O impacto dos acidentes de motociclistas no Brasil
Em 2024, o SUS gastou R$ 233 milhões com internações de motociclistas acidentados
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 27/03/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Diante dos números alarmantes de acidentes envolvendo motociclistas, observamos as consequências de uma população crescente que opta pela motocicleta como meio de transporte ou ferramenta de trabalho. Além disso, há os familiares afetados por essas escolhas.
O ano de 2024 bateu recorde de vendas de motocicletas e, pelos números apresentados até o momento, tudo indica que 2025 será mais um ano promissor nesse mercado. Por outro lado, houve um aumento expressivo no número de acidentes, principalmente entre jovens de 20 a 29 anos, que representaram 50.204 dos casos registrados em 2024, segundo um estudo da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).
O que está impulsionando o aumento dos acidentes?
O crescimento das vendas pode ser um fator, mas não necessariamente o principal. Se analisarmos as mudanças nos últimos 20 anos (de 2004 a 2024), percebemos que diversos comportamentos sociais se transformaram e estão diretamente ligados à condução das motocicletas.
Em 2004, não existiam smartphones, e nossos hábitos de conectividade eram bem diferentes. Os mototáxis tinham pontos fixos de encontro, os motoboys trabalhavam em empresas contratadas para serviços de entrega e os motociclistas planejavam suas rotas sem depender de dispositivos móveis. Aos que utilizavam a motocicleta para lazer, o trajeto era checado com antecedência, e aqueles que usavam o veículo no dia a dia buscavam caminhos mais eficientes por meio da experiência acumulada.
Duas décadas depois, a conexão à internet se tornou constante, permitindo alterações de rota em tempo real e transformando a experiência de condução. Para um jovem de 20 anos hoje, a conectividade é algo natural, e ele sequer se lembra da primeira vez que acessou um aplicativo de smartphone.
O grupo mais afetado pelos acidentes é justamente esse: os jovens nascidos na era digital, que encontram nos aplicativos de entrega uma oportunidade de trabalho. Além disso, os serviços de entrega estabelecem metas rígidas baseadas em eficiência e velocidade. Já reparou no tempo estimado de entrega de um pedido por aplicativo e o tempo real que ele leva para chegar? Em muitos casos, as entregas acontecem bem antes do previsto, mas a que custo? Será que os limites de velocidade, o sentido das ruas, as calçadas e os semáforos foram respeitados?
E não são apenas os entregadores que enfrentam esse dilema. O ritmo de vida acelerado e a necessidade de estar sempre conectado afetam todos os motoristas e motociclistas. Afinal, por que sentimos tanta urgência em verificar notificações no celular enquanto conduzimos? Será que conseguimos realmente desviar a atenção para uma tela minúscula sem comprometer nossa segurança no trânsito?
O acidente não acontece por um único descuido, mas sim por uma série de fatores combinados, muitas vezes relacionados à distração ou pressa.
A evolução das motocicletas: segurança ou risco?
As motocicletas de 2004 para cá mudaram bastante, mas nem tudo evoluiu como poderia. O principal avanço está no motor: em 2004, não havia motocicletas nacionais com injeção eletrônica de combustível, enquanto hoje não existem mais modelos carburados. O motor da motocicleta mais vendida no Brasil teve um crescimento de 35% no torque, o que significa acelerações mais rápidas.
Os freios também evoluíram, mas há lacunas preocupantes na segurança. A maioria das motocicletas de baixa cilindrada, que representam 80% do mercado brasileiro, ainda não tem freios ABS como item obrigatório. Enquanto as motocicletas acima de 300cc precisam ter ABS de série, como todos os automóveis.
As motocicletas mais vendidas só contam com esse sistema como opcional. O máximo que elas oferecem é um sistema de frenagem combinada (CBS), que ajuda, mas não substitui a eficiência do ABS em situações de emergência, especialmente em vias asfaltadas.
Tecnologia e segurança: um caminho a seguir
A tecnologia deveria ser usada para promover segurança e bem-estar, mas, muitas vezes, o que se vê é o incentivo a um comportamento agitado e imprudente. Seja no deslocamento diário, no trabalho ou em serviços de entrega, a busca pela agilidade extrema pode estar comprometendo vidas.
E quanto à motocicleta como meio de transporte? Será que os recursos tecnológicos estão sendo subutilizados? Sistemas que evitam o deslizamento das rodas na frenagem ou na aceleração poderiam reduzir significativamente os acidentes.
O mesmo valor gasto nas internações não poderia ser investida na prevenção, por meio de políticas públicas, educação no trânsito e a obrigatoriedade de tecnologias de segurança nos veículos?
A segurança no trânsito deve ser prioridade, e essa discussão não pode ser ignorada.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.