Oncologia no Brasil: prevenção e diagnóstico ainda são desafios
Oncologista Roger Chammas destaca a urgência do diagnóstico precoce no combate ao câncer e os desafios para integrar inovações ao SUS.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 11/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
O oncologista Roger Chammas, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ressalta que a falta de prevenção e diagnóstico precoce impede que mesmo as terapias mais avançadas consigam transformar o panorama do câncer no Brasil.
Durante sua atuação como presidente da 16ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira, que ocorrerá nesta terça-feira (12), Chammas discorre sobre os obstáculos que dificultam a integração dos avanços científicos em oncologia ao Sistema Único de Saúde (SUS). Ele identifica fatores como os custos envolvidos, a necessidade de alinhar pesquisas às demandas da saúde pública, a ausência de uma rede articulada para diagnósticos rápidos e o tempo necessário para a aplicação das descobertas científicas na prática clínica.
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O oncologista enfatiza que priorizar medidas eficazes para o diagnóstico precoce deve ser um imperativo nas políticas de saúde pública. A educação da população e a capacitação dos profissionais de saúde são cruciais para facilitar a identificação rápida do câncer e o início imediato do tratamento.
Dados recentes do Ministério da Saúde, divulgados pelo Instituto Oncoguia, revelam um aumento preocupante na taxa de pacientes diagnosticados com tumores em estágios avançados. Em 2008, 53% dos pacientes iniciavam quimioterapia ou radioterapia com tumores localmente avançados; em 2021, essa porcentagem cresceu para 62%.
“A conscientização sobre prevenção é fundamental para promover diagnósticos mais precoces. Para isso, é necessário capacitar mais profissionais e ampliar a percepção sobre o câncer. Por exemplo, na área de câncer de cabeça e pescoço, a formação dos dentistas para avaliar a mucosa oral pode levar à detecção precoce de lesões”, explica Chammas.
O câncer de cabeça e pescoço, que engloba tumores na cavidade oral, faringe, laringe, cavidade nasal e tireoide, apresenta alta incidência no Brasil, um dos países com maior número de casos dessa patologia globalmente, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A detecção tardia desses tipos de câncer compromete significativamente as chances de tratamento eficaz e cura.
Um estudo realizado pelo Inca e publicado na revista The Lancet Regional Health Americas aponta que aproximadamente 80% dos tumores diagnosticados entre 2000 e 2017 foram identificados em estágios avançados. Chammas destaca iniciativas significativas para o diagnóstico precoce já implementadas no país, incluindo o trabalho realizado por profissionais em epidemiologia, que estudam a origem e as características dos tumores.
Campanhas nacionais como Outubro Rosa e Novembro Azul têm sido fundamentais para incentivar a população a realizar exames preventivos. Além disso, programas como o rastreamento do câncer do colo do útero através do exame Papanicolau representam ações importantes voltadas para a prevenção e detecção precoce da doença no contexto da saúde pública.
Ainda assim, muitos pacientes continuam buscando tratamentos inovadores fora do Brasil, especialmente imunoterapias e terapias-alvo. O diretor do Icesp alerta que esses tratamentos frequentemente são experimentais e não possuem eficácia comprovada.
“O câncer é uma doença em evolução contínua; muitas opções terapêuticas podem ser oferecidas no Brasil. No entanto, estamos em uma corrida entre o avanço da doença e o conhecimento disponível. Historicamente, conseguimos controlar a doença em grande parte, mas quando ela progride, as alternativas diminuem”, afirma Chammas.
A partir das pesquisas clínicas realizadas no exterior — frequentemente buscadas por pacientes brasileiros — junto aos estudos desenvolvidos internamente no país, há potencial para incorporar novos tratamentos. “Essa é a chave para promover a evolução nas abordagens terapêuticas. Contudo, o que realmente pode aprimorar os resultados é o diagnóstico precoce quando a progressão ainda é controlável. Uma vez que se perde esse controle, as opções se tornam limitadas”, conclui.
Chammas também observa que a saúde representa uma parcela significativa dos investimentos em pesquisa no Brasil, contando com financiamento de agências como Fapesp e CNPQ. Entretanto, ele defende que deveria haver uma melhor organização para coordenar esforços e transferir conhecimentos à população — um desafio que requer mudanças culturais promovidas através da educação e capacitação profissional.
A pesquisa clínica voltada para os problemas enfrentados pelos pacientes resulta em melhorias nos procedimentos terapêuticos. “O Brasil realiza uma quantidade significativa de pesquisa clínica apoiada pela indústria farmacêutica que beneficia os pacientes; entretanto, o grande desafio reside na incorporação desses resultados ao sistema público de saúde“, destaca.
Embora alguns tratamentos apresentem benefícios claros, não se pode garantir que todos os pacientes terão resultados equivalentes. “É vital informar os gestores sobre o impacto real dessas terapias na população — uma responsabilidade da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec)”, salienta Chammas.
Por fim, ele ressalta que o Prêmio Octavio Frias de Oliveira contribui significativamente para dar visibilidade às pesquisas brasileiras e facilitar a captação de recursos necessários ao avanço científico na área da oncologia. Contudo, destaca que a formulação de políticas públicas permanece sob responsabilidade do Ministério da Saúde com suporte técnico oriundo da academia e especialistas.