Orixás voltam às livrarias com relançamento de Deuses de Dois Mundos

Saga de fantasia que une mitologia iorubá e cultura pop ganha edição definitiva celebrando 10 anos e o legado dos Orixás na literatura.

Crédito: Box Deuses de Dois Mundos

Uma aventura que mergulha de forma única e respeitosa no universo dos Orixás está de volta às prateleiras das livrarias de todo o Brasil. Aclamada como uma das obras mais importantes da fantasia nacional, a trilogia “Deuses de Dois Mundos”, de PJ Pereira, é relançada em uma edição definitiva pela Editora Realejo. 

O retorno da literatura inspirada na mitologia iorubá comemora uma década desde a primeira publicação. A nova versão traz texto revisado, novo projeto gráfico e um box comemorativo, reacendendo o interesse por mitos e narrativas envolvendo figuras da religiosidade africana.

Frequentemente comparada a clássicos como “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, a obra de Pereira se destaca por sua profunda imersão na mitologia iorubá e afro-brasileira. Enquanto Gaiman explora um panteão diverso, “Deuses de Dois Mundos” coloca no centro da narrativa a força e a complexidade de divindades orixás como Exu, Ogum, Oxum e Xangô, construindo uma ponte poderosa entre o Brasil contemporâneo e a África ancestral.

A trama: dois mundos, um destino

A genialidade da trilogia reside em sua estrutura narrativa dupla, que se desenvolve em paralelo, criando uma tensão constante e um espelhamento fascinante entre o mito e a realidade:

  • O Mundo Ancestral (Orum): Em uma África mítica, acompanhamos a jornada épica de Orunmilá, um poderoso babalaô (adivinho) que se vê diante de um desafio catastrófico: o silenciamento dos oráculos após as feiticeiras conhecidas como Iá Mi Oxorongá sequestrarem os odus — os 16 príncipes que regem o destino —, ameaçando reescrever a história dos homens. Para restaurar a ordem, Orunmilá recebe dos Orixás a missão de reunir sete guerreiros e iniciar uma busca perigosa para resgatar o futuro.
  • O Mundo Moderno (Aiê): Em São Paulo, conhecemos Newton Fernandes, um jornalista cético, ambicioso e com uma peculiar marca de nascença. Sua vida vira de cabeça para baixo quando, após um incidente bizarro, ele começa a receber mensagens enigmáticas e se vê no centro de uma conspiração que o força a cruzar a fronteira entre o mundo dos homens e o dos deuses. As crônicas de Newton, apresentadas em formato de e-mails, servem como um contraponto moderno e cínico à grandiosidade da saga mítica.

Por que “O Livro do Silêncio” é uma obra essencial sobre Orixás?

A redação do portal ABCdoABC obteve em primeira mão a versão revisada do primeiro volume da saga, “O Livro do Silêncio“.  O jornalista Thiago Quirino, que assina essa matéria, destaca que a obra é uma porta de entrada primorosa para este universo, ajudando a derrubar uma cultura de preconceitos e interpretações equivocadas sobre os orixás e a mitologia religiosa de matriz africana. 

A narrativa é ágil e viciante, com a alternância entre os capítulos da jornada de Orunmilá e os desabafos de Newton criando um ritmo que prende o leitor. PJ Pereira demonstra maestria ao popularizar a mitologia iorubá, tornando-a acessível sem simplificá-la.

Os deuses aqui não são figuras distantes ou perfeitas. São personagens complexos, movidos por paixões, fúria, amor e vaidade, o que os torna profundamente humanos e fascinantes semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes das já conhecidas histórias do Olímpo grego. A primeira parte da trilogia, como destaca o escritor Ale Santos, “criou uma obra que transcende os limites do gênero, ressoando com leitores de diferentes gerações e backgrounds“. 

Ler “Deuses de Dois Mundos” é uma experiência de entretenimento, mas também uma poderosa aula sobre a riqueza cultural que forma o Brasil.

Confira um teaser sobre a trilogia disponível no YouTube:

A nova edição após uma década de legado

Desde sua estreia, a trilogia dos orixás iorubás vendeu aproximadamente 100 mil exemplares, um marco para a literatura fantástica nacional. O sucesso gerou um intenso engajamento dos fãs, que chegaram a organizar campanhas pedindo uma adaptação para a TV ou streaming, provando o potencial transmídia da história.

Inspirado por sua própria jornada de desconstrução do preconceito religioso, PJ Pereira, que além de escritor é um reconhecido publicitário, escreveu a saga como uma resposta ao preconceito. “Não só descobri uma mitologia fascinante, quanto percebi que essas histórias me haviam sido negadas“, afirma o autor.

O relançamento pela Editora Realejo, em parceria com a Lítera Cultural, celebra essa trajetória e oferece uma nova oportunidade para que mais leitores descubram o universo dos Orixás.

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Detalhes da pré-venda:

  • Início dos envios: 8 de outubro de 2025
  • Box comemorativo: A trilogia completa em uma embalagem especial, limitada a 200 unidades, está disponível por R$ 329,90.
  • Livros individuais: Também podem ser adquiridos separadamente: “O Livro do Silêncio” (R$ 109,90), “O Livro da Traição” (R$ 139,90) e “O Livro da Morte” (R$ 142,90).
  • Os livros estão à venda no site do projeto.
Orixás
Box Deuses de Dois Mundos

“Deuses de Dois Mundos” retorna ao mercado editorial em um momento de crescente valorização das narrativas que exploram as culturas africanas, ao mesmo tempo em que se tenta combater o igual crescente conservadorismo religioso neopentecostal, o que coloca a obra de PJ Pereira como leitura indicada e adequada para o momento. É a chance de mergulhar em uma fantasia genuinamente brasileira, onde os Orixás são os verdadeiros heróis.

PJ Pereira é vencedor do Emmy, autor e roteirista com carreira internacional, que já trabalhou com Werner Herzog e liderou campanhas de grande impacto cultural e social.

Entrevista exclusiva com PJ Pereira

Orixás
PJ Pereira

O autor de “Deuses de Dois Mundos” concedeu uma breve entrevista exclusiva ao portal ABCdoABC. Confira:

ABCdoABC: PJ Pereira, você acredita que obras como a sua ajudam a diminuir o preconceito contra os orixás e as religiões de matrizes africanas?

PJ Pereira: Ao longo desses dez anos eu ouvi várias histórias de gente que tinha medo, ou que de alguma forma era contra essa parte da nossa cultura, e que depois de ler passou a entender e apreciar. Mas também ouvi histórias de gente que foi proibida de ler, que foi demitida por aparecer no trabalho com esses livros. Então eu espero que tenha ajudado, mas ainda não ajudou o suficiente. E esse é o problema da ignorância. Não tem como conversar com alguém que não quer conversa.

ABCdoABC: E você considera a trilogia Deuses de Dois Mundos uma literatura antirracista?

PJ Pereira: Antirracista? Essa era uma ideia que não se falava muito na época em que escrevi. Eu diria que ela é mais anti-ignorância. Foi uma forma de aproximar as pessoas do lado cultural por trás dessas histórias, não do lado religioso. Para que as pessoas ficassem mais à vontade de conhecer sem achar que estavam agredindo sua própria fé.

Quando eu terminei a trilogia, fui convidado para fazer o santo num terreiro que eu amo, mas eu respeitosamente declinei, porque acho que parte da minha credibilidade nesse processo vem exatamente de eu não ser da religião. Porque eu não quero convencer ninguém a acreditar em nada específico. Apenas a apreciar a beleza dessas histórias e dessa sabedoria que herdamos.

ABCdoABC: Há planos de publicar outras histórias desse universo no futuro?

PJ Pereira: ⁠Não há planos de publicar outras histórias nesse universo por enquanto. Mas eu publiquei alguns anos depois da trilogia um quarto livro que conta a origem da vilã dessa história, num livro chamado “A mãe, ⁠a filha e o espírito da Santa“. Que tem alguns personagens em comum, mas em vez de ser inspirado no candomblé da Bahia como a trilogia foi, esse quarto livro foi mais baseado no Terecô, que é uma religião com influências africanas só que vem do interior do Maranhão.

ABCdoABC: Li o primeiro livro e achei a construção de cada personagem interessante. Mas na visão do autor, qual o personagem que mais deu trabalho de construir e por quê?

PJ Pereira: ⁠Exu, exatamente por ser o mais demonizado e incompreendido entre todos os orixás. De uma certa forma, o desenvolver dessa trilogia representa também como evoluiu a minha compreensão desse orixá tão complexo de entender pelo ponto de vista de alguém que não nasceu e viveu essa cultura de perto.

ABCdoABC: Compartilhe com a gente uma curiosidade que você observou na reação das pessoas após o lançamento da saga.

PJ Pereira: Nos eventos de lançamento original, as filas de autógrafos duravam horas. E se você olhasse com cuidado, ia notar que tinha gente que parecia que estava indo para uma Comicon e gente com indumentária completa de terreiro. E os dois achando que estavam completamente de acordo com o que estavam fazendo ali. Isso foi a coisa mais gratificante que aconteceu no processo todo.

Uma demonstração de que o povo que dedica a vida aos orixás se sentiu respeitado, e que gente que não conhecia essas histórias também se sentiu à vontade de se empolgar com elas porque elas eram literatura pop também. Para uns, Xangô era um santo, para outros, um super-herói. Foi um momento de “missão cumprida”, sabe?

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 09/10/2025
  • Fonte: Sorria!,