Parceria testa novo modelo de cuidado ao diabetes no SUS em SP

Projeto entre HC e Sírio-Libanês aposta em mudanças no estilo de vida, cuidado multiprofissional e maior protagonismo do paciente no tratamento do diabetes tipo 2

Crédito: Divulgação

Um novo modelo de cuidado para pessoas com diabetes tipo 2 atendidas pelo SUS começa a ser implementado em São Paulo a partir desta semana. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e o Hospital Sírio-Libanês e propõe uma abordagem que vai além do tratamento medicamentoso tradicional.

O foco do projeto está em mudanças sustentáveis no estilo de vida, na educação em saúde e na participação ativa do paciente no próprio tratamento. O programa terá duração de um ano e deve incluir até 40 novos pacientes por mês.

Público-alvo e divisão do atendimento

O projeto é voltado a adultos entre 45 e 65 anos, em geral com diabetes fora de controle. Durante o período de acompanhamento, o atendimento será compartilhado entre as duas instituições. O Hospital Sírio-Libanês ficará responsável pelos exames e pelo cuidado multiprofissional voltado especificamente ao diabetes, enquanto o HC seguirá com o acompanhamento clínico geral. Ao final de um ano, os pacientes retornam integralmente ao Hospital das Clínicas.

Segundo representantes da iniciativa, o objetivo é oferecer um cuidado mais integrado e adaptado à realidade de quem convive com uma doença crônica.

Estilo de vida como pilar do tratamento para diabetes

A proposta parte do entendimento de que o uso de medicamentos, embora importante, não é suficiente para o controle adequado do diabetes. Mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada, prática de atividade física e acompanhamento psicológico, são consideradas fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

O programa conta com uma equipe multiprofissional formada por enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos. Estão previstas atividades individuais e em grupo, oficinas educativas, acompanhamento remoto e definição de metas personalizadas de cuidado.

Educação em saúde e protagonismo do paciente

Um dos pilares do projeto para cuidado do Diabetes é o chamado letramento em saúde, que busca ampliar a compreensão do paciente sobre a própria doença e estimular decisões mais conscientes no dia a dia. A ideia é romper com o modelo tradicional em que o tratamento fica centralizado exclusivamente no profissional de saúde.

Especialistas envolvidos destacam que o médico acompanha o paciente por poucas horas ao longo do ano, enquanto a maior parte do tempo a pessoa lida sozinha com a doença. Por isso, informação, apoio contínuo e ferramentas práticas são considerados essenciais para mudar a trajetória da saúde.

Realidade social entra no plano de cuidado

Outro diferencial do projeto é considerar as condições reais de vida dos pacientes que possuemdiabetes. Recomendações comuns, como caminhar diariamente ou adotar determinados alimentos, muitas vezes não levam em conta fatores como violência urbana, longos deslocamentos ou limitações financeiras.

Nutricionistas, por exemplo, irão trabalhar com alimentos acessíveis e estratégias práticas, como melhor aproveitamento de feiras livres, desmistificando a ideia de que uma alimentação saudável exige altos custos. As metas de cuidado serão construídas em conjunto com os pacientes, de forma realista e possível.

Acompanhamento contínuo e tecnologia

Enfermeiros terão papel central no acompanhamento contínuo dos participantes, inclusive à distância, auxiliando no monitoramento das metas estabelecidas. A proposta é criar objetivos alcançáveis, que façam sentido dentro do contexto social e econômico de cada paciente.

Além disso, os participantes terão acesso a exames que não fazem parte da rotina do SUS, como bioimpedância, avaliação digital do fundo de olho e análise da pisada, importantes para o rastreamento precoce de complicações. Alguns desses exames contarão com apoio de tecnologia digital e inteligência artificial.

Pesquisa e impacto no SUS

O projeto também terá um braço de pesquisa. Serão acompanhados indicadores clínicos, qualidade de vida e satisfação dos pacientes com o programa — um aspecto ainda pouco explorado nos serviços públicos de saúde. Um subestudo buscará entender os motivos que dificultam a adesão de alguns participantes ao tratamento proposto.

A expectativa é que os resultados ajudem a embasar mudanças mais amplas no SUS. A iniciativa conta com apoio da Umane, associação civil voltada à promoção da saúde pública, e pretende servir como referência para o cuidado de outras doenças crônicas na rede pública.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 01/02/2026
  • Fonte: Fever