Os benefícios e controvérsias da creatina: muito além do aumento de desempenho
Descubra os benefícios surpreendentes da creatina: da performance atlética à saúde cerebral e mais! Conheça suas aplicações e pesquisas atuais.
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 31/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
A creatina, um composto químico amplamente reconhecido por sua associação com o aumento do desempenho atlético e resistência durante atividades físicas, tem sido utilizada predominantemente por fisiculturistas na forma de creatina mono-hidratada. Contudo, essa substância não se limita apenas ao mundo dos musculosos.
A produção natural de creatina ocorre no fígado, rins e pâncreas, sendo armazenada principalmente nos músculos e no cérebro. Entretanto, a quantidade gerada pelo organismo muitas vezes não é suficiente para atender às necessidades diárias, levando muitos indivíduos a buscar fontes externas, como carnes e peixes oleosos, que são ricos nesse nutriente.
A creatina desempenha um papel crucial na gestão da energia disponível nas células e tecidos do corpo. Recentemente, pesquisas têm indicado que a suplementação pode trazer benefícios a diversas pessoas, não apenas atletas.
Questionamentos surgem sobre a adequação dos níveis de creatina no organismo e em que situações a suplementação poderia ser vantajosa. O professor Roger Harris, da Universidade de Aberystwyth no País de Gales, foi um dos primeiros a explorar os benefícios da suplementação de creatina na década de 1970, desde então esta substância ganhou notoriedade no cenário esportivo.
Embora uma variedade de estudos tenha mostrado melhorias nas funções físicas com o uso da creatina, nas últimas duas décadas pesquisadores começaram a investigar potenciais benefícios adicionais para a saúde relacionados ao seu uso.
Um campo de pesquisa em destaque abrange as funções cognitivas. A creatina está envolvida na neogênese neural – o processo de formação de novos neurônios no cérebro. O cientista Ali Gordjinejad, do Forschungszentrum Jülich na Alemanha, analisou estudos que ligavam a suplementação de creatina à memória de trabalho em indivíduos privados de sono.
Gordjinejad percebeu que esses estudos sugeriam que os benefícios da creatina exigiam semanas ou meses de consumo. Contudo, sua própria pesquisa focou nos efeitos de uma única dose sobre o desempenho cognitivo após uma noite sem dormir. Em um experimento com 15 voluntários, foram administradas doses de creatina ou placebo antes da realização de testes cognitivos subsequentes.
Os resultados indicaram uma melhoria significativa na velocidade de processamento entre aqueles que receberam creatina em comparação ao grupo placebo. Embora o motivo exato ainda seja incerto, Gordjinejad suspeita que a privação do sono possa aumentar a demanda celular por creatina, levando à sua maior absorção.
O estudo foi pequeno e os participantes receberam uma dose dez vezes superior à recomendação diária usual. Essa quantidade pode representar riscos para pessoas com problemas renais e causar desconfortos gastrointestinais em outros indivíduos. O pesquisador planeja conduzir investigações futuras utilizando doses mais baixas.
Em contrapartida, Terry McMorris, professor emérito da Universidade de Chichester na Inglaterra, analisou 15 estudos e concluiu que não há evidências suficientes para apoiar que a creatina possa melhorar funções cognitivas. McMorris ressalta que muitas das investigações se basearam em testes cognitivos desatualizados e sugere que são necessárias mais pesquisas para esclarecer essa questão.
Além disso, existem indícios de outros benefícios potenciais da creatina à saúde humana. Estudos realizados com animais mostraram que ela pode interromper o crescimento tumoral e também demonstraram melhorias nos sintomas da menopausa. Parte desse efeito pode estar ligado às propriedades antioxidantes da creatina, que ajudam o organismo a lidar melhor com estressores.
Um estudo envolvendo 25 mil participantes acima dos 52 anos revelou que aqueles com níveis mais altos de ingestão de creatina apresentaram uma diminuição significativa no risco de câncer. Outras pesquisas indicam ainda que a creatina pode beneficiar pacientes com depressão quando administrada junto à terapia cognitivo-comportamental.
Pesquisadores como Douglas Kalman ressaltam que a creatina é vital para a produção energética no cérebro e sua deficiência pode afetar negativamente os neurotransmissores e o humor. Esse fator pode ser especialmente relevante para veganos, uma vez que estudos sugerem que esse grupo tende a ter menores níveis de creatina muscular comparado aos onívoros.
Além disso, estudos recentes apontam para a possibilidade da creatina ajudar pacientes com condições crônicas, como aqueles afetados pela covid longa. Pesquisadores da Universidade de Novi Sad testaram sua eficácia em um pequeno grupo de pacientes e relataram melhorias nos sintomas relacionados à condição após o uso prolongado do suplemento.
As diferenças entre gêneros também estão sendo investigadas. Mulheres tendem a perder mais creatina pela urina e apresentam menores reservas musculares comparadas aos homens. Isso levanta questões sobre como as mulheres podem responder melhor à suplementação em situações específicas como covid longa.
A pesquisa sobre os efeitos da creatina se expandiu para incluir toda a vida humana desde sua concepção até os primeiros anos após o nascimento. A importância da creatina se estende ao desenvolvimento fetal e suas implicações em complicações durante a gravidez também estão sendo estudadas. No entanto, ainda não existem diretrizes definitivas sobre sua suplementação durante gestação devido à falta de evidências concretas.
No extremo oposto do ciclo da vida, existe crescente evidência sobre como a creatina pode ajudar na sarcopenia — perda muscular relacionada ao envelhecimento. Muitos adultos não estão consumindo quantidades adequadas desse nutriente essencial ao longo da vida.
Ainda assim, as orientações oficiais sobre ingestão diária recomendada permanecem escassas. Embora muitos indivíduos possam obter creatina através da alimentação normal, veganos são particularmente vulneráveis à sua deficiência.
A questão se mantém aberta: seria a creatina considerada um nutriente semiessencial? Vários estudos indicam que aqueles sem acesso adequado à dieta rica em creatina podem apresentar deficiências significativas dessa substância nos músculos.
Enquanto as pesquisas continuam em andamento para desvendar os múltiplos benefícios potenciais da creatina ao longo da vida humana, tanto sua eficácia quanto seus riscos devem ser considerados cuidadosamente. Especialistas concordam que mais dados são necessários para informar recomendações baseadas em evidências científicas acerca do uso desse suplemento tão discutido.
Ainda há incertezas acerca dos efeitos colaterais associados à suplementação, incluindo retenção hídrica e desconfortos gastrointestinais. Apesar disso, é geralmente considerado seguro quando utilizado corretamente; porém deve-se ter cautela em casos específicos como doenças renais ou hepatopatias.