Entre quatro paredes e um ar-condicionado: o monólogo de Fux no STF

O voto de Luiz Fux no STF virou espetáculo longo e constrangedor, usado como munição política e narrativa futura sobre Bolsonaro

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Era uma vez um STF que parecia cenário de sitcom mal ensaiada, havia com luz branca e uma espécie de “soprador de vento”. Essa é uma história de silêncios somado a um calor criado na panela de pressão que virou Brasília — e a tal “brisa”, gemia fingindo soprar mais alto que os cochichos calados de auditório progressista em piada do Léo Lins. Só tinha um problema: ninguém estava autorizado a rir.

Luiz Fux abriu o voto como quem promete uma palestra rápida — e entregou a versão jurídica de “O Senhor dos Anéis: a Sociedade da Divergência”. O voto parecia infinito, como se ele tentasse ganhar no cansaço, com direito a pausas dramáticas para beber água. Cada gole era um novo contrato de temporada: “vai terminar agora?” — e não, não terminava.

O plenário era carregado por aquele clima meio grind comedy (comédia de constrangimento em tradução livre), com Steve Carrell e câmeras de mão misturadas com olhares perdidos, papéis sendo organizados sem necessidade, gente mexendo na caneta só para fingir ocupação. Silêncios embaraçados, respirações pesadas. E a cada fala, os ministros o viam como se fosse uma espécie de Léo Lins para os progressistas. O clima no Supremo parecia episódio piloto de série sem roteiro, com ministros perdidos igual plateia em show do Monark quando resolve contar piada sobre liberdade de expressão pra criar partido alemão. Só que, ali, nem rir ou chorar se podia — nada escapava ao constrangimento que pairava no ar.

Enquanto discursava, Fux entregava, sem pressa, a peça que a defesa de Bolsonaro tanto sonhava: um voto desenhado para viver mais no futuro do que no presente. Falava de “foro inadequado”, reclamava do “tsunami de dados” que teria cerceado defesas, citava o caso Lula como quem oferece manual de instruções para anular processos. Tudo isso com a pompa de quem sabia que cada frase dali poderia ser usada em trending topics, habeas corpus, entrevistas internacionais e até em futuras temporadas do golpismo jurídico brasileiro.

Julgamento do Bolsonaro no STF - Luiz Fux - Alexandre de Moraes
Gustavo Moreno/STF

Mas a sessão seguia no STF, e com ela, o tempo se alongava como chiclete. Fux respirava fundo, tomava mais um gole d’água, voltava para mais uma digressão, enquanto ministros se entreolhavam tentando inventar desculpas para sair dali sem parecer fuga. O desconforto no STF era quase palpável. A cada nova frase, parecia que ele estava cavando um túnel para chegar no próprio plenário e recomeçar o voto de outro ângulo.

Assim ele seguia como se fosse contar mais uma anedota pesada… e contava. Só que ninguém ria, talvez algum bolsonarista infiltrado nos dutos de ar. No fundo, dava para sentir que o voto dele não tinha pressa de acabar, porque não nasceu para o agora — nasceu para virar munição. Ele repetia, com gosto, “foro inadequado” e “nulidade do processo” como quem grava slogans de campanha. E, no meio desse espetáculo quase experimental, Zanin, presidente da sessão, interrompeu o fluxo para perguntar, com toda a educação que cabe a alguém implorando por misericórdia:

— Ministro, há alguma previsão de desfecho?

Fux sorriu, bebeu mais um gole d’água, ajeitou o microfone e respondeu sem responder. O voto seguiu. O tempo parou. E os cochichos — reais e imaginários — continuaram ecoando pelos cantos do plenário, como se todo mundo ali soubesse que, no fundo, Fux não queria apenas ser ouvido. Queria ser lembrado.

O voto acabou — ou melhor, parou de falar. Porque acabou, mesmo, não acabou. No fundo, ninguém saiu do plenário com a sensação de encerramento. Fux não entregou apenas um parecer: entregou um monólogo performático, uma cápsula para o futuro, uma senha para reviravoltas que ainda nem começaram. O silêncio que veio depois não foi de alívio, mas de digestão lenta — cada gole d’água dele parecia ainda ecoar no carpete grosso do Supremo.

O clima continuava igual ao início: sitcom mal ensaiada, personagens desconfortáveis, diálogos que ninguém pediu, mas todos sabiam que fariam parte do roteiro. Fux queria ser ouvido hoje, mas queria, acima de tudo, ser citado amanhã. Mas epa, isso não parece coisa repetida? E vai ser. Porque, mesmo sem mudar o placar agora, ele melou e confundiu o jogo com uma narrativa feita sob medida para virar munição, slogan e corte viral.

Precisou o ministro Dino, que ainda teve que perguntar se Mauro Cid tinha decidido pela absolvição ou pela condenação, e a resposta foi a cereja do bolo: além de Braga Netto, obviamente o colaborador Mauro Cid, condenados — o restante incluindo Bolsonaro, todos absolvidos. Um paradoxo digno da tragicomédia nacional.

No fim, restou uma constatação inevitável: foi o voto mais longo da história do STF. E, ironicamente, pode ser também o mais duradouro — não pelo que decidiu, mas pelo que deixou plantado. Assim, o “público” — nós, os ministros e o próprio magistrado — saímos dali com a mesma sensação: não era um julgamento, era uma reunião que poderia ter sido um e-mail.

O voto mais longo da história do STF

Luiz Fux - STF
Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

E quanto ao ar-condicionado, bem…. ele continuava zumbindo no STF como se tentasse pedir para ir embora também. Olhares trocados diziam tudo: ninguém queria estar ali, mas todo mundo sabia que um dia teria que explicar que esteve. Fux, com seu copo d’água, parecia aquele personagem que fala 80% do episódio, mas jura que só tinha “um ponto rápido” para comentar.

E dessa forma que, no roteiro involuntário de um The Office jurídico, o país inteiro ficou na mesma cena: luz branca demais, cochichos inventando desculpas, um monólogo sem fim com aquela sensação coletiva de que o episódio ainda não acabou. Porque, no fundo, não acabou mesmo — só entrou no modo “continua no próximo episódio”.

E… vocês ainda estão, aí, — já podem ir pra casa, tá?

PS: no fim das contas, o único que resistiu heroicamente foi o ar-condicionado. Zumbia, suspirava, às vezes até chiava, como se tentasse participar do julgamento no STF. Figurante invisível, roubava a cena com seu vento artificial — mais dramático que muito ministro exausto. Enquanto toga e plateia se revezavam em olheiras, silêncios e tossidas, ele seguia soprando indiferente, como quem sabe que, no fundo, sua presença era a única certeza entre quatro paredes. Assim, o voto de Fux pode até ter passado, mas o ar — esse sim — continuou reinando, impassível.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 11/09/2025
  • Fonte: Sorria!,