O Agente Secreto vence Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa
O longa de Kleber Mendonça Filho ampliou a projeção internacional do cinema brasileiro; Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator de Drama
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 12/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
O cinema brasileiro viveu uma de suas noites mais emblemáticas no cenário internacional. Neste domingo (11), o filme O Agente Secreto conquistou o Globo de Ouro 2026 na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, enquanto Wagner Moura venceu como Melhor Ator em Filme de Drama. A premiação marcou um feito inédito para o país e colocou o Brasil no centro das atenções da indústria cinematográfica mundial.
A cerimônia consolidou um movimento que já vinha se desenhando nas últimas semanas. Poucos dias antes, o longa dirigido por Kleber Mendonça Filho havia vencido o Critics Choice Awards como Melhor Filme Internacional, prêmio tradicionalmente acompanhado de perto por críticos, distribuidores e membros da Academia.
A noite de Wagner Moura e um discurso com peso histórico

Wagner Moura destacou o caráter político e memorial do filme ao receber o prêmio de Melhor Ator de Drama. “É um filme sobre memória, sobre a ausência dela e sobre um trauma que atravessa gerações”, afirmou no palco. Segundo o ator, o reconhecimento ultrapassa o aspecto individual da carreira e dialoga com valores coletivos. “Esse prêmio é dedicado a todos que insistem em manter seus valores mesmo em tempos difíceis”, completou, sob aplausos da plateia.
A vitória teve peso simbólico adicional pela disputa acirrada. Moura concorreu com nomes de forte presença internacional, como Joel Edgerton, Oscar Isaac, Dwayne Johnson, Michael B. Jordan e Jeremy Allen White.
Kleber Mendonça Filho e a defesa do cinema autoral
Ao receber o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, Kleber Mendonça Filho fez questão de agradecer à equipe e reforçar o caráter coletivo da produção. “As melhores coisas acontecem quando você trabalha com um grande ator e um grande amigo”, disse, ao mencionar Wagner Moura.
O diretor também direcionou sua fala às novas gerações do audiovisual. “Este é um momento decisivo para fazer cinema, no Brasil e no mundo. Precisamos continuar filmando, contando histórias e formando novos realizadores”, afirmou.
Reconhecimento institucional e repercussão política

A vitória de O Agente Secreto também repercutiu no cenário institucional brasileiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou a conquista nas redes sociais e destacou o impacto simbólico do prêmio para o país. “Viva o cinema brasileiro, que segue sendo motivo de orgulho nos principais palcos do mundo”, escreveu.
Lula também ressaltou o conteúdo histórico do filme. “‘O Agente Secreto’ ajuda a lembrar a violência da ditadura e a força de resistência do povo brasileiro”, afirmou.
O Agente Secreto foi realizado sem recursos da Lei Rouanet. A produção captou cerca de R$ 7,5 milhões por meio do Fundo Setorial do Audiovisual, administrado pela Ancine, além de aproximadamente R$ 5,5 milhões em investimentos privados nacionais. Além dos recursos brasileiros, o projeto contou com coproduções internacionais da França, Alemanha e Holanda, que somaram cerca de R$ 14 milhões. O orçamento total do filme ultrapassou R$ 27 milhões.
Oscar entra no radar após sequência de prêmios
A vitória no Globo de Ouro, somada ao prêmio conquistado no Critics Choice Awards, fortaleceu a presença de O Agente Secreto na reta final da temporada internacional para o Oscar. As duas premiações costumam influenciar diretamente o debate dentro da indústria e ampliam a visibilidade dos filmes entre os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Especialistas avaliam como consistente a presença do longa na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A vitória de Wagner Moura também recolocou seu nome entre os atores observados para a categoria principal, mesmo em uma disputa tradicionalmente mais restrita. Além disso, críticos internacionais apontam possibilidades reais de indicações em categorias como Direção, Roteiro Original e Direção de Elenco.
O desempenho de O Agente Secreto nas principais premiações da temporada reafirma o momento de reposicionamento que o cinema brasileiro vive no cenário global. A obra alia narrativa histórica, rigor estético e relevância política e, a trajetória do filme reafirma o cinema brasileiro como produção capaz de dialogar em pé de igualdade com grandes indústrias audiovisuais.
O Agente Secreto: thriller político ambientado nos anos da ditadura
O Agente Secreto é ambientado nos anos 1970, durante o regime militar brasileiro. A trama acompanha Marcelo, professor universitário interpretado por Wagner Moura, que retorna ao Recife em busca do filho caçula enquanto passa a ser observado e pressionado por estruturas de repressão do Estado. A narrativa se constrói a partir da tensão cotidiana, da vigilância constante e das marcas deixadas pela violência institucional.
O filme evita soluções fáceis e aposta em uma condução densa, marcada por silêncios, deslocamentos e escolhas morais difíceis. Ao tratar de memória, trauma e responsabilidade histórica, a obra dialoga diretamente com questões ainda sensíveis no Brasil contemporâneo, ampliando seu alcance para além do circuito artístico e alcançando o debate público.