Nova regra tributária pressiona mais de 1,1 mil ONGs no ABC

Levantamento aponta necessidade de adaptação contábil para manter benefícios fiscais

Nova regra tributária pressiona mais de 1,1 mil ONGs no ABC

Crédito: (Imagem: Freepik)

Mais de 1,1 mil ONGs e demais entidades do terceiro setor com CNPJ ativo no Grande ABC integram o universo potencialmente afetado pelas mudanças trazidas pela Lei Complementar nº 224/2025, que altera critérios para concessão e manutenção de benefícios fiscais como a isenção de IRPJ e CSLL. O dado tem como base levantamento da Receita Federal e considera organizações sediadas em Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

O número de ONGs representa uma estimativa estatística, já que o enquadramento tributário depende de análise individualizada. Ainda assim, o mapeamento revela a dimensão do desafio para um setor que possui forte presença regional e papel relevante na execução de projetos sociais, culturais, esportivos e comunitários.

Perfil das entidades e distribuição regional

ONGs- Impacto Social
(Divulgação/Freepik)

Entre as categorias identificadas, as associações civis e entidades filantrópicas concentram o maior volume, com 570 organizações. Em seguida aparecem os clubes sociais e esportivos, que somam 323 registros, as associações culturais, com 128, e as entidades de classe, científicas e técnicas, com 59. O levantamento aponta ainda 50 organizações de representação empresarial e 40 fundações privadas com atuação na região.

A distribuição territorial acompanha a dinâmica econômica e populacional do ABC. São Bernardo do Campo lidera com 437 entidades, seguido por Santo André, com 339, e São Caetano do Sul, com 111. Na sequência aparecem Mauá (113), Diadema (91), Ribeirão Pires (58) e Rio Grande da Serra (26).

Exigência de profissionalização contábil para ONGs

Para especialistas, a nova legislação inaugura um ciclo de maior rigor documental e de conformidade fiscal. O contador e especialista em tributação Mafrys Gomes, sócio do Grupo MCR Contabilidade e Auditoria, avalia que a norma impõe revisão estrutural na gestão das organizações. Ele observa que entidades historicamente enquadradas em regimes diferenciados, como as ONGs, precisarão reavaliar procedimentos contábeis e fiscais para preservar a sustentabilidade financeira e a regularidade jurídica.

Alíquota - Reforma Tributária
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo o especialista, em regiões com forte presença de iniciativas comunitárias, como o Grande ABC, os efeitos podem ultrapassar a esfera administrativa. A eventual perda de benefícios ou o aumento de exigências formais tende a impactar diretamente a execução de projetos sociais, o atendimento à população e a continuidade de ações de base local.

Apesar do cenário de alerta, Gomes ressalta que a nova regra não implica perda automática das isenções. O ponto central passa a ser a capacidade de comprovação documental, a adequação do enquadramento jurídico e o fortalecimento dos mecanismos de governança e transparência. Na prática, o movimento exige maior profissionalização da gestão contábil e tributária das entidades.

Risco financeiro e dependência de parcerias

Outro fator de atenção envolve o modelo de financiamento do terceiro setor. Muitas ONGs dependem majoritariamente de doações, convênios públicos e parcerias institucionais, o que torna a manutenção dos benefícios fiscais um elemento central para o equilíbrio das contas. Qualquer alteração no regime tributário pode repercutir na capacidade de captação de recursos e na continuidade de programas sociais.

Diante desse cenário, a recomendação de especialistas é que as ONgs iniciem processos de revisão documental, atualização cadastral e adequação de práticas contábeis, antecipando-se às exigências da Lei Complementar e reduzindo riscos de desenquadramento. No Grande ABC, onde o terceiro setor desempenha papel estratégico na rede de proteção social e no fomento cultural e esportivo, o tema tende a ganhar prioridade na agenda das organizações nos próximos meses.

  • Publicado: 13/02/2026 12:51
  • Alterado: 13/02/2026 12:51
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC