O Brasil levou Neymar para a Copa ou a memória dele?
Polêmica de lesão de grau 2 na panturrilha de Neymar, levanta dúvida se o craque que irá para a Copa é o gênio, o bichado ou o do marketing
- Publicado: 29/05/2026 16:15
- Alterado: 29/05/2026 17:35
- Autor: Gabriel de Jeuss
- Fonte: ABCdoABC
Como era esperado, Neymar voltou a dominar o debate do futebol brasileiro. Uma semana após a convocação da seleção para a Copa do Mundo de 2026, praticamente todas as discussões giram em torno de um único tema: ele deveria estar na lista?
A pergunta, no entanto, já não é se não Neymar irá para a Copa, uma vez que ele já foi convocado. O questionamento real é: qual Neymar vai para a Copa?
O atacante chega ao Mundial convivendo com mais uma lesão muscular. Diagnosticado com uma lesão de grau 2 na panturrilha direita, ele está fora dos amistosos contra Panamá e Egito e trava uma corrida contra o tempo para estar disponível na estreia do Brasil, diante do Marrocos, que eu e você sabemos bem, é bem provável que não ocorra
Até aqui, zero surpresa.
O Neymar que existe hoje

A falta de regularidade em jogos do Santos desde o ano passado gera debate e se a ida do craque ao Mundial valerá a pena. Em 2026, um festival de ausências, sendo 10 no total, daí entre as lesões posso listar para vocês: no início de 2025 um edema e uma lesão na coxa, que o tirou de campo nos meses de março e abril.
Depois, ainda no ano passado em setembro, lesão Grau 2 na coxa direita o afastou dos gramados até novembro. Quando ele retornou em novembro, adivinhem o que aconteceu? Foi diagosticado uma lesão no menisco do joelho esquerdo, talvez vocês se recordem que ele foi até Belo Horizonte fazer uma cirurgia.
E mais nova lesão de Neymar, dentre as tantas, agora lesão Grau 2 na panturrilha, às vésperas de uma Copa do Mundo. Desde o seu retorno ao Santos, Neymar acumulou um histórico de problemas físicos que resultaram em cerca de 5 a 6 lesões e mais de 29 jogos fora dos gramados
O histórico mostra que esta segunda passagem pelo Santos, especialmente 2025, não sendo pior sua apresentação no Al-Hilal. O jogador que durante anos decidiu partidas em sequência agora convive com períodos cada vez maiores longe dos gramados.
E essa realidade é a que preocupa. Tudo bem, fosse esta lesão grau 2 na coxa direita especificamente às vésperas da Copa, tudo bem, ele se recuperaria, e a maioria estaria bem com isso. Ou se fosse cortado, até talvez a galeria teria mais empatia.
O problema na realidade foi: uma lesão, volta, e o “agora vai”. Em sequência, para de novo, mais outra lesão, e novas tentativas. Isso para quem pretende jogar uma Copa do Mundo torna-se mais sério. Tão sério que antes da convocação achavámos que agora sim estava tudo resolvido, ou parte resolvido.
Por isso que sua convocação gera tanta divisão de opiniões, porque a gente não sabe qual Neymar estará na Copa, mas por este histórico recente de lesões a gente sabia o que estava a caminho. Ausência em jogos não mente. Inconstância do ponto de vista técnico grita.
Mas, se mesmo com tudo isso, se até o Papa sabia do histórico de lesões, não há motivos acreditarmos na ingenuidade alheia a partir do momento em que ele foi convocado.
Neymar continua sendo um jogador diferente.

Mesmo longe de seu auge físico, ainda possui características raras: leitura de jogo, capacidade de decidir em espaços curtos, criatividade e talento técnico acima da média. Poucos atletas brasileiros conseguem produzir uma jogada inesperada como ele.
Talvez seja aqui que raíz da discussão ganhe forma. Pois há quem acredite que mesmo não estando 100% ele ainda é capaz de modificar um jogo decisivo, algo que os demais não fariam.
Considero uma visão compreensível. O problema é que ela se apoia muito mais na memória do jogador do que no que ele vem apresentando dentro de campo nos últimos anos.
Uma aposta que todos conheciam. Há quem tente encontrar culpados.
E aí aqui entra em mais uma novela. Nos exames feitos pelo departamento médico do Santos era apenas um edema leve, e enquanto os exames do departamento médico da seleção constaram uma lesão muscular de grau 2. Percebe, o Santos omitiu informação? Quem errou nesta históra?
Mais uma vez um ping-pong de qualquer assunto que envolva Neymar. Só que aí é que está o detalhe: ninguém foi pego de surpresa.

Todos conheciam o histórico recente de Neymar. Todos sabiam que havia risco. Todos sabiam que sua condição física era uma incógnita. Ainda assim, ele foi convocado. E provavelmente seria convocado em quase qualquer cenário.
Agora o outro ponto que trago aqui é: Copa do Mundo também é um storytelling. Também tem seus roteiros, heróis, vilões, personagens. Neymar é um deles. Pro bem ou pro mal, mas é. Sua convocação é um storytelling. Suas lesões também. O vai pra Copa ou não, também é outro.
Sendo que, ele só é esse personagem, porque no final das contas seja por ser um jogador, um popstar, o cara do pocker, ou qualquer outra coisa, ele é de todos, o mais relevante do futebol brasileiro.
Parece assim, um gênio da bola vale 1x, um craque que vai para Copa lesionado vale 2x, um craque que é gênio da bola, que vai para a Copa lesionado, que é amado e odiado, vale 10x. Por isso ele vai.
Ele movimenta debates, gera audiência, cria engajamento e monopoliza atenções como nenhum outro atleta do país. Em uma seleção que há anos luta para recuperar identificação com parte da torcida, ele ainda é o rosto mais reconhecido do projeto.
Isso não significa que tenha sido convocado apenas por marketing. Mas ignorar o peso de sua imagem também seria ingenuidade. Neymar é notícia quando joga.
É notícia quando não joga. Quando se machuca. E continua sendo notícia quando é convocado lesionado.
Daí é onde encontra o poder onde toda essa história se encontra. Porque se ele voltar a tempo e conduzir o Brasil a uma grande campanha, será tratado como o craque que superou as dores, as críticas e as dúvidas para buscar o título que faltava em sua carreira. E brasileiro amam super-heróis.
Se não conseguir corresponder, a narrativa será outra: a do talento que lutou contra o próprio corpo até o último instante.
De uma forma ou de outra, ele continuará sendo protagonista. Talvez seja exatamente por isso que sua presença nunca esteve realmente ameaçada.
E se fosse outro?
Essa é a pergunta que permanece. Se outro jogador apresentasse o mesmo histórico físico recente, teria sido convocado?
A resposta fica a cargo de cada torcedor. Mas é difícil acreditar que qualquer outro atleta brasileiro receberia o mesmo crédito, porque esta convocação não envolve apenas o jogador que Neymar é hoje, mas também envolve tudo aquilo que ele já foi e, principalmente, tudo aquilo que ainda existe a esperança de que volte a ser.
Agora resta esperar. O Brasil estreia contra Marrocos em 13 de junho. Depois encara Haiti e Escócia na fase de grupos.
Até lá, o país seguirá debatendo a mesma questão.
Não se Neymar vai para a Copa. Mas qual Neymar chegará lá. Nos vemos na Copa, pessoal!