Motoapp: vilão ou solução? Como dados públicos e privados podem mudar esse debate
Decisão da Alesp reacende discussão sobre segurança, regulamentação e impacto urbano dos motoapp
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 13/06/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) aprovou recentemente um projeto de lei que determina que todos os municípios paulistas regulamentem os serviços de transporte por motocicleta via aplicativo, popularmente conhecidos como “motoapps”.
A medida surge em um momento em que o debate sobre segurança, legalidade e impacto urbano desses serviços ganha força, especialmente na capital e em regiões metropolitanas.
Apesar da decisão da Alesp, a 99, empresa que opera o serviço 99Moto, considera o projeto inconstitucional. Segundo representantes da plataforma, já existe uma legislação federal que trata do tema, e leis estaduais ou municipais que busquem restringir ou proibir a atividade estariam contrariando essa norma superior.
“Vamos continuar batalhando por isso em todas as instâncias possíveis para mostrar que essa regulamentação, como está posta, é inconstitucional”, declarou Igor Soares, diretor de segurança da 99, durante coletiva à imprensa.
Dados revelam que uso profissional tem menor taxa de sinistros
Contrariando parte das críticas sobre a periculosidade do serviço, os dados apresentados em um estudo inédito feito pela 99 em parceria com o Instituto Cordial mostram que o uso profissional de motocicletas apresenta uma taxa de sinistros por quilômetro até 2,8 vezes menor do que o uso pessoal.
“É importante destacar que os motociclistas profissionais estão mais tempo nas ruas, o que aumenta a exposição. Ainda assim, os dados mostram que os sinistros são proporcionalmente menores”, afirmou Luís Fernando, diretor de operações do Instituto Cordial.
Outros números reforçam o argumento. A 99Moto tem taxa de menos de um sinistro grave ou fatal a cada milhão de viagens. Em termos de mortes, a proporção é quatro vezes menor do que a média nacional: 8 mortes a cada 100 mil motociclistas, contra 34 por 100 mil no Brasil.
Tecnologia e dados para redesenhar a cidade
A empresa também tem investido em inovação para reduzir riscos. São mais de 50 funcionalidades de segurança integradas à plataforma, como telemetria para monitorar curvas perigosas e velocidade, alertas sonoros, controle de fadiga e gravação de áudio em tempo real.
Além disso, a 99 compartilha dados de acidentes com prefeituras e secretarias de mobilidade para colaborar com o planejamento urbano. O objetivo é identificar pontos críticos de sinistros e orientar intervenções, como melhorias em sinalização, iluminação e redutores de velocidade.
“A gente passa essa informação para o poder público, para poder fazer justamente o planejamento de vias. O que acontece nas rotas e nos pontos onde a gente tem uma grande concentração de incidentes. Às vezes é uma rotatória, essa sinalização. Às vezes é uma avenida que precisa ter um controle de velocidade. Então tudo isso são dados que a empresa possui e está disposta a compartilhar” comentou Igor.
Luís Fernando Meyer, diretor de operações do instituto cordial, apresentou o exemplo de uma cidade de Fortaleza que conseguiu diminuir o número de sinistros após fazer alterações na sinalização e planta do local.

Quem usa e quem dirige os motoapps?
O perfil dos motociclistas profissionais cadastrados na 99 tende a ser de homens entre 25 e 45 anos, mais experientes e mais cautelosos, segundo a empresa. Muitos iniciam no transporte de cargas e, só depois, passam a levar passageiros. Isso gera uma espécie de hierarquia entre os profissionais, o que, de acordo com o estudo, contribui para um maior senso de responsabilidade na condução.
Já entre os usuários, a maioria são mulheres de baixa renda, que usam o serviço principalmente para percursos curtos em regiões periféricas, onde o transporte coletivo é deficiente ou a caminhada representa risco, como ruas escuras e sem calçada.
“Uso o 99Moto para ir até o terminal de ônibus, porque não tem linha que passe na minha rua. É mais rápido e mais seguro do que caminhar”, relatou uma usuária da plataforma durante a coletiva.
Impacto social e mobilidade inclusiva
Segundo a 99, 75% das corridas começam ou terminam em áreas periféricas, e boa parte delas são conexões com o transporte público. A empresa defende que o serviço democratiza a mobilidade urbana, especialmente para quem não tem carro nem linhas de ônibus próximas.
“A gente não limita quilometragem, mas a maioria das corridas é de curta distância, justamente para cobrir o que o transporte coletivo não alcança”, explicou Soares.
Além disso, o custo de operação é menor. Segundo a empresa, mesmo com tarifas mais baixas do que as de carro, os motociclistas costumam lucrar mais por quilômetro, devido ao menor custo de manutenção da moto e maior eficiência em consumo de combustível.
E agora? Caminhos para a regulamentação
O debate sobre a regulamentação dos motoapps está longe de um consenso. De um lado, há pressões políticas e preocupações legítimas sobre segurança. Do outro, evidências e dados técnicos indicam que o modelo pode ser seguro e eficiente, desde que amparado por boas práticas e políticas públicas colaborativas.
“A regulamentação precisa incluir critérios técnicos, como formação dos condutores, limites de velocidade, características dos veículos e infraestrutura adequada. Só proibir não resolve. É preciso redesenhar o sistema viário pensando também nos veículos de duas rodas”, defendeu Luís, do Instituto Cordial.
Enquanto isso, a 99 segue buscando atuar em conjunto com prefeituras e organizações civis para construir soluções integradas. Para a empresa, a palavra-chave é responsabilidade compartilhada: entre usuários, empresas, governo e sociedade.
“O desafio não é só regulamentar ou proibir, mas construir cidades mais seguras e acessíveis para todos. O motoapp pode ser parte da solução, não do problema.” Igor Soares, diretor de segurança da 99.