Não existe amor em SP
Entre o trânsito, pressa e a indiferença, um desabafo sobre o que São Paulo deixou de ser
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 19/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Recentemente, li o texto de um colega que dizia: “São Paulo é aquele parente que você ama, mas precisa morar longe para continuar amando”. Eu ri quando li isso, porque sinto exatamente a mesma coisa — com a pequena diferença de que eu não amo esse parente.
Dias atrás precisei ir até o centro da capital paulista. Para um compromisso às 10h, meu despertador tocou às 5h. Saí de casa às 6h, escoltada pelo medo do trânsito caótico que já é marca registrada de São Paulo. Mas, ao percorrer as ruas, percebi que não era só o congestionamento que me assustava; as pessoas também me davam medo.
Notei uma falta profunda de empatia. É o desrespeito com os mais vulneráveis — pedestres e motoqueiros —, a pressa cega de quem dirige mexendo no celular e a indiferença com a segurança de quem está ao lado, vias cheias de buracos e prédios por todo o lado.
Nas calçadas e nos ônibus lotados, o que vi foram rostos sem ânimo. E não é para menos: acordar de madrugada, pagar caro no transporte público e lidar com a falta de educação para, muitas vezes, chegar a um emprego que paga mal, acaba com a energia de qualquer um.
Para completar o cenário, na volta para casa, meu maior medo era a chuva. Sabemos que, se cai um pingo em São Paulo, a “cidade que nunca dorme” simplesmente trava. O transporte para, a luz acaba, os pontos de alagamento surgem e o caos se instaura.
Enquanto eu desabafava, meu marido me lançou um desafio: “Se você recebesse uma proposta para receber muito dinheiro, mas tivesse que morar no centro de São Paulo sem poder sair, você aceitaria?”
Por um segundo, pensei em dizer sim. Afinal, quem vive bem em São Paulo geralmente é quem tem poder financeiro — aquela parcela que jura que “todo mundo tem as mesmas 24 horas” e que só não é rico quem não quer. Mas olhei em volta e respondi que não. Não vale a pena ser infeliz e viver no meio do caos apenas por dinheiro. O que eu quero para mim e para minha família não é uma vida perdida no trânsito, convivendo com pessoas que nem respondem a um cumprimento por estarem sempre atrasadas. Sei que muita gente encara esse ritmo pesado por necessidade ou para “crescer na vida”, mas a impressão que tenho é que, nessa busca pelo sucesso, todo mundo está se perdendo pelo caminho.

Sei que São Paulo tem lugares incríveis e pessoas tão acolhedoras quanto as que encontramos em Minas ou Goiás. Sei também que esses problemas não são exclusivos da capital paulista. Mas o pensamento de viver em meio a tudo isso, me apavora. Não tenho nada contra quem ama a cidade, nem contra os paulistanos, é só que sinto falta de algo essencial. Falta vida, falta cor. Voltei com a música do Criolo na cabeça e a certeza de que ela é a mais pura verdade: