O preço da indiferença em um Brasil que ainda pode dar certo

Nem toda dívida aparece em planilhas ou indicadores; algumas são acumuladas em silêncio e cobradas de toda a sociedade ao longo do tempo

Crédito: (Tânia Rego/Agência Brasil)

Embora a indiferença também produza consequências, ela raramente entra nas contas que fazemos. Vivemos em uma época em que praticamente tudo pode ser medido. Calculamos o crescimento da economia, acompanhamos índices de inflação, analisamos produtividade, avaliamos investimentos e monitoramos indicadores que ajudam empresas, governos e cidadãos a entender os rumos do país. Aprendemos a colocar quase tudo em números e a tomar decisões com base neles.

Existe, porém, uma conta que dificilmente aparece em relatórios, gráficos ou discursos oficiais. Não porque ela seja pequena, mas justamente porque seus efeitos são difusos e se espalham lentamente pela sociedade. É o custo da dita indiferença.

Não se trata de um custo financeiro, embora ele também exista. Trata-se do preço silencioso que pagamos quando situações que deveriam causar indignação passam a ser encaradas como parte inevitável da rotina. Aos poucos, aquilo que antes despertava preocupação deixa de chamar atenção. E é exatamente nesse momento que a indiferença começa a produzir seus efeitos mais profundos.

O que deixamos de enxergar

Toda vez que uma criança abandona a escola, existe uma conta sendo construída. Quando uma pessoa com deficiência encontra obstáculos que poderiam ser eliminados, quando um idoso enfrenta a solidão, quando um jovem perde oportunidades por falta de acesso ou quando uma família permanece invisível diante das políticas públicas, essa conta continua crescendo.

Quase nunca ela aparece imediatamente. Não costuma ganhar destaque nos indicadores econômicos nem alterar, de um dia para o outro, os números que orientam governos e organizações. Ainda assim, seus efeitos se acumulam na forma de desigualdade, perda de oportunidades, enfraquecimento das relações sociais e redução da confiança entre as pessoas.

O problema é que a indiferença raramente chega de maneira abrupta. Ela se instala de forma silenciosa, altera nossas referências e, quando percebemos, aquilo que antes parecia inaceitável passou a ser tratado como algo normal. Talvez esse seja um dos maiores desafios da sociedade contemporânea: a capacidade de nos acostumarmos justamente com aquilo que jamais deveria ser naturalizado.

Responsabilidade não é o mesmo que culpa

Diante de problemas complexos, é comum buscarmos culpados. Essa reação é compreensível, mas nem sempre ajuda a construir soluções. Culpa e responsabilidade pertencem a campos diferentes. A culpa costuma dividir. A responsabilidade aproxima.

Nenhuma sociedade se transforma apenas pela ação do poder público. Da mesma forma, nenhuma empresa promove desenvolvimento apenas pelos resultados financeiros que apresenta, assim como nenhuma organização da sociedade civil consegue, sozinha, enfrentar desafios que pertencem a todos.

Também seria um equívoco imaginar que a participação do cidadão começa e termina no momento do voto. A construção de uma sociedade mais justa acontece diariamente, nas pequenas decisões, na forma como educamos nossos filhos, respeitamos as diferenças, valorizamos a inclusão, fortalecemos iniciativas sérias e participamos da vida em comunidade.

Empresas também exercem um papel decisivo nesse processo quando compreendem que gerar lucro e produzir impacto positivo não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, organizações sustentáveis entendem que desenvolvimento econômico e desenvolvimento social caminham lado a lado.

Da mesma forma, políticas públicas eficazes não podem ser tratadas como favores ou concessões ocasionais. Elas representam instrumentos permanentes para ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e garantir que direitos fundamentais deixem de existir apenas no papel.

O desenvolvimento também precisa ser humano

Direitos Humanos
(Imagem/Magnific)

Ao longo dos primeiros anos deste século, testemunhamos avanços extraordinários. Nunca produzimos tanto conhecimento, desenvolvemos tantas tecnologias ou criamos tantas possibilidades de inovação. A inteligência artificial transforma profissões, novos modelos de negócios surgem em ritmo acelerado e a capacidade humana de resolver problemas continua evoluindo.

Mas toda essa transformação nos conduz a uma pergunta inevitável. Estamos produzindo, na mesma velocidade, responsabilidade coletiva?

Tecnologia amplia capacidades. Desenvolvimento econômico cria oportunidades. Inovação abre caminhos antes inimagináveis. Nenhuma dessas conquistas, porém, substitui valores como empatia, compromisso, solidariedade e corresponsabilidade. São eles que determinam a qualidade das relações humanas e, em última análise, a qualidade da sociedade que estamos construindo.

O progresso só faz sentido quando alcança a todos

Depois de quase três décadas convivendo com diferentes realidades humanas, uma convicção permanece cada vez mais forte: nenhuma transformação verdadeira nasce da indiferença. Toda mudança relevante começa quando alguém decide enxergar um problema que muitos preferem ignorar e assume que parte da solução também lhe pertence.

Talvez o verdadeiro desenvolvimento de uma nação não deva ser medido apenas pelo tamanho de sua economia, pelo número de obras realizadas ou pelo avanço de suas tecnologias. Talvez ele esteja na capacidade de seus cidadãos, de suas organizações e de seus governantes compreenderem que progresso só faz sentido quando amplia oportunidades e preserva a dignidade de todos. Porque a indiferença nunca apresenta a conta imediatamente. Ela acumula seus efeitos em silêncio até que, mais cedo ou mais tarde, toda a sociedade seja chamada a pagá-los.

Resta, então, uma reflexão que vale para cada um de nós: que tipo de sociedade estamos ajudando a construir quando acreditamos que a responsabilidade pertence sempre ao outro?

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 17/07/2026 16:15
  • Alterado: 17/07/2026 16:16
  • Autor: Dom Veiga
  • Fonte: Adote um Cidadão

Veja mais

Eventos

17/07 - 18h
São Paulo
Brilha Sonhos 
17/07 - 19h
São Bernardo
Afonso Padilha – Como Nossos Pais