Neymar volta aos gramados e começa corrida para a Copa do Mundo 2026

Após adiar cirurgia e viver ano dramático no Santos, craque precisa provar condição física até maio para convencer Ancelotti

Crédito: (Raul Baretta / Santos)

O retorno de Neymar aos gramados neste domingo, na goleada do Santos por 6 a 0 sobre o Velo Clube, trouxe um misto de alívio e apreensão para o torcedor brasileiro. Alívio, porque vimos o camisa 10, enfim, tocar na bola, driblar e sorrir após dez longos jogos de ausência. Apreensão, porque o calendário é implacável. Apesar do apelo popular ser imenso e da “Neymarmania” ainda mover multidões, Carlo Ancelotti não joga para a torcida.

O treinador da Seleção Brasileira já deixou o recado claro nos bastidores da CBF: nome e história não ganham Copa do Mundo em 2026. Neymar só estará na lista final se provar, com fatos e sequência, que pode atuar em alto nível físico. O cronômetro foi disparado na Vila Belmiro, e o craque tem pouco menos de três meses para vencer sua maior adversária: a própria condição clínica.

A volta aos gramados

Neymar - Santos
(Divulgação/SantosFC)

Analisando friamente os 45 minutos em que esteve em campo contra o Velo Clube, os sinais foram vitais. Neymar não se escondeu. Os números, 33 passes certos, 12 passes errados e 4 dribles completados, mostram um jogador que, tecnicamente, ainda sobra no futebol brasileiro. Ele flutuou pelo ataque, caiu pela direita e buscou o jogo.

Porém, a falta de ritmo cobrou seu preço no momento crucial: cara a cara com o goleiro, Neymar perdeu um gol que, em seu auge, faria de olhos fechados. É um erro perdoável para uma reestreia, mas que serve de alerta. O Campeonato Paulista permite esse tipo de “ferrugem”. Uma Copa do Mundo contra a Argentina ou a Espanha, não.

Agora, o nível de exigência sobe drasticamente. O Santos tem uma decisão contra o Novorizontino valendo vaga na semifinal do Paulistão e precisa, desesperadamente, reagir no Brasileirão, onde ainda não venceu após três rodadas. É nesses jogos de alta intensidade, onde a “perna pesa”, que Ancelotti estará com a lupa na mão.

O peso morto de 2025: um ano para apagar da memória

Neymar
(Raul Baretta/ Santos FC)

Para entender o tamanho da montanha que Neymar precisa escalar agora em 2026, é fundamental olhar para o buraco cavado em 2025. O ano passado não foi apenas ruim; foi estatisticamente trágico. Foi o segundo pior ano de sua carreira profissional, superando apenas a temporada do “limbo” no Al-Hilal (2023/24).

Os dados médicos são assustadores para qualquer comissão técnica que preze pela regularidade. Em 2025, Neymar passou exatos 126 dias entregue ao departamento médico. Isso significa que, durante quatro meses do ano, ele foi um desfalque, um custo e uma preocupação, em vez de uma solução.

Dos jogos possíveis pelo Santos na temporada passada, ele esteve ausente em 20 oportunidades: 18 por lesão (problemas musculares na coxa e o início das dores no menisco) e duas por suspensão. Ele disputou 28 partidas, marcou modestos sete gols e deu três assistências. Para um jogador comum, seriam números aceitáveis. Para o gênio da camisa 10, é a prova de que o corpo não estava acompanhando a mente.

Essa ausência custou caro ao Peixe, que ficou órfão de seu ídolo em momentos decisivos. Neymar assistiu do camarote à eliminação na semifinal do Paulistão contra o Corinthians; não estava em campo no jogo de ida contra o CRB pela Copa do Brasil; e só voltou a aparecer na reta final do Brasileirão, quando a situação do Peixe estava crítica.

A aposta de alto risco: heroísmo ou teimosia?

Neymar será desfalque do Santos no clássico diante do São Paulo
(Raul Baretta/Santos FC)

Talvez o ponto mais crítico dessa corrida contra o tempo seja uma escolha pessoal feita pelo próprio atleta, que agora se mostra uma faca de dois gumes. Ao sentir o problema no menisco do joelho esquerdo em novembro de 2025, a urgência cirúrgica foi detectada pelos médicos. No entanto, Neymar optou pelo sacrifício. Decidiu jogar a reta final da temporada no limite da dor, adiando os cuidados para o fim de dezembro.

Essa decisão comprimiu drasticamente seu tempo de recuperação justamente no ano da Copa. Se tivesse operado em novembro, Neymar teria iniciado 2026 pronto para a pré-temporada, ganhando base física junto com o elenco. Ao adiar, ele “perdeu” janeiro e metade de fevereiro.

Agora, ele precisa fazer em semanas o que não conseguiu em um ano inteiro: ter uma sequência ininterrupta de jogos de alta intensidade. O Santos precisa dele, o time ainda não venceu no Brasileirão após três rodadas e tem uma decisão contra o Novorizontino no fim de semana. Mas a Seleção precisa de algo mais: precisa de garantia.

O calendário não perdoa

"Neymar não precisa ser testado", diz Ancelotti sobre Copa do Mundo 2026
(Paulo Pinto/Agência Brasil)

A agenda da Seleção Brasileira transformou os próximos meses em finais de campeonato para o atacante. A primeira data-chave é 16 de março, quando sai a convocação para os amistosos de luxo contra França (em Boston) e Croácia (em Orlando). Estes não são amistosos contra seleções de segundo escalão; são testes de fogo contra a elite europeia.

Se Neymar não estiver nesta lista de março, suas chances caem drasticamente. E se for convocado, precisará mostrar que consegue correr para marcar, recompor e atacar contra atletas que estão no auge da forma física na Europa.

A data definitiva, o Dia D, é 19 de maio, quando sai a lista final para a Copa. Até lá, cada minuto em campo pelo Santos vale ouro. A estreia do Brasil no Mundial está marcada para 6 de junho, contra o Egito, em Cleveland.

A dúvida que tira o sono da torcida e da comissão técnica não é técnica. Os passes contra o Velo Clube provaram que a magia existe e que o talento está ali. A dúvida é puramente biológica. O futebol moderno, especialmente sob o comando de Ancelotti, não aceita mais o “craque que anda em campo”.

Neymar tem três meses. Para muitos, é tempo suficiente. Para quem vem de 126 dias parado em um ano, é uma maratona que precisa ser corrida em ritmo de 100 metros rasos. A corrida começou.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 16/02/2026
  • Fonte: Teatro Liberdade