Negociadores da COP30 alertam sobre custos de acomodação em Belém

Negociadores da COP30 expressam preocupação com altos preços de hospedagem em Belém e ameaçam transferir evento se condições não melhorarem.

Crédito: Belém (PA), sede da COP30, lança um desafio inédito para o jornalismo: traduzir a complexidade das negociações climáticas diretamente do coração da Amazônia

Um grupo composto por 25 negociadores que participam da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, manifestou preocupações sérias em relação aos altos preços de hospedagem no Pará. Em um documento recentemente assinado, os negociadores propuseram que, caso essas questões não sejam resolvidas, o evento poderia ser parcialmente transferido para outra localidade.

A Folha teve acesso ao referido documento e estabeleceu contato com representantes de várias nações signatárias. No texto, os diplomatas — incluindo aqueles de países economicamente desenvolvidos — solicitam a garantia de condições mínimas para acomodação e custos adequados, enfatizando que isso deve ser assegurado “seja em Belém ou em outro lugar”.

De acordo com fontes que preferiram manter o anonimato, a insatisfação expressa pelos países é particularmente focada nas opções limitadas de hotéis disponíveis, além de preocupações com logística, segurança e transporte em geral.

O documento também reconhece o empenho do governo Lula (PT) e da organização do evento na realização da conferência, destacando a escolha de Belém como sede por ser uma cidade que enfrenta os desafios das mudanças climáticas. Contudo, os signatários não hesitam em apontar suas preocupações acerca da infraestrutura disponível.

A carta afirma: “[Participar] implica em ter a possibilidade de viajar para Belém, alojar-se em acomodações adequadas e acessíveis, e realizar deslocamentos seguros e eficientes até o pavilhão do evento, mesmo durante a noite”.

Com apenas cem dias até o início da COP30, os países reiteram a necessidade urgente de garantir essas condições. Eles destacam que se a conferência for mantida integralmente em Belém, as exigências devem ser atendidas.

O documento foi direcionado tanto à organização do evento quanto à UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima). Em resposta ao contato da Folha, a secretaria-executiva da COP30 confirmou o recebimento da carta, mas informou que não houve discussão sobre o tema com outras nações. “Não existe possibilidade da COP30 ou parte dela ocorrer fora de Belém”, afirmou o órgão. A UNFCCC não forneceu resposta imediata.

Entre os signatários estão coletivos como o Grupo de Negociadores Africanos e os Países Menos Desenvolvidos (LDC). O documento também conta com a adesão de nações desenvolvidas como Áustria, Bélgica, Canadá, República Checa, Finlândia, Países Baixos, Noruega, Suécia e Suíça.

A insatisfação é especialmente pronunciada em relação à cúpula de chefes de Estado, onde os principais líderes dos países se reúnem. Um diplomata influente nas negociações climáticas da ONU comentou sob condição de anonimato que há forte pressão para que essa parte do evento seja realocada.

Conforme revelado pela agência Reuters, uma reunião emergencial da UNFCCC ocorreu na última terça-feira (29) para abordar as dificuldades logísticas. O Brasil tem até 11 de novembro para apresentar soluções às preocupações levantadas durante o encontro.

Richard Muyungi, presidente do Grupo de Negociadores Africanos, destacou: “O Brasil possui muitas opções para garantir uma COP bem-sucedida. Por isso estamos pressionando por respostas mais satisfatórias ao invés de sermos orientados a reduzir nossas delegações”.

A reunião agendada para o dia 11 foi convocada para dar continuidade ao diálogo sobre as ações necessárias para a realização da COP30.

Nesta quinta-feira (31), André Corrêa do Lago, presidente da COP, confirmou que alguns países solicitaram que a conferência não ocorra na capital paraense. “Acredito que talvez os hotéis não estejam percebendo a crise que estão causando”, afirmou.

Desde a escolha de Belém como sede da COP30, os preços das diárias dispararam. A organização busca alternativas para lidar tanto com o aumento dos custos quanto com a escassez de leitos para acomodar as cerca de 50 mil pessoas esperadas no evento.

Dentre as estratégias adotadas estão investigações internas sobre práticas abusivas no setor hoteleiro e mobilizações envolvendo plataformas como Airbnb, escolas e habitações do programa Minha Casa Minha Vida, além do uso de navios-cruzeiros como opções temporárias.

Segundo fontes próximas ao processo negociador, a carta estava sendo elaborada há semanas; no entanto, os signatários optaram por esperar até que a plataforma oficial de hospedagem do governo fosse lançada antes de finalizá-la.

A plataforma foi lançada com atraso e inicialmente restrita aos países participantes da conferência. Ela visa oferecer quartos com diárias limitadas a US$ 220 (aproximadamente R$ 1.225) para nações em desenvolvimento ou insulares. Além disso, cada delegação desses países terá direito a 15 quartos por até US$ 200 e as demais delegações poderão reservar 10 quartos por até US$ 600 — totalizando cerca de 2.500 acomodações disponíveis.

A reportagem tentou contatar a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis para obter um posicionamento sobre a situação atual dos preços das hospedagens mas não obteve retorno imediato.

No documento enviado pelos países negociadores, é solicitado que as condições sejam viabilizadas para garantir acomodações com diárias limitadas a US$ 164 (R$ 918), preferencialmente nas proximidades do pavilhão onde as negociações ocorrerão no Parque da Cidade.

Os representantes ressaltam que atualmente sua maior preocupação é acomodar todos os participantes adequadamente e expressam receio diante da falta de clareza sobre como esse desafio será enfrentado. Eles afirmam que nunca antes tantas delegações se sentiram inseguras quanto à sua participação no evento quando faltam apenas 100 dias para sua realização.

Além disso, ressaltam seu empenho em reduzir suas delegações conforme solicitado pelo Brasil; no entanto, alertam que existe um limite para essa redução devido à natureza complexa das negociações na COP.

O documento critica também a possibilidade de participantes serem obrigados a dividir quartos como forma de economizar custos e reafirma a necessidade da participação efetiva da sociedade civil nas discussões. Os signatários pedem apoio à UNFCCC nesse sentido.

A carta conclui: “Se essas condições não forem garantidas para todos aqueles envolvidos nas nossas negociações multilaterais, corremos o risco de não alcançar um resultado positivo”.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 01/08/2025
  • Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA