O peso da culpa materna
Entre julgamentos, autocobrança e solidão, a gestação também desafia a saúde mental das mulheres
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 16/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A gestação é um período de transformações profundas que vão muito além do corpo e já anunciam os desafios da maternidade. Para muitas mulheres, a mudança na rotina e na mente traz consigo um medo silencioso: o medo de se perder de si mesma. A pressão pela produtividade, o choro diante de tarefas simples que o corpo já não consegue executar e a culpa por pequenos deslizes — como trocar a dieta rigorosa por um copo de refrigerante — compõem a rotina de quem tenta equilibrar as expectativas sociais com a realidade do próprio corpo.
O impacto do julgamento e da autocobrança
Para Andreza Silva, 28 anos, esse processo foi intensificado pelo julgamento alheio. Grávida aos 16 anos, ela enfrentou a transição da adolescência para a maternidade sob o peso da reprovação externa.
“Meu corpo já mudava pela idade, e com a gravidez tudo acelerou. Eu me perdi totalmente”, relembra. Hoje, Andreza confessa que a sensação de fracasso ainda a persegue: “A culpa me acompanha até hoje; é difícil sentir que está falhando como mãe”.
Já Juliana de Souza, 38 anos, destaca que a saúde mental “dá um nó” diante de tantas demandas.
“Eu me achava fraca, achava que não daria conta. Mas o tempo passa e hoje entendo que faço o meu melhor. Perder-se no começo não faz de ninguém um fracasso; nós tiramos forças de onde nem imaginamos”, afirma Juliana.
Solidão Materna: Uma epidemia invisível

Embora muitas vezes cercadas de familiares e parceiros, muitas mães enfrentam o que a psicologia chama de solidão materna. Segundo levantamento da organização britânica The Co-op com a British Red Cross, 82% das mães de crianças pequenas sentem-se sozinhas com frequência.
No Brasil, os dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam um cenário preocupante: uma em cada quatro mulheres apresenta sintomas de depressão pós-parto. O isolamento emocional é apontado como um dos principais gatilhos para esse quadro.
A psicóloga Nicole Amorim, especialista em saúde mental materna e fundadora da campanha Maio Furta-Cor, explica que essa solidão vai além da falta de companhia física.
“Ela está ligada à falta de escuta e à idealização da ‘mãe perfeita’ que dá conta de tudo sozinha. Muitas mulheres não se sentem vistas nem compreendidas em suas dores”, alerta a psicóloga.
Nicole aponta que o foco total no bebê acaba deixando o autocuidado e as relações sociais em segundo plano, gerando sentimentos de inadequação. O caminho para a cura, segundo ela, passa pela validação da experiência real — com toda a sua complexidade e cansaço — e pela construção de redes de apoio genuínas.
Para reconstruir o bem-estar emocional das mães, é preciso mais do que conselhos; é necessário acolhimento. Grupos de apoio e espaços de escuta comunitários são essenciais para quebrar o ciclo de silêncio e vergonha. Como resume Nicole: “Ser ouvida com empatia pode mudar o curso de uma história”.
Como cuidar da saúde mental na maternidade?

Confira as orientações da psicóloga Nicole Amorim, para cuidar da saúde mental na maternidade:
- Identifique a sua rede de apoio: Ter uma rede não é apenas ter quem ajude com o bebé, mas ter pessoas com quem possa falar abertamente sem ser julgada.
- Nomeie o que sente: Não tenha vergonha de admitir cansaço ou solidão. Dar nome aos sentimentos é o primeiro passo para os validar e procurar ajuda.
- Abandone o ideal da “mãe perfeita”: Entenda que a produtividade mudou e que o seu corpo precisa de descanso. Pedir ajuda para tarefas simples não é sinal de fraqueza.
- Procure grupos de escuta: Conectar-se com outras mães que vivem experiências semelhantes ajuda a quebrar o ciclo de isolamento e silêncio.
- Priorize micro-momentos de autocuidado: Mesmo com a rotina intensa, tente encontrar pequenos espaços para si, seja para um café em silêncio ou para uma conversa que não seja sobre a maternidade.
- Valorize o “encontro genuíno”: Se conhece uma grávida ou uma mãe recente, em vez de dar conselhos, ofereça escuta ativa e empatia. Muitas vezes, ser ouvida é o melhor remédio.