Carbono Oculto: megaoperação mira PCC em combustíveis e finanças
Força-tarefa age em oito estados e bloqueia R$ 1,4 bilhão de suspeitos
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 28/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
Uma vasta operação, denominada Carbono Oculto, mobilizou 1.400 agentes de segurança nesta quinta-feira (28) em uma série de mandados de busca, apreensão e prisão direcionados a empresas do setor de combustíveis e instituições do mercado financeiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O objetivo central da operação é desmantelar a infiltração do crime organizado em negócios da economia formal.
De acordo com a Receita Federal, esta iniciativa representa a maior ação contra o crime organizado na história do Brasil, tanto em termos de cooperação institucional quanto pela sua abrangência. A operação abrange mais de 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas suspeitas de envolvimento em atividades ilegais como crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraudes fiscais e estelionato. Os agentes realizaram operações em oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
Até o início da tarde do mesmo dia, apenas seis dos quatorze alvos procurados haviam sido capturados. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, levantou a hipótese de que pode ter ocorrido um vazamento das informações sobre a operação. “É preocupante que de 14 mandados de prisão apenas seis foram cumpridos. Isso não é comum nas operações da Polícia Federal. Vamos investigar para determinar se houve algum vazamento“, declarou Rodrigues.
A fintech BK Instituição de Pagamento S.A., popularmente conhecida como BK Bank, destacou-se como um dos principais focos da investigação. A Receita Federal apontou que a fintech funcionaria como um banco paralelo para o PCC, movimentando aproximadamente R$ 46 bilhões não rastreáveis entre 2020 e 2024. Além disso, a Polícia Federal identificou R$ 68,9 milhões em transações em contas da BK Bank no período entre janeiro de 2020 e agosto de 2025.
A Reag Investimentos, uma das maiores gestoras independentes do Brasil, também foi alvo da força-tarefa. Os agentes visitaram a sede da empresa na alameda Gabriel Monteiro da Silva e outros três endereços na Avenida Faria Lima. Em resposta à operação, a Reag confirmou sua colaboração com as autoridades; no entanto, suas ações caíram mais de 12% no Ibovespa devido ao impacto da operação.
A infiltração do PCC na economia já gera preocupação entre grandes corporações e investidores estrangeiros. As investigações sugerem que o PCC efetivamente controla o setor de combustíveis no Brasil, tornando quase impossível para empresas legítimas competirem no mercado sem práticas corruptas.
A organização criminosa está envolvida com diversas substâncias químicas utilizadas no setor de combustíveis e opera em múltiplas etapas da cadeia produtiva. Autoridades identificaram irregularidades em mais de 300 postos que estavam fornecendo combustíveis adulterados ou cobrando por volumes inferiores ao que realmente entregavam.
A Receita Federal estima que mil estabelecimentos associados ao PCC movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. O grupo criminoso desenvolveu uma sofisticada estrutura financeira composta por corretoras e fundos diversificados para ocultar a origem ilícita dos recursos.
Em uma nova abordagem regulatória, o ministro Fernando Haddad (Fazenda) anunciou que as fintechs serão formalmente classificadas como instituições financeiras pela Receita Federal. Essa mudança permitirá um aumento na fiscalização das operações financeiras desses serviços.
Os investigadores estimam que as atividades criminosas desmanteladas durante a operação Carbono Oculto representem um montante superior a R$ 30 bilhões para o crime organizado. A ação prevê o bloqueio imediato de R$ 1,4 bilhão associado aos investigados.
Além disso, as investigações revelaram que o PCC tem interesse ativo na produção e comercialização de álcool combustível e usinas sucroalcooleiras. A facção criminal frequentemente utiliza métodos como aquisição silenciosa ou recuperação financeira de negócios para expandir seu domínio sem alterar oficialmente as estruturas empresariais existentes.
O porto de Paranaguá também foi identificado como um ponto crítico na importação ilegal de metanol destinado à adulteração dos combustíveis. Esse produto químico é altamente inflamável e tóxico, apresentando riscos significativos à segurança pública durante seu transporte clandestino.
Entidades representativas do setor de combustíveis manifestaram apoio à operação Carbono Oculto e ressaltaram a importância do combate às práticas ilícitas para garantir um ambiente econômico saudável e transparente.
A força-tarefa é resultado de quase dois anos de trabalho colaborativo envolvendo diversas instituições como Ministério Público Estadual e Federal, Polícia Federal e Receita Federal do Brasil. Além das ações criminais diretas contra os envolvidos, medidas estão sendo tomadas para recuperar tributos sonegados estimados inicialmente em R$ 6 bilhões através do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (Cira/SP).