O Roteirista do Golpe: Moraes expõe Bolsonaro no STF

No primeiro ato do julgamento, relator descreve em detalhes a trama golpista, aponta Bolsonaro como autor do enredo e reforça provas que sustentam a acusação

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

O plenário estava denso. Alexandre de Moraes abriu o voto como quem joga luz num quarto fechado: não havia suspense, nem espaço para fantasia. A minuta golpista não era barquinho esquecido no Alvorada — era um manual de ruptura, com rabiscos do próprio Jair Bolsonaro. Plano escrito, vírgula por vírgula, como quem roteiriza um thriller político ruim demais até para a Netflix.

Roteiro e Protagonismo

Voltaram à cena as reuniões fechadas no Palácio do Alvorada e no Ministério da Defesa: generais à mesa, portas trancadas e versões da minuta passando de mão em mão. O plano era simples, no pior sentido da palavra: decretar Estado de Defesa, criar uma Comissão de Irregularidade Eleitoral para revisar a eleição de 2022 e atropelar o TSE. Se desse certo, a Constituição virava peça de decoração.

E não era só decreto. Moraes trouxe para o plenário a caderneta do general Augusto Heleno, recheada de anotações golpistas. “Não é normal um ministro da Defesa ter agenda com esse tipo de conteúdo”, disparou. Papelada rabiscada, decretos impressos, cadernetas com planos… Quando até os papéis conspiram, a defesa fica sem enredo.

No voto, Moraes crava que Bolsonaro não era figurante: era o roteirista e protagonista. “Liderou, incentivou e organizou” a trama, como um diretor obcecado pela cena final. No elenco de apoio: Mauro Cid, que ligava minuta e quartéis; Braga Netto, articulando generais; Anderson Torres, responsável pela logística; Alexandre Ramagem, operando a inteligência paralela; Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, atravessando comandos; e Almir Garnier, comandante da Marinha, que chegou a ensaiar apoio parcial. Um golpe com roteiro, figurino e personagens definidos.

Dino sela a sentença

Flávio Dino - STF - Julgamento de Bolsonaro - Alexandre de Moraes
Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Então veio Flávio Dino. Entrou com uma fala que misturou ironia e precisão jurídica:

“Quando o árbitro apita, o jogo acaba. Não existe prorrogação com as regras mudando depois.”

Foi a metáfora perfeita: Bolsonaro queria um segundo tempo, mas o apito já tinha soado. Dino reforçou que democracia não tem replay — quem perde eleição ganha oposição, não golpe. O julgamento encerrou sem espaço para dúvida: não era bravata, era projeto. A minuta rabiscada, a caderneta do Heleno, as reuniões com generais, os depoimentos de Mauro Cid — tudo aponta para um plano real, concreto e detalhado. Assim, o STF não comprou a versão de que era só conversa de boteco e futebolzinho de domingo institucional.

Em suma: Bolsonaro queria escrever o final do filme — dirigir, editar, escolher a trilha e assinar os créditos. Moraes e Dino entraram em campo como Bebeto e Romário na final de 94: tabelaram bonito, fecharam os espaços e, no último take, aplicaram a caneta — no drible e no roteiro. O golpe ficou para trás, abatido, enquanto a democracia segue no placar.

O roteiro em que se tentava reescrever, a democracia terminou no corte final. Com os votos já dados, Moraes e Dino cravam juntos a cena decisiva — o take em que a caneta sai da mão de Bolsonaro. Fim de filme. Sem créditos extras.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 10/09/2025
  • Fonte: PMSA