A NR-1 e o fim da crise silenciosa da “Gestão por Adoecimento”
Artigo de Cibele Amorim, especialista em Saúde Mental Corporativa e Gestão de Riscos Psicossociais
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 19/02/2026
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
O Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa que os balanços financeiros raramente refletem, mas que o INSS confirma: em 2024, o país registrou mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Este é o maior e mais trágico número desde 2014. Esses dados não são apenas estatísticas; são um sintoma de uma falha de gestão sistêmica. Por décadas, muitas empresas operaram sob uma “gestão por adoecimento“, onde o burnout era visto como um subproduto aceitável da produtividade.
Esse modelo, no entanto, tornou-se insustentável e, agora, ilegal.
Muitos líderes ainda não compreenderam a profundidade da mudança. A implementação das diretrizes da Norma Regulamentadora 01 (NR-1) transcende a mera conformidade legal. Ela efetivamente força as empresas a abandonar a passividade em relação à saúde mental.

A NR-1, ao estabelecer o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), obriga que os riscos psicossociais (como sobrecarga, assédio moral, pressão excessiva e falta de autonomia) sejam identificados, avaliados e controlados com a mesma seriedade que um risco físico, como ruído ou queda em altura. Negligenciar essa implementação não é mais uma opção.
A inação expõe a liderança e a organização a um passivo imediato e severo, incluindo: multas administrativas pesadas, interdição de atividades ou setores, aumento de ações judiciais trabalhistas, especialmente pedidos de indenização, inconsistências e problemas no eSocial e danos irreparáveis à imagem e marca empregadora da empresa.
A pergunta central que recebemos não é “por quê“, mas “como“. Como começar? A resposta reside em um Diagnóstico de Riscos Psicossociais. E é crucial entender: isso não é uma pesquisa de clima.
Uma pesquisa de clima mede a satisfação. Um diagnóstico de riscos psicossociais mede o adoecimento da força de trabalho. Ele identifica as causas-raiz na organização do trabalho que estão gerando estresse e burnout. O processo analisa a estrutura das metas, a qualidade da liderança, a clareza dos papéis e a cultura de comunicação. E, para ser assertivo, esse diagnóstico precisa ser conduzido por especialistas e ser a base para implementar estratégias contínuas de saúde mental corporativa, e não ações pontuais.

Empresas que enxergam a NR-1 apenas como um custo estão perdendo o ponto central. Em um cenário onde a saúde mental é pré-requisito para o talento, a adequação é uma oportunidade estratégica. A implementação eficaz se traduz em benefícios tangíveis que impactam diretamente a última linha do balanço:
- Redução de custos diretos: A gestão de riscos diminui ativamente a incidência de estresse e burnout, reduzindo custos com afastamentos e sinistralidade do plano de saúde.
- Aumento da retenção (diminuição do turnover): Empresas com bom clima organizacional, que cuidam ativamente da saúde mental, atraem e retêm seus melhores talentos. O custo de reter é sempre menor que o de substituir.
- Melhora da cultura e relações: Ambientes que promovem a escuta ativa e o respeito fortalecem os laços, a segurança psicológica e a colaboração entre equipes e liderança.
- Engajamento e produtividade: Colaboradores que se sentem cuidados e valorizados são mais dedicados. Um colaborador saudável, física e mentalmente, não é apenas mais produtivo; ele é mais criativo e inovador.
Após a implementação assertiva dessa estratégia, a melhora no clima, engajamento e produtividade são visíveis. A adequação à NR-1 não é, portanto, uma obrigação; é um divisor de águas. É a ferramenta que permite às organizações transformar um desafio de saúde pública em um ambiente de trabalho mais humano, seguro e próspero para todos.
