Motim bolsonarista enfraquece Motta e pressiona Lira na Câmara

Motta enfrenta resistência após motim bolsonarista e busca apoio de Lira

Crédito: Hugo Motta /Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados.

A recente ocupação do plenário da Câmara dos Deputados por parlamentares bolsonaristas gerou uma crise significativa que chamou a atenção para a liderança do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A situação foi contornada apenas após a intervenção do ex-presidente Arthur Lira (PP-AL), mas não sem deixar marcas. Legisladores analisam que a autoridade de Motta ficou comprometida, o que pode impactar tanto a condução dos trabalhos legislativos quanto suas aspirações de reeleição em 2027.

Aliados de Motta reconhecem que ele esteve à beira de perder a governabilidade, enfrentando dificuldades para se estabelecer na presidência da Câmara. Apesar de ameaçar suspender o mandato de quem não permitisse sua presidência, sua tentativa inicial de retomar a cadeira foi marcada por tumulto. Ele convocou uma sessão para as 20h30, mas só conseguiu entrar no plenário após as 22h, enfrentando resistência e tendo dificuldades até mesmo para sentar-se na cadeira presidencial.

Interlocutores próximos ao presidente da Câmara argumentam que Motta evitou um confronto aberto com os membros da Casa, focando em garantir sua posição e iniciar os trabalhos legislativos. Contudo, a sessão não resultou em votações efetivas, já que dois partidos fundamentais de sua base, o PP e o União Brasil, se encontravam em obstrução.

Contrapõe-se a essa situação a do Senado, onde Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) optou por realizar a sessão de forma remota, uma medida rara desde o período da pandemia. Essa decisão é vista como uma forma de evitar conflitos diretos.

Durante o dia, Motta procurou diálogo com os bolsonaristas, enfatizando que não cederia à chantagem e que um acordo só poderia ser estabelecido após a desocupação do plenário. Embora o encontro tenha sido cordial, muitos bolsonaristas consideraram suas promessas insatisfatórias.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), abandonou a reunião ao saber que a sessão prosseguiria mesmo diante da resistência e buscou diretamente Lira. Foi somente após essa abordagem que as negociações começaram a avançar, com Lira liderando as conversas sobre demandas do PL.

A pressão sobre Motta também se intensificou devido à recente decisão do STF que resultou na prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que provocou manifestações entre seus apoiadores na Câmara. Os bolsonaristas condicionaram sua saída do plenário à aprovação de propostas significativas como mudanças no foro especial e uma anistia ampla para todos os envolvidos nos eventos do dia 8 de janeiro de 2023.

Lira e outros líderes partidários passaram a negociar um pacote de demandas com os bolsonaristas, numa reunião considerada mais produtiva do que a conversa com Motta. Eles se comprometeram em ajudar a construir esse pacote, especialmente no tocante às modificações desejadas sobre foro especial.

Motta tentou mobilizar seus aliados para restaurar sua autoridade na presidência, mas essas iniciativas não tiveram sucesso imediato. Assim, deputados de diversas correntes políticas voltaram a buscar Lira como mediador para resolver o impasse.

O clima geral entre os deputados sugere um descontentamento com a fragilidade demonstrada pelo atual presidente da Câmara, afetando sua imagem e credibilidade perante seus pares e a sociedade.

Na tentativa de retomar o controle sobre os trabalhos legislativos, Motta agendou uma nova sessão para esta quinta-feira. Sua intenção é demonstrar força e garantir que medidas importantes sejam discutidas antes que prazos críticos expirem.

No entanto, o episódio recente acentuou as dúvidas sobre sua capacidade de liderança. Críticas surgiram em relação ao cumprimento de acordos anteriores e à sua habilidade em gerenciar as diferenças políticas existentes dentro da Casa. Os aliados destacam um contraste entre seu estilo conciliador e o manejo mais assertivo de seu antecessor.

Adicionalmente, há preocupações quanto à falta de recursos nas emendas parlamentares disponíveis para ele gerir eficientemente o plenário. Diferentemente de Lira, que utilizava as emendas de relator para fortalecer suas bases eleitorais, Motta ainda não conseguiu resolver questões relacionadas às novas emendas que deveriam substituir as anteriores.

A instabilidade em sua liderança suscita questionamentos sobre sua reeleição no próximo ciclo eleitoral. Embora esteja atualmente no comando da Casa — fator que tradicionalmente favorece incumbentes — suas recentes dificuldades podem abrir espaço para novos candidatos emergirem na disputa.

No contexto das recentes tensões, Elmar Nascimento (União Brasil-BA), antes cotado como sucessor de Lira, tornou-se um dos principais atores nas negociações entre partidos e poderá surgir como uma figura relevante em futuras discussões sobre liderança na Câmara.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 07/08/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo