoriedade das mortes e na impotência das vítimas frente à violência gratuita. Se for este o seu caso, fará parte dos espectadores que irão reclamar. Se você não se importa, vai apreciar o esforço de dar corpo ao folclore.

Eu, pessoalmente, me coloco no meio, mas com ressalvas: uma ambição de construir universo próprio é amplamente válida, contudo, é importante que a execução economize a mítica dos vilões com cuidado. Do contrário, o espectador verá na tela um misto de “pena empática” com uma “beirinha” de medo do vilão — fazendo com que se desvirtue o foco dramático e dilua totalmente o terror. Os “Estranhos” devem ser apenas psicopatas e ponto.

Ninguém precisa saber sobre as origens pra se aprofundar, se eu quiser profundidade, vou assistir Jean-Luc Godard. O mero “mergulho” injustificado na persona da maldade, só é interessante em âmbitos mais tridimensionais, que se galga no real, o terror é mais carregado de uma estética 2D de credulidade. Portanto, não há razão alguma que necessite disso, somente em casos mais específicos essa lógica pode ser dobrada. Se os realizadores pretendem colocar mais camadas, que o façam em protagonistas outros núcleos que sirvam para mover a história — do contrário, quanto mais soubermos sobre a origem do mal, fatalmente, mais se enfraquece o medo.

Confira o trailer oficial de Os Estranhos: Capítulo 2:

Balanço Final e Considerações

No balanço, Os Estranhos: Capítulo 2 é uma sequência desigual: faz progresso ao afastar-se do remake direto e tentar narrar algo maior, mas tropeça em escolhas narrativas e em apelos genéricos do subgênero. Para fãs da franquia original que amam o mistério absoluto, a entrega de pistas pode irritar; para quem deseja um universo expandido com personagem central forte, há elementos de interesse — sobretudo a performance de Petsch. Resta a pergunta óbvia: será que o capítulo final reunirá ambição e disciplina? Por ora, este segundo ato provoca curiosidade e frustração na mesma proporção.

Eu admito que me diverti bastante. Talvez por não dar bola pra nada do que foi citado, então para os amantes de baldes de sangue com pipoca salgada, o longa funciona muito bem, é visualmente seguro, com momentos de travar na cadeira. Afora do hype de estreia, a sensação que fica é de que falta algo — e definitivo. Um roteiro talvez.

Mesmo assim, com todos os problemas, não se pode economizar em uma coisa: pipoca, isso não pode faltar. Por isso, se possível, tente relaxar. O filme não chega a ser uma vergonha, muito menos serve de redenção de seu sucessor, mas dá a impressão de ser apenas um ato de transição que precisa do terceiro ato para justificar sua existência. A promessa está lá, se o contrato será cumprido é com você — e claro, fique ligado na “publi-trailer” já grudada como cena pós-crédito, aí só então saberemos, quando a trilogia fechar a conta e passar a faca!

  • Publicado: 05/02/2026
  • Alterado: 05/02/2026
  • Autor: 25/09/2025
  • Fonte: Sesc Santo André