Obesidade infantil e desnutrição indígena crescem no Brasil, diz estudo
Estudo inédito revela duplo desafio no país com avanço rápido do sobrepeso nas crianças e persistência da baixa estatura entre indígenas.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 23/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
O Brasil enfrenta um cenário alarmante onde a obesidade infantil avança rapidamente em várias regiões do país. Simultaneamente, grupos vulneráveis lidam com a persistência crônica da baixa estatura. Essa realidade atinge de forma implacável a população indígena.
Um amplo estudo analisou o histórico de 6,49 milhões de crianças de baixa renda. A faixa etária avaliada abrangeu do nascimento aos nove anos de idade. Pesquisadores cruzaram informações oficiais do CadÚnico, Sisvan e Sinasc.
O trabalho conduzido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) adotou um rigoroso modelo de avaliação. As medidas brasileiras foram comparadas ao padrão internacional de crescimento da OMS.
Aos nove anos, o sobrepeso atinge 30% dos meninos e 28,2% das meninas. O avanço acelerado da obesidade infantil consolida um grave alerta de saúde pública. Em média, os indicadores de peso e IMC ficam acima da referência mundial durante toda a infância.
Obesidade infantil contrasta com déficit indígena

O crescimento em estatura não se recupera de modo igualitário entre os diferentes grupos populacionais. O déficit reflete precárias condições de nutrição, falta de saneamento básico e limitação aos serviços de saúde.
As crianças indígenas não apresentam recuperação do crescimento linear nem mesmo aos nove anos. A média de altura permanece excessivamente abaixo do padrão ideal para a idade.
“Sabemos, pela experiência epidemiológica, que quando a criança não recupera o crescimento até os dois ou três anos dificilmente vai compensar depois”, alerta o epidemiologista Gustavo Velásquez, professor da UFMG.
As disparidades regionais ilustram o tamanho do desafio estrutural brasileiro. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram as maiores taxas da obesidade infantil na reta final da primeira década de vida. Os índices de excesso de peso nesses locais ultrapassam a marca dos 10%.
Norte e Nordeste registram menor excesso de peso, mas sofrem com os piores marcadores de estatura. Entre meninas brancas, a proporção de peso excessivo chega a 11,8%, contra 7,5% nas indígenas. O dado aponta a coexistência brutal de diferentes privações fisiológicas.
Ameaça na janela dos primeiros mil dias
A literatura internacional comprova que o futuro metabólico se define muito cedo. A janela dos primeiros mil dias de vida cobra um preço alto diante de carências ou excessos.
“Há evidências de que distúrbios nutricionais nesse período podem produzir uma programação metabólica que aumenta o risco de doenças crônicas”, reforça Velásquez.
A presença maciça de produtos ultraprocessados multiplica os riscos da obesidade infantil nos lares brasileiros. São alimentos baratos, extremamente palatáveis e impulsionados por publicidade agressiva voltada aos menores.
Ações integradas para frear a crise
Especialistas defendem um pacote urgente de intervenções estruturais para reverter este cenário. O enfrentamento exige as seguintes frentes:
- Fortalecimento da atenção primária à saúde.
- Qualificação do pré-natal e incentivo ao aleitamento materno.
- Acompanhamento sistemático na puericultura.
- Melhoria imediata em saneamento e segurança alimentar.
- Taxação de bebidas adoçadas e regulação da publicidade infantil.