ONU decide neste sábado sobre crise no estreito de Hormuz
Proposta apresentada pelo Bahrein abre caminho para ação defensiva na principal rota do petróleo, enquanto Irã, China e Rússia elevam a tensão diplomática
- Publicado: 03/04/2026 16:10
- Alterado: 03/04/2026 16:13
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: CNSU
O Conselho de Segurança da ONU (CNSU)deve votar neste sábado (4) uma proposta apresentada pelo Bahrein que pode autorizar o uso da força para proteger a navegação comercial no estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. A discussão acontece em meio ao bloqueio imposto pelo Irã desde o início da guerra envolvendo Estados Unidos e Israel, e aprofunda o risco de internacionalização ainda maior do conflito no Oriente Médio.
A proposta, segundo diplomatas, autoriza o uso de “todos os meios defensivos necessários” para garantir a passagem de embarcações comerciais pela região. O texto prevê validade inicial de pelo menos seis meses e conta com apoio de países do Golfo e de Washington, mas ainda enfrenta resistência de membros permanentes do conselho, como China e Rússia, que podem vetar a medida.
A reação do Irã veio antes mesmo da votação. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou nesta sexta-feira (3) que qualquer ação do conselho sobre a situação em Hormuz poderá agravar ainda mais a crise. Segundo ele, uma iniciativa desse tipo seria vista como provocação em um momento de alta tensão militar e diplomática.
Estreito de Hormuz concentra petróleo, pressão internacional e risco global

O estreito de Hormuz é a principal rota marítima de escoamento de petróleo do mundo e conecta o Golfo Pérsico ao restante do mercado internacional. É por ali que passa uma parcela crítica da produção global de energia, o que transforma qualquer bloqueio na região em ameaça direta ao abastecimento, aos preços internacionais e à estabilidade econômica de diversos países.
Com a guerra entrando em sua quinta semana, governos já começam a tratar a situação como uma emergência de escala global. O Reino Unido reuniu mais de 40 países em uma articulação virtual para discutir formas de garantir a passagem segura pela rota, mas sem acordo concreto até agora. Antes disso, Japão e França também já haviam iniciado conversas para coordenar pressão diplomática pela reabertura da via marítima.
A resistência mais forte dentro do Conselho de Segurança veio da China. Em declaração feita na quinta-feira (2), o embaixador chinês Fu Cong afirmou que o texto em discussão poderia legitimar o uso ilegal e indiscriminado da força, ampliando o risco de escalada e gerando consequências ainda mais graves para a região.
Trump pressiona aliados e fala em abrir o estreito de Hormuz à força

Enquanto a ONU discute a legalidade de uma eventual resposta armada, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a adotar um discurso agressivo sobre o impasse. Em publicação nas redes sociais, afirmou que os EUA poderiam “facilmente abrir o estreito de Hormuz”, tomar o petróleo e transformar a operação em uma fonte de riqueza para o mundo.
As declarações ampliam o clima de confronto num momento em que a Casa Branca também tenta pressionar aliados europeus a aderirem a uma coalizão voltada à reabertura da rota. Segundo o Financial Times, o governo americano chegou a usar o fornecimento de armas à Ucrânia como elemento de pressão sobre parceiros europeus, em uma tentativa de obter apoio mais direto no teatro do Golfo.
Em paralelo, um movimento chamou a atenção do mercado marítimo internacional. Um navio porta-contêiner da empresa francesa CMA CGM conseguiu atravessar o estreito nesta semana, em um sinal de que o Irã pode estar distinguindo nacionalidades e empresas consideradas hostis das que ainda não entraram diretamente no conflito. Segundo dados de navegação, a embarcação alterou seu destino antes da travessia para sinalizar às autoridades iranianas que o proprietário era francês.
Mesmo assim, o gesto está longe de indicar normalização. O bloqueio da rota continua sendo tratado como um dos pontos mais explosivos da guerra, porque, se mantido, pode provocar escassez de derivados, disparada nos preços da energia e um novo choque geopolítico de escala global.