Aumenta número de motoristas autuados por embriaguez em São Paulo

Em 2025, autuações por embriaguez mais que dobraram, revelando falhas na prevenção e urgência de mudanças culturais no trânsito

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O número de motoristas autuados por embriaguez no Estado de São Paulo mais que dobrou entre 2023 e 2025. Considerando apenas os sete primeiros meses de cada ano, segundo dados do Detran-SP, as infrações saltaram de 5.393 em 2023 para 11.685 em 2025, um aumento alarmante que escancara a urgência de novas abordagens. Somente na capital paulista, foram registradas 1.626 autuações em 2025.

Além dos que realizaram o teste do bafômetro e foram autuados, chama a atenção o número de motoristas que recusaram se submeter ao exame: de 4.978 recusas em 2023, passamos para 11.039 em 2025. Somando os dois tipos de infrações, o total chega a impressionantes 22.724 autuações em apenas sete meses.

Fiscalização rigorosa, mas sem impacto nos sinistros

Estado de SP reduz acidentes e estanca mortes no trânsito em 2025 -Embriaguez
Divulgação/Detran

Apesar do aumento das autuações e da rigidez das penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro, os índices de sinistros de trânsito envolvendo embriaguez não demonstram queda significativa. Ao contrário, os episódios continuam a ocorrer com frequência preocupante.

Nesta semana, mais uma tragédia: Patrícia Correia de Melo, de 33 anos, morreu na hora após ser atropelada junto a um grupo de seis pessoas que retornava da igreja em Cotia, na Grande São Paulo. O veículo, em alta velocidade, colidiu frontalmente com outro e, com o impacto, foi lançado sobre os pedestres. O motorista, de 61 anos, estava embriagado e foi preso em flagrante. O acidente foi registrado por câmeras de segurança.

As penalidades são suficientes?

Eduardo Merlino/PSA

Atualmente, a multa por dirigir sob efeito de álcool é de R$ 2.934,70, com processo de suspensão da CNH. Em caso de reincidência no prazo de 12 meses, o valor é dobrado para R$ 5.869,40, e o motorista pode ter o direito de dirigir cassado, obrigando-o a refazer todo o processo de habilitação após um período de 24 meses.

Ainda assim, a punição por embriaguez parece não surtir o efeito esperado. Réus primários, mesmo após causarem sinistros com vítimas fatais, frequentemente respondem ao processo em liberdade mediante fiança, o que gera indignação e sensação de impunidade, especialmente entre vítimas e familiares.

O fator cultural: quando o inaceitável se torna rotina

O problema da embriaguez ao volante vai além da legislação: ele está entranhado na cultura. Mesmo com amplo conhecimento sobre os riscos da combinação entre álcool e direção, é comum ver pessoas saindo de bares, festas ou encontros sociais e assumindo o volante sob efeito de bebida alcoólica.

Há ainda uma barreira social: muitos evitam confrontar ou denunciar embriaguez ao volante por medo de represálias ou por receio de serem vistos como inconvenientes. Essa aceitação tácita do risco contribui para a normalização de um comportamento criminoso.

Lições internacionais para lidar com embriaguez ao volante

Países como Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e Suécia mostram que a fiscalização sozinha não basta. Nestes lugares, campanhas de incentivo à denúncia anônima por telefone ou aplicativos têm se mostrado eficazes. Na Austrália, por exemplo, regiões com alta adesão a essas campanhas registraram uma redução de 26% nas colisões fatais.

Outro instrumento eficaz contra a embriaguez no trânsito é o bafômetro veicular (ignition interlock), um dispositivo que impede o funcionamento do carro caso o condutor apresente qualquer nível de álcool no organismo. Em alguns países, o uso é obrigatório após a primeira infração; em outros, é aplicado em reincidências. Em todos os casos, as taxas de reincidência despencam, com redução de até 60% nos casos de direção sob efeito de álcool.

Boas práticas que podemos aplicar

No Brasil, já temos exemplos inspiradores de campanhas de denúncia, como o Sinal Vermelho, voltado à violência doméstica, em que vítimas pedem ajuda discretamente ao mostrar um “X” vermelho na mão. O protocolo Não se Cale, presente em bares e restaurantes, também promove o acolhimento e a denúncia.

Embriaguez - Trânsito
Fernando Frazão/Agência Brasil

Essas iniciativas podem ser adaptadas para combater a direção alcoolizada. Bares, restaurantes e eventos poderiam se tornar parceiros ativos, oferecendo canais discretos de denúncia e incentivando o uso de transporte por aplicativo. Essa abordagem pode ser mais eficaz do que qualquer panfleto ou campanha institucional isolada.

A vida não permite replay

Os números mostram que autuar não é suficiente. É necessário prevenir, dissuadir e conscientizar. A direção sob efeito de álcool não é um erro, é uma escolha criminosa, com potencial letal.

Precisamos reconhecer a responsabilidade coletiva nesse combate: autoridades, empresas, estabelecimentos comerciais, plataformas de transporte e, principalmente, a sociedade. Denunciar um motorista embriagado pode salvar vidas.

No trânsito, não há botão de voltar. As leis da física são implacáveis, e a única resposta aceitável é a tolerância zero, não apenas na legislação, mas também na cultura. A mudança começa quando deixamos de aceitar o inaceitável e passamos a proteger, com coragem e empatia, a vida de todos.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 08/08/2025
  • Fonte: FERVER