O diálogo pode salvar uma relação

Alguns casais passam anos e anos lado a lado falando sobre tudo, menos aquilo que os incomoda. Ambos se acomodam pensando que nada do que disserem fará diferença e acabam minando a relação

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Uma relação amorosa pode ser comparada a uma mesa de negociações. Como todos nós somos naturalmente egoístas e pensamos apenas em nós mesmos quando o assunto é o amor, é natural que os envolvidos em uma relação afetiva procurem “puxar a brasa para a sua sardinha” e que, se não houver objeção do parceiro ou da parceira, um se anule em razão das vontades e das necessidades do outro. É a discussão – não as brigas – a exposição de necessidades que acaba mediando o conflito e diminuindo a tensão.

Em alguns relacionamentos é possível notar que um dos parceiros, achando que tudo está bem, mantenha seu comportamento e até mesmo o intensifique acreditando que está satisfazendo o parceiro. Como sempre digo e insisto, a fantasia é algo permanente entre nós. Ou seja, se não há reclamações, se não se percebe mudanças no comportamento do outro, isso é um indício de que tudo está correndo na direção certa. Mas é aí que reside o engano. Quem cala consente, mas não necessariamente está feliz em ceder.

Quando há a omissão de um ou de ambos os parceiros o que acontece, em longo prazo, é a degradação do que sentem um pelo outro, a relação se justifica e se mantém por mera conveniência e o sentimento que um nutria pelo outro começa a desaparecer. É incrível e muito elástica a capacidade que temos de ceder para manter intacta uma situação que é cômoda e agradável, enquanto o outro ou a outra se contorce em frustração.

Muitos casais que passam por isso, depois de terem rompido, percebem que foram omissos enquanto estavam juntos. Preferiram se calar a tentar consertar o que estava fora de rumo. A explicação talvez esteja na incapacidade de dizer o que sente e o que pensa, ou a falsa fantasia de que tudo o que for dito não será ouvido. O que colabora para esta percepção são as neuroses infantis, de quando esta pessoa tentava se expressar sua vontade ser ouvida, não recebia a atenção dos adultos. Cria-se então a certeza de que “não adianta falar, não vão me escutar mesmo”.

Depois que se atravessa este tipo de situação, os dois envolvidos acabam por aprender algumas lições: a primeira é a de que não se deve fantasiar a felicidade do outro, mas sim constatar de forma real que o outro está satisfeito com o rumo dado à relação e, em segundo, o outro deve dizer o que o incomoda para que ambos possam constatar a necessidade de mudanças e, se valer a pena, promover as modificações que não farão com que o sofrimento e a frustração continuem.

No consultório constatamos quase que diariamente que relacionamentos onde não há diálogo estão fadados ao fracasso. O tempo que isso levará para acontecer pode ser breve ou durar algumas décadas, mas certamente, cedo ou tarde, acontecerá. Se existe alguma culpa nisso, ela também deve ser dividida entre ambos. Se de um lado um dos envolvidos não se preocupou em perguntar, o outro também não se preocupou em dizer aquilo que o incomodava. De maneira quase que infantil ambos deixaram que as coisas se ajeitassem sozinhas e isso, é claro, se deve novamente às neuroses infantis que o casal carrega.

O final de qualquer relação é doloroso, mas a dor também é capaz de ensinar lições valiosas para quem está disposto a aprender para não repetir erros que levarão ao mesmo desfecho de outro envolvimento amoroso. Diz o ditado popular: “quem cala consente”, mas quem consente nem sempre está feliz em fazer concessões. Portanto é melhor dizer aquilo que incomoda, pois, o resultado pode ser melhor do que aquele que fantasiamos. Já para quem acredita que tudo está bem, cabe a responsabilidade de manter-se atento e certificar-se, no real, se isso é ou não verdade.

Conversar, dialogar e colocar suas ideias e posições para o outro é algo que já evitou conflitos entre nações. Imagine o benefício que isso pode trazer a um simples namoro ou até mesmo a uma relação estável, se bem que neste caso estabilidade acaba se mostrando algo bastante frágil. O importante é estar disposto a fazer isso, estar disposto a tornar algo que se tem melhor e mais prazeroso. E, se mesmo assim a disposição de tomar alguma atitude não nascer, o melhor mesmo é concluir que não havia nada que merecesse ser salvo.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 11/04/2016
  • Fonte: FERVER