"Ninguém te prepara": os desafios reais da amamentação
Relato de mãe que passou 24 horas sem conseguir amamentar expõe o impacto emocional e físico no pós-parto
- Publicado: 21/08/2026 15:10
- Alterado: 21/08/2026 15:10
- Autor: Daniela Ferreira
“Ninguém te prepara para não conseguir. Senti que estava falhando como mãe e mulher”, diz Bruna Fonseca.
Em 2023, a jornalista Bruna Fonseca deu à luz ao primeiro filho, Lucca. Mas, nos primeiros dias após o parto, a alegria pela chegada do bebê deu lugar à ansiedade: ele passou 24 horas sem conseguir pegar o peito.
“Foram horas angustiantes, porque ninguém te prepara para não conseguir. As próprias novelas, filmes, tudo te faz crer que é um processo natural e fácil. Perceber que, para mim, não seria foi frustrante. Senti uma sensação completa de incapacidade, de que estava falhando enquanto mãe e mulher”, conta Bruna, mãe de Lucca e Murilo.
Este não foi um episódio isolado, a jornalista chegou a tentar diferentes posições e estratégias de pega, seguindo as orientações recebidas de médicas e enfermeiras. Entretanto, parecia que nada conseguia ajudar o pequeno Lucca a conseguir mamar.
“Tentei todas as estratégias de pega que as médicas e enfermeiras tinham me passado, dicas de internet… e ele não pegava. Eu sabia que estava fazendo ‘o certo’, mas não rolava por nada”, relembra.
Quando amamentar dói

As dificuldades enfrentadas por Bruna são comuns nos primeiros dias de vida do bebê. Dor durante as mamadas, fissuras nos mamilos e problemas na pega estão entre as situações que podem tornar o início da amamentação mais difícil.
Segundo a ginecologista Luiza Drummond, dor persistente ou intensa não deve ser considerada uma consequência normal do processo.
“A dor ao amamentar geralmente está relacionada à pega inadequada e, quando persistente ou intensa, necessita de avaliação. As fissuras nos mamilos estão entre as principais causas de dor e podem levar ao desmame se não forem tratadas”, explica.
Algumas características da mãe ou do bebê também podem dificultar a pega. No caso de Bruna, ela conta que só mais tarde percebeu que a anatomia do mamilo influenciava no processo.
A médica afirma que alguns sinais podem indicar que o bebê não está conseguindo mamar da maneira adequada. Dor durante toda a mamada, fissuras, o bebê soltando o peito repetidamente e dificuldades no ganho de peso são alguns deles.
Quando há lesões nos mamilos, o primeiro passo é identificar a causa. “O tratamento deve focar em avaliar pega e posicionamento. Outros recursos úteis são a lanolina pura, que ajuda na hidratação da pele e favorece a cicatrização, e a aplicação de laser nos mamilos quando necessário”, afirma Luiza.
Nem sempre é falta de leite

Outro momento de angústia para muitas mães é a dúvida sobre a quantidade de leite produzida. Para Bruna, essa insegurança acabou se transformando em uma preocupação concreta.
Depois de tentar amamentar e também realizar ordenhas, ela percebeu que conseguia retirar apenas algumas gotas de leite. A situação foi posteriormente avaliada por sua obstetra.
“Me senti a pior mãe do mundo, porque nada te prepara para não conseguir fazer uma das únicas coisas que teu filho precisa de ti no momento: o alimento. Foi difícil, eu não queria falar sobre o assunto com as pessoas. Fiquei super mal porque todo mundo parecia conseguir”, diz.
A ginecologista explica, porém, que a sensação de produzir pouco leite nem sempre significa que exista, de fato, uma produção insuficiente.
“A baixa produção de leite verdadeira é relativamente incomum e deve ser diferenciada da percepção de ‘leite insuficiente’. Mamas mais moles após a mamada são normais, pois a mama não é estoque, é fábrica de leite. Da mesma forma, bebês que mamam com frequência, que esvaziam a mama rapidamente ou que choram após a mamada nem sempre estão com fome”, explica.
Para avaliar se há baixa produção, é preciso observar o bebê. Ganho de peso insuficiente, redução no número de fraldas molhadas e sinais de desidratação, como boca seca e sonolência excessiva, podem indicar a necessidade de investigação.
De acordo com Luiza, diferentes fatores podem interferir na produção de leite. O esvaziamento pouco frequente ou inadequado das mamas está entre as causas mais comuns. Complicações no parto, cirurgias mamárias anteriores, prematuridade e o uso de alguns medicamentos também podem ter influência.
A decisão de dar fórmula

Foi durante uma madrugada de choro que Bruna decidiu oferecer fórmula ao filho pela primeira vez. Cansada e frustrada, ela percebeu que precisava encontrar outra forma de alimentar o bebê.
“Foi tenso, foi uma madrugada de muito choro dele, e eu estava no limite da frustração. Me dei meio que por vencida e decidi tentar. Quando dei a fórmula, ele suspirou aliviado e dormiu a noite toda. Chorei muito porque vi que ele estava com fome. Mas percebi que o problema estava na minha produção, e não nele, pois ele mamou, descansou e relaxou”, conta.
A decisão não foi simples. Para Bruna, recorrer à fórmula significou enfrentar uma expectativa que havia criado sobre a maternidade e sobre a própria capacidade de amamentar.
Com o nascimento do segundo filho, Murilo, em 2025, ela voltou a enfrentar dificuldades semelhantes. Dessa vez, no entanto, já conhecia os sinais e contou com acompanhamento desde o início. Aos dois meses, passou a oferecer fórmula ao bebê.
A experiência com os dois filhos mudou a forma como Bruna enxerga a alimentação dos bebês e a cobrança sobre as mães.
Buscar ajuda faz diferença
Nos primeiros dias, quando há dificuldade para amamentar, a orientação da médica é evitar transformar a tentativa de colocar o bebê no peito em um momento de estresse.
“O primeiro passo é manter a calma e evitar forçar o bebê ao peito, porque isso pode aumentar a resistência e tornar as mamadas mais estressantes para ambos. É recomendado favorecer o contato pele a pele, amamentar nos primeiros sinais de fome, ajustar posição e pega e, se a mama estiver muito cheia e endurecida, realizar a ordenha manual antes da mamada”, orienta Luiza.
Dor intensa, fissuras persistentes e dúvidas sobre a quantidade de leite devem ser avaliadas por um profissional. Para a ginecologista, não é necessário enfrentar essas dificuldades sozinha.
“Os primeiros 30 dias costumam ser o período mais desafiador. Insegurança é comum, mas dor intensa, fissuras ou a impressão de leite insuficiente merecem avaliação, pois, na maioria das vezes, têm solução”, afirma.