Por questões de mudanças climáticas, nascimentos no maior berçário de tartarugas do Brasil cai 75%
A previsão de 350 mil filhotes em 2024 preocupa especialistas e ativistas ambientais
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 20/12/2024
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O Projeto Quelônios da Amazônia (PQA) divulgou recentemente que o número de nascimentos de quelônios no maior berçário do país pode não ultrapassar 350 mil em 2024, uma queda alarmante em comparação com os mais de 1,4 milhão registrados no ano anterior. Os quelônios, que incluem tartarugas, jabutis e cágados, têm sua principal representatividade no PQA nas espécies de tartaruga-da-amazônia e tracajá.
A análise foi apresentada pelo Grupo Energisa, um dos colaboradores do projeto, e baseia-se em dados coletados até a última quarta-feira (18) pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). As informações referem-se especificamente ao Vale do Guaporé, localizado em Rondônia, na fronteira entre Brasil e Bolívia.
A drástica diminuição é atribuída a atrasos significativos no ciclo reprodutivo e nos nascimentos dos quelônios. Especialistas do Ibama, junto a biólogos que estudam essas espécies há várias décadas, identificam que essa situação é resultado de fenômenos climáticos extremos enfrentados ao longo deste ano. Entre eles, destacam-se a seca severa na Região Norte, fumaça proveniente de queimadas intensas, cheias dos rios e temperaturas elevadas. Para mitigar as perdas e salvar o máximo de filhotes possível, foi organizada uma força-tarefa de resgate no Rio Guaporé.
Sobre o Projeto Quelônios do Guaporé
Este projeto é uma colaboração entre o Ibama, a Associação Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale), com o apoio do Grupo Energisa. Com mais de 22 anos de existência, a iniciativa tem como objetivo proteger os quelônios nativos brasileiros, incluindo as tartarugas-da-amazônia e tracajás. Além disso, o projeto também se dedica à preservação de aves como quero-quero e gaivotas e lagartos que utilizam as praias do Rio Guaporé para desova.
Reconhecido como um dos maiores berçários de quelônios globalmente e o maior do Brasil, o Vale do Rio Guaporé abriga sete praias essenciais para a desova das tartarugas-da-amazônia e tracajás, sendo cinco dessas localizadas no lado brasileiro e duas no boliviano.
Impactos Climáticos
Entre agosto e outubro de 2024, a densa fumaça das queimadas afetou a visibilidade na região. “Essa fumaça desorientou as tartarugas devido à dificuldade em identificar predadores naturais ou mesmo chegar às praias para desovar”, explica José Carratte, biólogo responsável pelo acompanhamento do projeto e supervisor de Meio Ambiente do Grupo Energisa. O atraso resultante gerou um efeito cascata no ciclo reprodutivo das tartarugas.
Além disso, segundo César Luiz Guimarães, superintendente do Ibama em Rondônia, a seca extrema contribuiu para o aumento dos bancos de areia nos rios e seus afluentes. “Esse cenário dificultou o acesso dos filhotes recém-nascidos ao rio, expondo-os por mais tempo a predadores como urubus e jacarés”, afirmou César.
A situação foi ainda mais complicada pelo fato de que muitos nascimentos ocorreram durante períodos de chuvas intensas que rapidamente elevavam os níveis dos rios, resultando em inundações que afogavam muitos filhotes antes que conseguissem emergir das areias.
A força-tarefa realizada no local conseguiu resgatar ninhos e um grande número de filhotes das tartarugas-da-amazônia; apenas no último domingo foram contabilizados mais de 200 mil nascimentos. As equipes trabalharam contra o tempo para proteger os filhotes da cheia dos rios, permitindo uma soltura planejada e segura.
O Ibama confirmou à Agência Brasil que a soltura dos quelônios já teve início. Estão sendo realizadas ações contínuas de manejo e monitoramento com o intuito de minimizar os impactos das mudanças climáticas sobre esses animais vulneráveis.
Histórico do Programa Quelônios da Amazônia
Diante das preocupações crescentes sobre a possível extinção das espécies nativas, o governo federal lançou o Projeto Quelônios da Amazônia em 1979. Desde então, cerca de 100 milhões de filhotes foram manejados, principalmente das espécies podocnemis expansa, podocnemis unifilis e podocnemis sextuberculata.
Graças aos esforços desse programa, o Brasil se destaca como o único país da América do Sul com estoques significativos de quelônios suscetíveis à recuperação sustentável. Esse sucesso deve ser atribuído às comunidades locais que se uniram às iniciativas voltadas à proteção dessas espécies.
A partir da portaria 259/2011, o Programa Quelônios da Amazônia foi direcionado ao Ibama como parte da política nacional para conservação da biodiversidade. O PQA visa garantir a preservação das espécies de quelônios na Amazônia dentro de um contexto sustentável que promova a fixação populacional no campo, geração de empregos e melhorias socioeconômicas nas comunidades ribeirinhas das bacias dos rios Amazonas e Araguaia/Tocantins.