O impacto do vício em apostas no ambiente de trabalho brasileiro
O vício em apostas online afeta trabalhadores, gerando dívidas e problemas de saúde mental. Empresas precisam agir para mitigar esses impactos.
- Publicado: 19/01/2026
- Alterado: 24/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: TUCA
A especialista em futuro do trabalho, Maíra Blasi, analisa os efeitos que os jogos de azar têm sobre a rotina dos trabalhadores que se tornam dependentes das apostas online. O vício em apostas esportivas tem se mostrado um problema crescente e alarmante, afetando não apenas as finanças pessoais, mas também o desempenho profissional e a saúde mental dos envolvidos.
Um exemplo dramático é o de Gustavo Henrique, um gestor comercial de 25 anos que viu sua reserva financeira, equivalente a sete anos de economia, se dissipar devido ao vício em apostas. Inicialmente encarado como uma forma de entretenimento, o hábito rapidamente se transformou em dependência, levando-o a fingir trabalhar enquanto apostava durante o expediente.
Dados de uma pesquisa realizada pela Creditas Benefícios em parceria com Wellz by Wellhub e Opinion Box revelam que 54% dos gestores entrevistados acreditam que seus colaboradores utilizam pausas no trabalho, como o intervalo para o almoço, para realizar apostas. O estudo ouviu 405 profissionais de gestão e recursos humanos e destaca que 66% dos respondentes afirmam que o vício afeta a saúde mental e física dos funcionários. Além disso, 59% relataram queda na produtividade e 21% observaram aumento na rotatividade de pessoal.
A psicóloga Andréa Krug explica que a dependência por apostas pode ser comparada a outras adições como o alcoolismo ou o uso de drogas. O vício gera uma descarga intensa de dopamina no cérebro, resultando em gratificação instantânea que pode levar à compulsão. A dificuldade em identificar e tratar esses comportamentos no ambiente de trabalho é significativa, pois muitas vezes são confundidos com outros problemas de saúde mental.
Os impactos negativos do vício em apostas se manifestam também através de sentimentos intensos como culpa e vergonha. Rui Brandão, CEO da plataforma Zenklub, observa que, em casos extremos, isso pode levar a pensamentos suicidas. No ambiente corporativo, consequências como isolamento social e conflitos interpessoais podem até resultar em demissões.
Gustavo Henrique passou por essa trajetória após iniciar suas atividades nas apostas em 2021, atraído por ganhos rápidos. Ele chegou a acumular R$ 90 mil em um mês e decidiu deixar seu emprego para se dedicar exclusivamente às apostas. No entanto, a sorte mudou rapidamente e ele enfrentou perdas financeiras severas. Em busca de recuperar seu investimento inicial, contraiu dívidas significativas e acabou demitido por baixo desempenho.
Na Bahia, outra história semelhante ilustra o problema: uma balconista demitida devido a faltas frequentes relacionadas ao vício em apostas. Em um período curto, ela acumulou R$ 7 mil em dívidas enquanto lutava contra os efeitos da dependência.
Estatísticas da Confederação Nacional do Comércio indicam que aproximadamente 1,8 milhão de pessoas no Brasil tornaram-se inadimplentes por comprometer sua renda com jogos de azar. O CEO do Assaí, Belmiro Gomes, alertou para o impacto das apostas nas despesas familiares básicas como alimentação.
A questão se torna ainda mais preocupante quando líderes empresariais expressam sua inquietação sobre o aumento das demissões ligadas às dívidas oriundas das apostas online. Luciano Hang, fundador da Havan, relatou casos onde funcionários abandonaram seus empregos para quitar dívidas relacionadas ao jogo.
Maíra Blasi enfatiza que os trabalhadores mais vulneráveis são aqueles nas camadas mais baixas da pirâmide econômica. “Os atendentes de loja e entregadores são os mais afetados”, afirma Blasi. Este fenômeno pode resultar em um aumento da informalidade no mercado de trabalho e um crescimento nos afastamentos relacionados à saúde mental.
Raissa Romão é outro exemplo dessa realidade; ela começou a apostar semanalmente com a esperança de arrecadar dinheiro para sua loja de maquiagem. Embora tenha obtido alguns lucros iniciais, os prejuízos logo superaram os ganhos. Sua situação financeira deteriorou-se rapidamente ao ponto de ter que fechar sua loja e buscar um emprego formal novamente após acumular dívidas consideráveis.
Para mitigar os efeitos nocivos do vício em apostas entre colaboradores, especialistas sugerem que as empresas adotem uma abordagem proativa na gestão desse problema. Luciana Morilas, professora da FEA-RP/USP, defende que as organizações devem tratar esse fenômeno com responsabilidade social e considerar políticas efetivas para apoiar a saúde mental dos funcionários.
Atualmente, o Brasil ainda carece de regulamentações específicas sobre jogos de azar no ambiente corporativo. Embora a Lei nº 14.790 tenha sido sancionada recentemente visando tributações sobre as apostas esportivas, não aborda diretamente questões comportamentais no trabalho.
A reportagem questionou o Ministério do Trabalho e Emprego sobre iniciativas voltadas à prevenção dos impactos das apostas online no ambiente profissional, mas até o fechamento deste artigo não houve resposta.